ilustrar – a cama dos ditadores
•Janeiro 27, 2012 • Deixe um Comentário«as coisas», de inês fonseca santos, com ilustrações de joão fazenda, hoje, pelas 22h, no lux, pela abysmo
•Janeiro 13, 2012 • Deixe um Comentáriopassos sonda frexes para as águas para afundão geral do país – ilust. ptn
•Janeiro 12, 2012 • Deixe um Comentáriozambujo vs josé luís gordo, excerto de uma conversa a chegar na edição de janeiro da «epicur» – foto ptn
•Janeiro 12, 2012 • Deixe um ComentárioO que significa deixar cair o Fado na banalidade?
José Luís Gordo – Olha, por exemplo, por o fado a ser cantado no Eléctrico 28. Como é que se pode cantar o Fado com aquela chiadeira, aquele balanceio, com pessoas a entrar e a sair, a porem notas de euros nos buracos das guitarras, como se os cantores e os guitarristas fossem ceguinhos… É diferente: o Fado não precisa disso para sobreviver. Isso estraga o fado, não lhe dá mérito, retira-lhe.
António Zambujo – Sim, mas não vamos dizer que é tudo mau. As Festas da Cidade são um bom exemplo contrário do que se deve e pode fazer pelo Fado.
José Luís Gordo – Sem dúvida, mas numa cidade como Lisboa, cheia de pequenas praças, becos e ruelas onde se pode cantar o fado com dignidade, pô-lo num eléctrico… Tu ias lá cantar?
António Zambujo – Não, claro que não.
José Luís Gordo – Pois! E eu já o disse ao Miguel Honrado e ao António Costa. É claro que foi algum tinhoso que lhes foi lá vender esse peixe. Mas a culpa não é de quem vende, é de quem compra. Se querem pôr as pessoas a ver Fado, no seus ambientes naturais, as casas licenciadas, é preferível que as ajudem, por exemplo, a terem melhores cartazes, melhores elencos. Porque as despesas para ter uma casa com qualidade a funcionar 365 dias por ano são incalculáveis. Melhor era que dessem vouchers às pessoas que não têm possibilidades para ir a esses locais.
uma multidão perversa
•Janeiro 12, 2012 • Deixe um ComentárioSobre Manuel Freches, Passos Coelho, Sócrates, afins, sócios, comparsas, compadres, homens de respeito e cias; Tocqueville: “Vi uma multidão de homens perturbarem o país para se engrandecerem: é a perversidade habitual.”
a «morte de judas» com o notável dinarte branco em reposição na cornucópia
•Janeiro 12, 2012 • Deixe um Comentárioentrevista inédita a maria teresa horta por ocasião da atribuição do prémio literário d. dinis, fundação da casa de mateus, ao romance “As Luzes de Leonor”
•Janeiro 5, 2012 • 1 ComentárioSobre Uma Mulher Perigosa
TXT Pedro Teixeira Neves
Foi há quase um ano. Maria Teresa Horta editou, na D. Quixote, a quixotesca viagem ficcional em torno da vida da sua avó em quinto grau, Leonor de Lorena, mais conhecida por Marquesa de Alorna, muito embora tal título apenas lhe tenha cabido já em vida adiantada. Um trabalho literário de invulgar empreitada que lhe tomou mais de uma década de escrita. Mas já vamos a esses quinhentos. Para já, alguma coisa a respeito dessa mulher que deixou marca indelével no seu tempo e em todos aqueles com quem privou. O fulcro: era neta dos Marqueses de Távora, executados pelo Marquês de Pombal sob suposta acusação de atentado contra a vida do rei, e foi pois por herança genética que se viu prisioneira durante cerca de duas décadas num convento, juntamente com a sua mãe e irmã. Leonor estava, porém, votada a desígnios maiores do que se deixar morrer ou encanecer sob as sombras de um chão católico de freiras e quejandas. Ali, aproveitou para crescer: por fazer-se mulher, bela por sinal, e por crescer em termos culturais, encontrando tempo e maneira de ler todos os grandes pensadores e filósofos da História. Não por acaso, crescia também o seu cortejo de admiradores, muitos dos quais, homens e mulheres, iam vê-la, ou visitá-la ao catre. Aos vinte e muitos Leonor viu-se livre. Escolheu marido por gosto próprio, recusou amantes e maridos outros, e foi conhecer mundo. Ou foi-se dar a conhecer ao mundo! Recebida por reis e rainhas, cedo entendeu os rumos político-diplomáticos de uma Europa prestes a cair em mãos napoleónicas. Talvez por isso mesmo, por alertar para esse perigo, e por ter apelado a uma Europa unida contra Napoleão, se viu exilada manu militari por Pina Manique, certamente a mando de influências gaulesas. No entretanto, Leonor cresci como criadora, como poetisa, com musa inspiradora também – que o diga um Alexandre Herculano. Pelo caminho, tempo e dores para oito partos! Vida cheia e vivida a de Leonor, expoente de Luz ao longo de um caminho que lhe queriam de sombras, lutando contra um passado sombrio, iluminando um futuro que parecia em perigo. Pois bem, havia treze anos que também Maria Teresa Horta lutava contra todas estas sombras e luzes de uma mulher com a qual desde pequena, por influência de sua mãe, aprendeu a conviver. É obra, grande obra, um intensíssimo trabalho criativo (note-se não biográfico, embora partindo de traços biográficos reais) que agora chega ao fim. Cremos, porque nem toda a vida de Leonor aqui se encontra plasmada. Importa, contudo, deixar explícito: o fulgurante trabalho poético que aqui está narrado, uma admirável filigrana que parágrafo a parágrafo se vai entrelaçando criando um soberbo fresco de época, entrando no mais dentro das personagens, chegando ao espírito do tempo como poucos conseguiram. «As Luzes de Leonor», um livro com tudo o que dignidade e mérito encerra uma tal palavra.
Maria Teresa Horta, é possível resumir o que traduz este livro, mais de uma década de pesquisa, se calhar uma vida inteira?… Como dizer, em poucas palavras, quem foi a Marquesa de Alorna?
É exactamente a essa questão que eu pretendo dar resposta; quem foi essa mulher? E não faço a mínima ideia ainda, porque neste momento quanto mais… eu neste momento estou numa altura em que faço a pergunta que a Virginia Woolf fez à Sackville-West quando acabou o «Orlando» e tinha ali, digamos, a sua heroína viva, eu não tenho, não posso fazer essa pergunta. Mas ela perguntou-lhe: eu agora que acabei, pergunto a mim própria, será que te inventei, dos pés à cabeça? Portanto, esta mulher é tão rica que eu fui atrás exactamente de cada pormenor. Por isso, este livro é um livro de pormenores.
Em que sentido?
É um livro de pormenores por causa dela e porque eu trabalhei a linguagem de uma forma exaustiva e que me deu imenso prazer. E isto porquê? Porque ela própria era uma mulher que ia atrás das palavras, porque era uma poetisa, uma mulher da escrita, uma mulher de invenção, que ficcionava tudo de tal maneira, que se ficcionava a si própria. Ora é muito difícil ir atrás de uma mulher tão rica, que viveu tantos anos, que teve uma vida tão preenchida, era uma viajante e que esteve, apesar de tudo, dezassete anos presa dentro de um convento. Mas uma mulher que conheceu a corte austríaca, a corte francesa, conheceu a Maria Antonieta, mulheres da Revolução Francesa. Portanto, estamos perante uma vida tão rica que por mais que se vá atrás dela sabe sempre a pouco.
Uma mulher que conheceu muito mundo, mas que em si própria condensava muitos outros…
Sem dúvida. Ela era também uma mulher desconcertante, porque como era uma mulher de uma grande ambiguidade. Era uma mulher que se dizia da razão, mas que agia segundo o coração muitas vezes. Era uma mulher que dizia que não conhecia a paixão, mas foi uma mulher que se apaixonou imenso, que teve uma paixão fulgurante. Quanto mais uma pessoa a lê, porque ainda por cima deixa para trás uma obra muito extensa, as filhas publicam-lhe a obra poética, mas ela deixa atrás de si, e não por acaso, porque ela falava sempre da posteridade, ela deixa atrás de si imensas pistas.
E o que foi mais difícil nesse exaustivo trabalho de «ir atrás dela», segundo a sua expressão?
Difícil não foi encontrar as pistas, difícil é segui-las, porque ela depois faz imensos desvios dos caminhos que ela se propõe, como se estivesse já a baralhar-nos no caminho até ela. Como se ela se tivesse querido, apesar de tudo, resguardar, embora se expondo tanto, como mulher política, como poetisa, como mulher da cultura da sua época.
Esse trabalho começou exactamente quando, há treze anos, ou antes disso?
Não muito antes dessa data. Esta obra começa por pensar uma obra mais extensa, que seria trazer ao de cima da história das mulheres em Portugal, as mulheres que estão dissimuladas no passado, no esquecimento, as mulheres que estão esquecidas na poeira dos tempos. E a ideia, digamos, ambiciosíssima, impossível, de executar, seria ir trazendo, em romance, várias figuras de que as pessoas ouviram falar de passagem, como a Catarina de Lencastre, ou não ouviram mesmo, como por exemplo uma Joana Isabel Forjaz. Mas à cabeça estava Leonor, como eu a trato… e a Leonor é minha avó, quinta avó – era trisavó do meu avô. E eu desde muito pequena que uma das imagens que guardei foi de um livro do Marquês de Ávila e Bolama sobre ela – que eu hoje acho que é muito mau, mas que teve a vantagem de nos dar a conhecer cartas e dados pessoais que eram desconhecidos –, que, recordo-me, estava em cima da mesa da minha mãe. Tinha fotografias e mais não sei o quê e foi das primeiras coisas que, ainda muito pequena, li. E eu achava-a fisicamente muito parecida com a minha mãe.
Isso constituiu no imediato uma fonte de atracção, presumo.
Naturalmente, isso atraiu-me muito. E eu, já desde muito pequenina, escrevia e queria ser escritora e ela era uma escritora… Não se seria um exemplo de vida para mim, um exemplo de vida é a Simone de Beauvoir, um exemplo de escrita será a Marguerite Duras, mas ela é, ela tem as minhas raízes.
E até que ponto vai essa irmanação? Mais, até que ponto vai essa irmanação com essas mulheres que, como escreve, são «dadas a pressentimentos, a anjos e cintilações», que têm «conhecimento das raízes de tudo o que nasce e brota das tempestades»?
Eu, ao longo desta busca, e a que voltei sedenta num poema sobre ela, cheguei à conclusão de que nela tudo se reinventa. E, portanto, uma pessoa quando julga que a apanhou, ela não está, olha-se e não está. Há dados, apenas. E eu volto sempre para trás. Neste momento, olho para o livro e penso, será que tenho de voltar ao início dele? Será que os seguintes, o resto da vida dela – porque este livro abrange só cinquenta anos e ela viveu até aos noventa, sempre lúcida, inquieta… –, seriam diferentes? Não sei, aquilo que eu sei é que essas mulheres, que depois me surgem, porque eu vou atrás da Leonor mas há uma mulher que vem atrás de mim, que é a Marquesa de Távora, minha sétima avó, que eu admiro muito. E eu cheguei à conclusão que para dar a Leonor eu tinha de dar a avó dela, mas porque ela veio ter comigo. Eu quando começo a escrever esse livro, não tinha nenhum projecto com a Marquesa de Távora e o primeiro texto que eu escrevo é a Marquesa de Távora. Portanto, é ela que me abre o caminho até à neta dela.
Têm dito que se trata de uma biografia sobre a Marquesa de Alorna. Sei que não partilha desse ponto de vista. Houve ou não uma intenção biográfica?
Não. Nunca quis fazer uma biografia. Porque eu não sou uma biógrafa, sou uma escritora, uma poetisa. Aqui está uma poetisa à solta. Há muitos escritores poetas e que quando fazem um romance põem o poeta que são de fora, na cave, amordaçam-no, põem-lhe grilhetas para ele estar calado. Eu nunca fiz isso e neste romance muito menos, porque estava a tratar de uma poetisa.
Mas ao «ir atrás» dela até às raízes, volto à expressão, não está no fundo a fazer uma biografia?
Não, porque eu inventei. Ela deu-me dados. Depois, quando eu ia atrás dela, realmente havia um buraco negro, não havia nada, porque havia saltos onde não há pistas dela, ou apenas pequenas pistas. E aí eu inventei tudo; por exemplo, todo o capítulo XVII, da Revolução Francesa, é praticamente inventado por completo. Sabe-se que ela está lá, o neto diz ela está lá, no início da Revolução, estava em Marselha, vai para Paris e a partir daí não se sabe nada. Só me restava a invenção. Ora como é que eu posso dizer que é uma biografia quando eu a ponho a conhecer todas aquelas mulheres da Revolução Francesa, a Théroigne de Méricourt, a Claire Lacombe, a Olympe de Gouges, quando a ponho a assistir à tomada da Bastilha, quando vão a Versailles ter com os reis?
Porque tomou a opção de nos dar um quadro tão vivo desse período «francês», digamos assim?
Porque era ideal para mostrar a dilaceração que havia nela. A dilaceração face aos acontecimentos, porque ela conhecia os reis, e o estar de acordo, porque ela é uma discípula de Voltaire e do Rousseau e ao mesmo tempo é de uma família de alta aristocracia. Portanto, ao pô-la na Revolução Francesa o que pretendi dar foi essa dilaceração. Mas eu acho e digo no livro que foi uma altura-chave em que ela podia ter mudado completamente a vida dela, mas ela não podia recusar o seu passado, ao mesmo tempo aquilo atraía-a, concordava, mas também temia pelos seus, pela corte portuguesa, a que estava muito agarrada. Ela era muito amiga da D. Maria, por exemplo, que era uma grande protectora dela.
Diz que a sua vida se foi construindo ao acaso, mas tão grandes feitos e realizações, tamanhas vivências experimentadas e relações tecidas, dão-nos a pensar até que ponto ela não escrevia as linhas do seu destino. Concorda?
Sim, é um pouco paradoxal, mas para nós, hoje, que olhamos para aquela mulher naquela altura… Ela, naquela altura, era um desacato, uma mulher perigosa. Nós encontramos em várias alturas, de dados que nos chegam de várias biografias, homens que disseram. «Esta mulher é perigosa». E era uma mulher tão perigosa, era uma mulher política, que atordoava o D. João VI, que era um homem timorato, e muito mais diante das mulheres, como também diante do Lannes, ministro plenipotenciário francês que estava cá na altura. Ele estava entre a Dona Carlota Joaquina, que era a dama especial dela, e que defendia a sua dama – como ela dizia, nas minhas damas ninguém mexe –, e o Lannes, que trazia a palavra do Fouché e do Napoleão. Estes, que diziam: essa mulher tem que ser expulsa de Portugal.
E tinha razão de ser, o epíteto?
Creio que sim. Porque ela realmente propunha-se ir com credenciais portuguesas pela Europa fazer a união da Europa, porque era a única maneira de deter o Napoleão. Portanto, ela fala da União Europeia pela primeira vez e quer deter aquele déspota, déspotas que ela odiava.
Recuemos um pouco. Quando é que ela vai para o convento e porquê?
Ela vai para o convento com oito anos, porque os avós dela foram condenados por tentativa, que depois de veio a provar ser falsa, de morte do rei. Os avós são, de resto, mortos no cadafalso. Ela tinha uma ligação enorme com a avó, a Marquesa de Távora, e ela é metida no convento com a mãe por causa dessa acusação. Portanto, é uma menina cuja vida de repente lhe é coarctada e é metida num convento onde fica até aos 27 anos. E ela sai de lá, portanto, com uma idade, para a época, já algo avançada; enfim, regra geral, nessa idade, em princípio, uma mulher ficaria para tia, era alguém que já não se casaria, e ela quando sai, no auge da sua beleza – a corte ia visitá-la, os poetas iam ter com ela, nos célebres outeiros poéticos de Chelas, onde ela era a principal atracão –, sai sob os focos de todas as atenções e disposta a viver. É preciso ver que ela conseguiu reunir seiscentos livros em Chelas! Esses livros, que ela depois traz, a verdade é que ela conseguiu que as freiras lhe dessem um quarto só para pôr os livros, portanto fazendo a sua biblioteca. E isto é tão inusitado para a época, ela estava tão entretida com tudo isto que… é nessa altura que começa por ser perigosa.
Para quem em concreto?
Primeiro, para o Marquês de Pombal, que começa a notar a sua rebeldia, depois para o Arcebispo de Lacedemónia, que é quem o Marquês encarrega de a pôr na ordem, porque a Madre prioresa se queixava dela e da irmã, porque eram umas meninas insubordinadas. Tem o exemplo dos vestidos garridos que ela conseguia que lhe trouxessem e que ela usava no convento, ela conseguia tudo o que queria. Depois, há realmente o Napoleão que diz: «Essa mulher é perigosa, não pode estar em Portugal». Porque ele teve pela primeira vez uma mulher a fazer-lhe frente. Ele não gostava de mulheres, sabe-se, e é uma mulher portuguesa, de quarenta e tal anos, exorbitante, que mete medo ao Napoleão. Eu penso que isto é extremamente curioso e o Fouché diz mesmo «esta mulher é perigosa», tal como o Lannes. Homens que viam e reconheciam nela o perigo mas que também reconheciam o seu poder de atracção, porque ela era muito bonita. O Lannes também era e inventou-se um grande romance entre os dois, o que a escandalizou muito. No Lannes também havia uma grande ambiguidade; queria ao mesmo tempo que ela saísse, e ao mesmo tempo tinha que trazer a palavra do Fouché até ao Rei. E aí, o Pina Manique, outro que sabia que ela era perigosa, e que andava atrás dela, seguindo-a o tempo todo, disse «é preciso pô-la na fronteira». Todos estiveram de acordo e ela é posta na fronteira com Espanha e é exilada rodeada pela tropa portuguesa. Portanto, vão daqui até à fronteira levá-la a ela e a um filho; uma mulher que levava os seus livros e um filho pela mão, mais nada. Eu penso que isto dá a medida da sua dimensão.
Acha que ela de algum modo teria noção dessa sua força, dessa dimensão?
Eu penso que ela estava tão empenhada que ela sabia que teria sempre dificuldades, mas sempre achou que isso era o direito certo, o direito dela e das mulheres. Era uma insubordinadora sem nunca deixar de ser a Marquesa de Oeynhausen, porque a Marquesa de Alorna no meu livro nuca chega a ser Alorna, porque só o é no fim da vida dela. Portanto, uma mulher da alta aristocracia, uma mulher a quem não se podia fechar as portas da corte.
Amada por uns, temida por outros. O que a Teresa tentou foi sobretudo olhar aos que a sublimaram, dessa forma fazendo vir ao de cima a sua grandeza. Estou certo?
Sim, foi isso. Até porque nenhum dos que lhe fizeram mal tem a dimensão dela. O que era importante era ela, a sua dimensão espantosa para a época, a única mulher das Luzes que nós tivemos. Aquela mulher que era amiga da madame de Staël, que na verdade causa medo a esses pequenos verdugos, aos pequenos ódios e perseguições que lhe moviam e que, é verdade, acabam por lhe fazer a vida penosa. Mas eu pergunto: curiosamente, é como se ela tivesse na vida dela todo um conjunto de circunstâncias que a faziam crescer, porque ela era desafiada e não podia ser desafiada! Quando isso acontecia era quando ela crescia. No Convento, por exemplo, ela fica quieta à espera de sair? Não, ela aprende línguas, música, ciências, tem o culto da ciência, aprende e tenta entender o universo das estrelas, ela seria neste momento uma mulher dos Verdes, porque tinha o culto da Natureza… Ela era a modernidade dentro de um convento. Ela falava do mundo, da saída para o mundo, era uma viajante, queria conhecer o mundo e durante 27 anos tiraram-lhe isso. Mas ela quando sai, numa das cartas que escreve ao pai, pergunta: «Será que as filhas de vossa excelência teriam esta cultura se não estivessem estado fechadas num convento?» Portanto, ela tirava partido das situações, cresce na adversidade.
Este livro é também uma grande homenagem à poesia, não é assim? Porque você escreve repetidamente que é a poesia que salva esta mulher… Isto para já não falar no modo poético como o livro está escrito por si, também poetisa.
É verdade. É a poesia que a salva a ela e é a poesia que me salva a mim. Disso não tenho dúvidas, e tem sido assim ao longo de toda a minha vida.
Outra pergunta que a Teresa se coloca muitas vezes ao longo do livro é sobre se teria ou não a Marquesa encontrado a felicidade? Chegou a alguma conclusão?
Mas chega alguém verdadeiramente a encontrar a felicidade? É que eu acho que quando as pessoas chegam a um patamar que acham que é a felicidade, querem já outra coisa e querem logo ir mais longe, pelo que esse momento, a existir, é meramente fugaz. E a Leonor era uma pessoa tão insatisfeita… As pessoas insaciáveis… Eu tenho um poema em que digo, e pu-lo na boca dela… «para a minha sede/ nenhuma água chega». Ora isto é o que se passa comigo e era o que eu achava que se passava com ela, mas essas são as minhas raízes, muito provavelmente eu sou assim porque tive esta mulher na minha vida, que já era assim porque teve a avó que teve. Portanto, quantos mais entraves mais nós crescemos e a Leonor então, com aquela luz…
A esse propósito, o título surgiu-lhe de imediato como escolha óbvia?
Creio que sim, porque ela passava a vida a falar das luzes. Ela dizia: eu tenho luzes, aquele não tem luzes, o meu pai tem muitas luzes mas eu quero mais luzes. Portanto, «As Luzes de Leonor» porque ela própria era uma luz.
Mesmo que sempre empurrada para as sombras?
Sempre, sempre, sempre. Desde que vai para o Convento, é levada para o exílio e mesmo na vida quotidiana, porque a sua família, o pai, sempre tentaram mandar nela e pô-la no lugar onde achavam ela devia estar. Que era no papel de esposa amantíssima, quietinha, em casa, a bordar, a cuidar de filhos e a ter a idade que tinha. É curioso que há uma carta do ministro do Napoleão, o Fouché, que informa o Napoleão, quando ela está em Londres, que morreu o Henry Forestier, o amante dela, que foi a grande paixão da vida dela, que tem menos 25 anos que ela, e diz o seguinte: «É preciso termos cuidado porque ele usa muitas máscaras, se calhar isto é uma maneira de nos iludir, a morte dele e ele está vivo. Mas dizem que quem é a mentora disto tudo é uma condessa portuguesa, jovem, muito bonita.» Muito bonita, jovem? Naquela altura? Com cinquenta e tal anos?! Já hoje nem sequer é, quanto mais naquela altura! E uma «perigosa» mulher portuguesa. E diz mais, acrescenta a seguir: «Ela é uma perigosa aventureira». E eu acho espantoso que depois tudo isto é branqueado pela minha família até há bem pouco tempo. Portanto, ela era vista como aquela senhora impoluta que nos dá o Hernâni Cidade, que é a imagem da mãe amantíssima, filha submissa. Ela não foi nada disto, foi sempre uma insubordinada, uma desobediente. Nunca guardou, por exemplo, o resguardo depois do parto, de três meses, como era comum… O marido dela, foi ela que lutou por ele, que ela escolheu, não foi imposto. O seu pai não queria aquele marido! Eu, aliás, falo muito do marido no livro porque ele dá uma visão dela muito interessante, que foi de resto o que eu quis também neste romance, dar dela não só a minha visão, mas também dar a Leonor pelos olhos dos outros. É por isso um romance facetado, como se fosse um cristal, em que o cristal é ela. E as várias faces do cristal, que são os outros à sua volta, dão exactamente a Leonor.
o genial maurizio cattelan, «all» em nova iorque, guggenheim – fotos ptn
•Dezembro 20, 2011 • Deixe um Comentáriopouca terra muita terra
•Novembro 29, 2011 • Deixe um Comentáriopouca terra muita terra pouca terra
a terra inteira e primeira
terra nascente terra poente
das primeiras águas trespassada
a silêncio e escarpas
pouca terra muita terra pouca terra
o comboio passa quase absurdo a romper
o ar puro que os pulmões e os olhos confirmam
pelo peso da luz o arrastar dos olhares
um abraço tão terno que podia ser um disparate
pouca terra muita terra pouca terra
a locomotiva contorce as encostas
os bancos incómodos torcem as costas
o revisor parece não condoer-se
ao passar dos pássaros em melodia azul
pouca terra muita terra pouca terra
quero a força desta terra
quero domingos para viagens trôpegas
quero limpar as lágrimas da memória
ao braço de rio que corre nos teus olhos
pouca terra muita terra pouca terra
e tanto nada.
apostas propostas – a varanda, de genet – foto ptn
•Novembro 29, 2011 • Deixe um ComentárioA VARANDA DE JEAN GENET
Até 18 de Dezembro.
Teatro do Bairro Alto, Lisboa.
Terça a sábado às 20.30h. Domingos às 16.00h
A VARANDA, de Jean Genet
Tradução Armando Silva Carvalho
Encenação Luis Miguel Cintra
Cenário e Figurinos Cristina Reis
Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção
Interpretação
Beatriz Batarda, Dinarte Branco, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, João Grosso, José Manuel Mendes, LuÍs Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Luísa Cruz, Ricardo Aibéo, Rita Durão, Sofia Marques, Tiago Manaia, Tiago Matias e Vítor d’Andrade.
crónica do senhor lopes no museu do côa com as devidas provas, de vinho (duas quintas/ bons ares) e factuais
•Novembro 29, 2011 • Deixe um ComentárioTínhamos vindo da Quinta da Ervamoira. O senhor Lopes estava deitado. Enrolado sobre si mesmo, em posição dita fetal. Quieto e mudo, há milhares de anos, o que restava dele. A saber: um crânio semi-desfeito, algumas ossadas em problemático estado de conservação. Coitado do senhor Lopes, em tais preparos apresentado aos jornalistas em visita ao Museu do Côa como «o mais antigo esqueleto humano» por aquelas bandas encontrado. «O nosso senhor Lopes», diz Dalila Correia, a nossa excelente guia, sorrindo, com uma ponta de emoção. O senhor Lopes, assim reduzido à eterna circunstância de paleolítico achado arqueológico. Quanto aos restantes jornalistas convidados a palmilhar as funduras do alto Douro vinhateiro, em comemoração dos dez anos volvidos sobre a atribuição da classificação de Património Mundial à região, não sei, não sei se o senhor Lopes ficou a matutar-lhes o espírito, como fantasma de épocas outras, não sei se acordaram na manhã seguinte a tentar imaginar o que teria sido a pretérita e primitiva vida do senhor Lopes dito esqueleto-achado arqueológico. E acontecesse tal, pouca lógica na verdade teria – ossadas são ossadas, vidas passadas, ponto final, até porque no supracitado Museu motivos maiores de interesse aos olhos de todos terão saltado à vista, a começar pela magnificência do projecto arquitectónico em causa. Já eu, acordei a matutar no senhor Lopes. E descarto já qualquer interesse necrófilo em especial. Sucede que no dia anterior, ao chegar ao Hotel Aquapura, onde ficámos soberanamente alojados, um qui pro quo ligeiro me reteve na recepção – não davam com o meu último apelido: Neves. Se tinha a certeza?… De quê? De chamar-me Neves?… Que não constava na lista… «Veja lá…» – eu na insistência-certeza de ser Neves, e também Teixeira, «ora veja»… Teixeira, Teixeira… Sim, Teixeira há aqui um senhor; é Pedro? «Eu mesmo. Pedro Teixeira Neves». Ah, pois, então deve ter sido isso, aqui temos um Pedro Teixeira Lopes. Lopes! Recordo eu na manhã seguinte à visita ao Museu do Côa onde fui apresentado ao senhor… Lopes! Das Neves, Nunes, Nino vá lá, a coisa ainda passa, já aconteceu a troca do apelido – todos nós, de alguma forma, teremos experiência similar, e lembro o meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida que na matéria tem vasto rol de estórias a contar, tanto que até deu por título a um seu livro de crónicas «Que Nome é Esse, Ó Nézimo?». Agora, Pedro Teixeira Lopes?! Vou ao bilhete de comboio, ao qual não prestara atenções maiores senão as devotadas aos horários, carruagem e lugar que me haviam sido reservados. Voilá! Ali estava, mesmo antes de partir de Lisboa eu já era Lopes. Ri-me depois do acaso… Terei pensado mesmo em fazer um bigodinho ao olhar-me ao espelho do quarto zen que me fora reservado, que isto de ser Lopes é coisa que me parece merecedora de um bigodinho… Logo depois, ao rever mentalmente o senhor Lopes reduzido a ossos e pó, um leve arrepio me percorreu a alma quando penso que um dia seremos mesmo todos senhores Lopes. Bem reflectido, no museu o senhor Lopes não era mais do que um espelho. Como escreveu o Alexandre O’Neill, «Enquanto os filósofos etiquetam, os relógios tiquetaqueiam». Às vezes os jornalistas dão em filosofar, o tempo, esse, não perde tempo com histórias.
três poemas em manhã de nevoeiro
•Novembro 29, 2011 • Deixe um ComentárioI.
penso
na terrível angústia do espaço vazio
depois de uma data
depois de um hífen
no vazio em frente depois do hífen
à nossa espera
um dia
1969 –
II.
dizem
dizem que as pessoas mudam
eu digo que emudecem
que o tempo nos emudece. os caminhos
de brincar por onde andam? há tanto tempo já
que as mãos não inventam estradas. tirei a carta em 89 creio
e não mais as inventei. julgo que passei a ser conduzido
sem o saber. também não me recordo
da última carta que escrevi e carta astral nunca
me fizeram. no fundo no fundo aceleramos
mas é sempre a desacelerar rumo ao silêncio. estamos
sempre a perder. no fundo
no fundo não quero saber vou meter-me
no carro e sair por aí.
III.
abriu a janela para o negócio das costuras
faz arranjos bainhas e afins assim o afirma num pedaço de cartão
mal amanhado. faz enfim acertos a ver se acerta
as contas do mês. não sei se ainda prega cotoveleiras
joalheiras ou outros remendos que antigamente eram uso
quando as roupas envelheciam de irmão para irmão e as calças
e camisolas picavam terrivelmente a pele.
olho-a atarefada à margem da lei espreitando a rua onde dois polícias
fazem guarda ao pingo doce… remenda-se como pode
costureirinha pequenina que já não vais ao cinema namorar
costureirinha pequenina como um botão.
doris salcedo no cam – uma entrevista
•Novembro 15, 2011 • Deixe um Comentário
A nave central do CAM Gulbenkian preenchida com intimidatórios caixões. Caixões feitos de mesas sobrepostas, intervalados por terra. Caixões por onde irrompem, num silêncio surdo, pequenas ervas, mínimos sinais de vida galopando sobre a erosão, desdenhando a morte, o absurdo, o mal. A vida por sobre a ausência, dizendo-se sobre a morte. Que a vida prevaleça, sempre, diz Doris Salcedo. Sobre todas as tragédias, assassinatos, bombas atómicas, que uma erva cresça, mesmo que amarga, que cresça, prevaleça, vingue. Vingue também o esquecimento. É de memória que aqui se fala, ao entramos neste cemitério de ausências. Dos desaparecidos, das mães que perderam os filhos para o silêncio. Também da dúvida, aquela que mais do que a morte nidifica a dor. E sobretudo o silêncio, o convite ao recolhimento. O modo calado como por entre os caixões avançamos, temerosos de perturbar a força da vida que ali, erva a erva, a custo vence, resiste. Um cemitério arrancado do chão vivo da memória, a levantar-se quase à altura dos nossos corações frágeis. A atingir-nos assim, directo ao coração dos mortos. Doris Salcedo, colombiana, pela primeira vez a expor em Portugal. Como um soco. Poético, mas um soco. Uma conversa:
Texto e Fotos: PTN
Trabalhando as suas obras e projectos com bastante tempo de antecedência, em que momento tem a noção do quão emotivas elas podem tornar-se?
O processo começa sempre com uma entrevista a uma vítima, a uma ou várias vítimas de violência, e é durante esse processo de convivência com a vítima que vou aclarando e definindo que materiais irei utilizar, como se vão utilizar e que sentido vão assumir os materiais. Os materiais têm sempre uma relação com as palavras que a vítima utilizou no seu testemunho. Depois, trabalho sozinha, a desenhar, e depois de algum tempo, com o desenho já está ultimado, quando a ideia já está definida – o que normalmente ocorre durante a fase de desenho, o pensamento mais intenso dá-se nesta fase –, quando o desenho está pronto então partilho-o com a minha equipa extraordinária de pessoas, que me ajudam em Bogotá, e nesse momento fazemos toda a investigação acerca dos materiais. Posteriormente, neste caso particular, quando a obra está terminada, regresso a um trabalho solitário, na instalação, que é o diálogo com as peças no espaço. Há um trabalho cuidadoso, sobretudo em termos conceptuais, que decorre durante um tempo dilatado, e isso traduz-se numa precisão da linguagem escultórica que se utiliza, e uma precisão da ubiquação das peças, que só uma precisão absoluta pode lograr a emotividade que se requer para transmitir as ideias, para que elas sejam sentidas pelo público. Então, o tempo de trabalho traduz-se numa precisão de pensamento e uma precisão de ubiquação das obras. E é essa precisão que me diz a mim, já está, está pronto.
A Doris funciona então como uma espécie de encenadora?
A imagem que Gilles Deleuze dá do artista, de alguém que estabelece uma ligação, que liga muitas coisas, é o que eu considero que sou. Conectam-se os testemunhos da vítima, muitíssimos textos, leituras de poetas e filósofos, que me guiam, que guiam a minha intuição, o trabalho e criatividade da minha equipa, que com generosidade me ajudam, tudo isto se funde numa obra como se ocorresse através de mim. Uma obra é o resultado do trabalho de muitas pessoas, das pessoas com que falo, daquelas com quem trabalho, no caso presente, das pessoas do Museu Gulbenkian, da minha equipa em Bogotá. E tudo flui através de mim, é esse o meu papel.
É fácil apresentar o seu trabalho na Colômbia?
Apresentar o meu trabalho na Colômbia é fácil. Não existe nenhum tipo de censura, não… A reacção que as pessoas têm é a mesma que têm todos os seres humanos. As emoções não têm nacionalidade. Nesse sentidos somos todos muito parecidos. De resto não creio em nacionalismos, em vínculos de nacionalidade. Portanto, a recepção das minhas obras é igual aqui como na Colômbia, porque todos os povos têm memórias de dor, experiências traumáticas, todos os povos viveram crises. Talvez a Colômbia tenha mais experiências dessas, por isso a conhecemos mais, mas por isso também podemos debruçar-nos mais sobre essas crises. Mas todos os povos têm essas memórias, todos foram vítimas de violência política.
Porquê as ervas dentro dos caixões, qual a sua simbologia?
Uma das funções mais importantes da arte é ampliar o leque de perguntas que uma sociedade se faz a si mesma. E penso que as experiências por que essa sociedade passa devem ser passadas à literatura, poesia, música, pintura, para que existam e para que as sociedades as reconheçam. Nesta obra, para mim, era absolutamente importante lograr uma imagem da fossa comum, de um sítio, de um túmulo funerário que não estivesse marcado. Uma fossa, um sítio onde o corpo tenha sido abandonado. A mim interessava-me muitíssimo essa imagem de morte e sobre essa imagem de morte para mim o importante é que a vida prevaleça. Em qualquer momento, em qualquer condição a vida prevaleça. Depois de um massacre, a vida prevaleça, depois de uma bomba atómica, a vida prevaleça, a vida sempre irá prevalecer. E por isso, a razão da presença da erva nesta obra.
E quanto ao número de “caixões” aqui presentes, simboliza algo em particular?
O número de caixões não é simbólico. Neste caso estou simplesmente a estabelecer uma relação com o espaço da Gulbenkian. O que quero simbolizar é que o número poderia continuar. O número em si não tem um significado senão o da sua desmesura. Aqui, de resto, tende a estabelecer uma relação com o espaço da Gulbenkian. É um número que poderia continuar. O que eu quero insinuar é que são muitos os desaparecidos, são muitas as fossas comuns e que poderia continuar… Basta pensar nas fossas comuns por exemplo em Sebrenica, na antiga Jugoslávia, na Segunda Guerra Mundial, as fossas comuns que há em África… então esse número não é simbólico, é um número em aberto. A mim, interessam-me também os espaços vazios, então esse número é um número expectante, que poderia aumentar.
O cânone artístico da obra de arte enquanto repositório do Belo. Até que ponto, tratando temas tão violentos, lhe importa a parte estética da obra?
Esse é um ponto muito delicado. Em nenhum momento estou conferir uma forma estética a um acto violento. Creio que se em algum momento estetizamos a violência estamos a outorgar a violência e, de certa forma, a magnificamos. A intenção não é essa. A intenção é outra, é mostrar o que ocorre, o elemento trágico, e resgatar o elemento humano que lhe foi retirado, a esse ser humano, no momento em que foi assassinado de uma maneira bestial. Portanto, o que faço é restaurar o mal, mas em nenhum momento estetizar a violência. São duas coisas muito diferentes e é importante marcar essa diferença. Agora, o humano, aquilo que nós reconhecemos como puramente humano, sempre nos vai parecer comovedor, terno, belo. Então, é aí, nessa réstia de humano, no que permanece de humano, que podemos reconhecer o Belo.
Em que sentido fala na impotência da arte?
Penso que a forma mais clara de poder é quando um ser humano assassina outro. Eu tenho poder sobre a tua vida, crucifico-te e assassino-te. A arte é o totalmente oposto disto. A arte é a fragilidade, a delicadeza, o detalhe, é observar as coisas mais pequenas da vida, esses pequenos elementos que conformam a existência da vida humana, do ser que amamos… é a partir daí que a arte pode construir uma imagem forte. Mas é claro que eu não creio na redenção estética, não posso devolver nada à vida, não há uma única mãe a quem possa devolver o seu filho. Então, é a partir da total impotência, da ubiquação oposta ao poder, que fala a arte, é contra o poder que fala arte. Por isso considero que a arte é a impotência, total.
Não pode a arte instituir-se como contra-poder?
Não, não. Porque se existir uma ditadura eu não posso derrubar uma ditadura…
Mas a arte pode denunciar…Eu não denuncio, eu assinalo. Eu não posso denunciar um facto violento, eu assinalo. É como dizer, ali está a ocorrer um facto violento. Então, eu assinalo-o na esperança de que as pessoas olhassem nessa direcção. Mas não posso denunciar, a arte não tem essa capacidade.
Trata-se então mais de testemunhar?
Sim, de testemunho. É assinalar. O artístico é secundário. O artístico é o testemunho, que assinala o que ocorreu ao testemunho. Porque eu nem sequer posso ser testemunho, a não ser que os factos que assinalo ocorram comigo. Portanto, limito-me a assinalar, a direccionar os olhares para o que ocorreu. Mas de uma forma silenciosa, porque a arte não se impõe. Se queres, entras, se não queres, não entras. Trata-se de liberdade. Então é nessa falta de poder que radica o seu carácter poético. Se tivesse poder, perderia a sua faceta poética.
A terminar, “Plegaria Muda”, uma oração muda… Diria que este título pode resumir o seu trabalho, a totalidade da sua obra?
Muito bonito… Sim, sim, resume-a em absoluto.
Plegaria Muda
Até 22 de Janeiro, terça a domingo, 10h-18h00
CAM – Gulbenkian
waiting – txt/ foto ptn
•Novembro 14, 2011 • Deixe um Comentárioo amor é uma espécie de adeus – ou em moldes similares, ondjaki num verso para canção no novo disco de jacinta. a fazer-me lembrar esta minha fotografia que tenho entre as que mais prezo
•Novembro 11, 2011 • Deixe um Comentáriorentes de carvalho – excerto de uma entrevista quase a chegar na «epicur» – txt/ foto ptn
•Novembro 11, 2011 • Deixe um Comentário
A sua necessidade de regressar assiduamente a Estevais prende-se com o quê exactamente? É coisa de raízes?
Não, não, estou há 56 anos na Holanda, se há raízes que me prendem – tenho lá família, mulher, filhos, netos… — as minhas raízes estão lá. Mas, há uma coisa atávica… Eu aqui não sou estrangeiro. Eu, lá, mesmo depois de 56 anos, sinto-me estrangeiro.
Mas isso é de si, ou fazem-no também sentir-se estrangeiro?
Não, eu sinto. Nunca escrevi personagens holandesas, enfim, no «A Amante Holandesa» há uma personagenzita. É que não há um entrosamento com aquela alma, é uma alma totalmente diferente. Eu funciono muito bem com o holandês, sou quase um native speaker… Eu sinto-me lá bem e confortável mas a minha alma não está lá. Aquilo para mim é uma identidade de empréstimo, aquilo não sou eu, ou então sou outro.
O Rentes é muitas vezes apontado como alguém que sabe do que fala quanto ao que seja a identidade portuguesa. O que é ser-se português, afinal?
É aquela coisa que nos leva a gostar mesmo do estupor da terra em que nascemos e a achar que água que seja melhor nunca bebi.
E a identidade da Língua?
Isso é um capítulo aparte. A Língua portuguesa para mim é… O Fernando Pessoa tomou aquela frase de empréstimo para ele, mas que não é dele, é de um escritor cujo nome agora não recordo… enfim, aquilo de «a minha pátria é a língua portuguesa», isso é um bocado forçado. Para mim, a Língua portuguesa é o instrumento que eu possuo e que me dá a possibilidade de me exprimir, não só em pensamento-sentimento, mas, sobretudo, a possibilidade de traduzir em melodia aquilo que eu quero dizer. Porque escrever com palavras não é só contar histórias ou criar personagens. A boa prosa é música. Eu estou a ler um livro de um rapaz nosso compatriota [Ricardo Adolfo] – é o segundo livro que eu leio dele, o primeiro era muito bom –, mas neste segundo livro, eu vejo ali coisas que… Eu não lhe vou dizer, que cada um faz como quer, mas a nossa Língua tem sons desgraçados. O ão é um ditongo que tem um som bonito mas o ão tem de se usar com cuidado. O rapaz tem linhas que são pecados capitais para um escritor. Primeiro, todas as frases têm a mesma dimensão, tá, tá, tá, tá!… E todas acabam em ão. Tal, tal, emoção! Tal, tal, televisão! Tem assim páginas inteiras, mas não é o único. Se for a reparar no que se escreve em português, as pessoas parece que estão loucas. Não têm a noção da melodia nem do ritmo.
Mas voltando ao Pessoa, onde é que queria chegar?
A Língua portuguesa… espere aí, eu conheço umas quantas línguas: sou muito bom em inglês, francês, holandês, sou razoável em espanhol e italiano, estudei romeno e catalão, e não há língua nenhuma como a minha que me dá a gama, a paleta daquilo que eu preciso para dizer aquilo que eu desejo. E quem for um leitor atento dos meus livros verá que há, fora do sentido restrito das frases, um desejo de que todas as frases tenham melodia. Eu sou tão chato que mesmo no meu blog [www.tempocontado.blogspot.com] não consigo escrever sem reparar se a coisa está melodiosa.
Vamos por aí. Que posição tem a respeito do acordo ortográfico?
Não me interessa. Ouça, eu aprendi a ler aos 5 anos, em 1935 e depois, desde então, conheci uma quantidade de mudanças… ao fim ao cabo, eu acho que aderi ao acordo ortográfico de 19 e sessenta e não-sei-quê e fiquei por ali. Não vou mudar. E depois, eu tenho uma simpatia grande pelo brasileiro, a língua brasileira dá-me bons sentimentos, dá-me um sentimento de alegria e de felicidade, eu rio. Eu não posso ouvir um brasileiro sem estar a rir. Porque mesmo o brasileiro culto, que fala bem a sua língua, tem uma coisa que… é emprestada do italiano, do espanhol… e depois aquela canção, aquela melodia, não é cantiga, para mim tem cantiga demasiada.
Escreveu há dias no seu blog que não sabia para que ia votar. Quer esclarecer?
Ontem, peguei na «Única», do «Expresso», e li lá duas coisas cómicas: uma, era um senhor chamado Emídio Pinho que juntou os grandes nomes da riqueza em Portugal mais o senhor Mário Soares e afirmou “o Presidente Mário Soares é o maior estadista português do século XX.” Eu desatei a rir; a minha mulher até perguntou porque é que eu estava a rir. A segunda coisa era o patrão da CIP, que dizia: “Portugal já está a subir, isto já está bom, já está a andar”. Epá, pouca vergonha!
A cidadania europeia diz-lhe alguma coisa?
Nada! Eu sou português. Sou português na medida em que… Vamos lá ver, eu sou bem educado, tenho essa vantagem, digo as coisas que sinto, não devo a ninguém, não sou dependente de ninguém. Mas, a Europa é uma treta, a Europa é para os holandeses, para os alemães, para os noruegueses, para a gente do dinheiro, o resto anda de mão estendida.
o torna-estranho
•Novembro 10, 2011 • Deixe um ComentárioFim de tarde tempestivo em Lisboa. Atravesso a ponte a caminho de Azeitão. Motivo? Um leilão reservado (leilão reserva) de lotes especiais de garrafas de Moscatel da casa José Maria da Fonseca. Chove ainda quando chego e estaciono. Levo máquina, tripé, entro no aconchego da antiga casa de família vertida a sala de visitas. Entre paredes, uma espécie de pequeno museu, memórias de muitos prémios, colheitas excepcionais, recordações de família, marca e prestígio. Olho em volta como torna-viagem, bebendo os circunstantes para a ocasião seleccionada. Coleccionadores, detentores de garrafeiras, amantes do vinho. Todos de olho nalgumas preciosidades ali à praça, não só pelo vintage dos néctares a rateio, como pela derradeira oportunidade em adquiri-los. Com que fito? Prazer, negócio? Aos lotes, 35 ao todo. Em todos eles o leit motiv do leilão, cem garrafas de Moscatel de Setúbal Superior 1955. É pegar (pagar) ou largar; desse ano só sobejarão cerca de 50, que ficam em casa, na família. Pegar e pagar na própria noite, pede o pregoeiro, devidamente enfarpelado e laçado, antes de começar o jogo. Está na hora, servido que foi o jantar aos convivas. Ementa de luxo, a condizer com a noite: responde pelos acepipes e demais alavancagem de peixe e carne o Chefe Chagas, do Restaurante Ribamar, em Sesimbra. Virá à tribuna merecer o devido aplauso. Comeu-se garoupa, de bela roupagem, e um javali, menos avalizado. Bebeu-se melhor, bem melhor, a rematar com um cheirinho de Moscatel 55; que outro? O pregoeiro pede silêncio, dá início à sessão. A abrir, 1 garrafa de Moscatel Setúbal 55, arrematada por 420 euros. Avançam três alapadas a outras tantas de DSF Moscatel Roxo 2003. Vendido por 850 euros, nada mau comparado com a primeira oferta por uma só garrafa. A largas dezenas avançam as licitações, o pregoeiro virando à direita e à esquerda do auditório adegueiro (pois é lá, in adega veritas, que tudo se afere). Rapidamente as ofertas ultrapassam as centenas de euros. A maior chega aos três mil euros, outras ficam-se a uma média de 1500. Falamos de quatro, cinco garrafas de vinho no máximo. A sessão termina em coisa de quarenta minutos. Todos parecem satisfeitos. Há que pagar, pegar. Assisto a tudo e não consigo deixar de pensar na crise e no quanto de subjectivo assiste ao conceito. A crise de uns definitivamente não é a crise de outros. In vino veritas. Ou será que estou bêbedo?… Não me parece, sinto a chuva, continua a chover.
P.S. Sim, era muito bom, o Moscatel de 1955. Mas não me senti seu amigo, antes um estranho.
TXT E Fotos PTN
edição on line das cantigas medievais galego portuguesas
•Novembro 6, 2011 • Deixe um ComentárioEDIÇÃO INTEGRAL ON LINE DAS CANTIGAS MEDIEVAIS GALEGO PORTUGUESAS
http://cantigas.fcsh.unl.pt.
Um projecto de vulto, moroso e meticuloso. Assim a edição integral on line das canções medievais galego portuguesas. O trabalho começou em 2007, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, e encontra-se agora visitável no endereço http://cantigas.fcsh.unl.pt. Coordenado pela professora Graça Videira Lopes, coadjuvada por Manuel Pedro Ferreira (responsável pela área da Música) e Nuno Júdice, o site Cantigas Medievais Galego Portuguesas institui-se no imediato enquanto inestimável fonte de acesso a um património literário ibérico riquíssimo, em grande parte desconhecido do grande público. Cantigas, Autores, Manuscritos, Cantigas Musicadas, Iluminuras, estas as principais vias de acesso à muita informação agora disponível à distância de um clique. Possível ainda, entre muitas outras valências, a consulta, fólio a fólio, ao curioso e singular tratado de poética trovadoresca «Arte de Trovar», que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Mas muito mais há a descobrir. Em audição, treze melodias originais, múltiplas versões, para além de dezenas de composições de autores contemporâneos, da música erudita até ao jazz ou mesmo rock. Com lugar a muitas surpresas. Como uma música dos brasileiros Legião Urbana, de Renato Russo, ou versões mais ousadas, caso da desconcertante «A Um Frade Dizem Escaralhado» (ver no final), por Xurxo Romani e Koishi Tanehashi, sátira a um frade que se dizia impotente mas que ia engravidando mulheres por onde passava, três delas dando à luz no mesmo dia… Para maior elucidação do que está em causa, a conversa com Graça Videira Lopes.
POR PEDRO TEIXEIRA NEVES
Que projecto é este agora finalmente disponível depois de vários anos de grande empenho e trabalho?
É um projecto que foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, teve também a colaboração da Biblioteca Nacional, e que se destina a apresentar a edição completa e unitária das cantigas medievais galego portuguesas. Foi feito por uma equipa sob minha coordenação e que teve também a coordenação do Professor Manuel Pedro Ferreira, para a parte musical, e que incluiu ainda o Professor Nuno Júdice. E, sobretudo, incluiu um conjunto de jovens bolseiros e colaboradores absolutamente empenhados e sem cujo trabalho este projecto não poderia ter ido para a frente.
Quando começou o projecto exactamente?
A equipa sénior, digamos assim, já trabalha na literatura medieval há muito tempo… Mas a ideia das cantigas, nós apresentámo-la no concurso de 2006 da FCP. O projecto foi seleccionado e começou em 2007. Foi financiado de 2007 a 2010, e no anos eguinte continuou o trabalho mesmo sem financiamento. O projecto está inserido no Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Qual é a sua principal mais-valia?
O facto de ser a primeira vez que se faz uma edição integral das cantigas medievais galego portuguesas. Não quer dizer que elas não estivessem disponíveis, porque desde que elas foram descobertas nos grandes cancioneiros, em meados do século XIX, as cantigas foram publicadas. Por exemplo, ou por cancioneiro, como foi o notável trabalho da professora Carolina Michaelis, ou então por género, como foi o caso do professor Rodrigues lapa, que publicou, já nos anos 70, as cantigas de Escárnio e Maldizer, ou então, mais recentemente, no âmbito da investigação, em que têm sido publicados os trovadores individualmente. Mas uma edição unitária, geral, é a primeira vez que se faz.
O facto de ser uma edição on line que vantagens traz?
Este tipo de edição permite, não só editar as cantigas, com notas, glossário, antroponímia e essas coisas todas, mas também dar acesso aos manuscritos. E sobretudo nós quisemos, de certa forma, devolver às cantigas o seu carácter oral, que elas tinham, portanto a música, e é isso também que o formato electrónico nos permite ter e disponibilizar. Temos, portanto, um conjunto vasto de música, que tanto é a música original – mas nesse aspecto só sobreviveram treze melodias originais dos trovadores –, mas a que nós juntámos todas as músicas a que nós tivemos acesso de compositores contemporâneos, dos mais variados géneros: da música chamada erudita até ao jazz, passando pelo rock, José Afonso, Amália Rodrigues…, intérpretes que cantaram a partir dos textos medievais. Há também as versões Contrafacta, que são composições com melodias adaptadas a várias letras.
Vamos à homepage, como se processa o acesso à informação a partir daí?
Isto é uma base de dados, portanto, o site e a base de dados estruturam-se à volta das cantigas e dos autores. Assim, logo na primeira página nós temos a lista das Cantigas e a lista dos Autores; clicando, por exemplo, na lista das Cantigas nós temos acesso ao conjunto total das Cantigas. Depois, clicando num dos títulos que aparecem vai-se para a página da cantiga. Portanto, cada cantiga tem uma página e nessa página pode-se ver a cantiga editada, com as notas, mas também se pode ter acesso ao manuscrito, cuja folha nos aparece destacada no respectivo Cancioneiro. E depois temos também por baixo a música; quando há música, porque há muitas cantigas que não estão musicadas.
Trata-se, por conseguinte, de um trabalho em aberto…
Exactamente. E essa é outra vantagem das edições electrónicas. De resto, desde que apresentámos o projecto já fomos contactados por um grupo musical galego que também gostaria de colaborar, enviando-nos as suas músicas… Na verdade, nós ficámos surpreendidos com a quantidade de músicas que há sobre as cantigas, mas certamente que temos apenas uma pequena parte. E, portanto, como já dissemos publicamente, tratando-se de projectos de qualidade estamos disponíveis para integrá-los na base de dados. Mas é também um trabalho inacabado por outro motivo. É que as canções medievais são difíceis de editar. Os manuscritos às vezes são complicados, têm lacunas, os especialistas dividem-se sobre as edições… Este tipo de edição electrónica permite-nos continuamente fazer melhorias na edição das próprias canções e ir incluindo novos dados que venham a ser descobertos. Por exemplo, sobre as biografias dos trovadores, sobre as quais aos poucos se vai sabendo mais.
Presumo que sendo um trabalho tão exaustivo durante o processo tenham surgido descobertas novas…
Sim, sim… Nós temos muitos dados novos, porque uma coisa é fazer a edição de algumas cantigas, ou de alguns trovadores, outra coisa é fazermos as cantigas na totalidade… E só a simples relação, mesmo electrónica, de determinadas coincidências que aparecem, permite logo termos um conjunto de dados novos. E portanto é evidente que três anos a trabalhar sobre estas cantigas permitiram a descoberta de novos dados. Sobretudo na área da antroponímia, ou seja, das personagens que são referidas nas cantigas, que nós quisemos que tivessem também uma curta referência biográfica. Essa questão é importante porque normalmente as cantigas onde aparecem nomes são as cantigas de escárnio e maldizer e estas cantigas, cada vez se nota mais que são cantigas todas de âmbito essencialmente político.
Mas não só, não é assim? Há, de resto, temas surpreendentes de algum modo… Mas tudo parece por elas e pelos poetas filtrado, não é assim?
Sem dúvida, e isso pode ser visto na consulta à base de dados clicando em Temas. E aí há de tudo, desde cantigas que versam questões do Império, disputas entre reinos, animais, alimentação, vestuário, até, mais especificamente, cantigas com temáticas de âmbito pessoal onde tudo e mais alguma coisa é alvo de sátira, desde a homossexualidade à traição, incesto ou mesmo doenças venéreas, até a gravidez, raptos, romarias, vida religiosa, etc. Mas no Âmbito político, muitas vezes se nós virmos quem são as pessoas, quais são as referências que a cantiga faz, acabamos por dar com situações e contextos políticos muito precisos.
O que é que, em seu entender, faz com que estas cantigas sejam ainda hoje tão apreciadas ao ponto de suscitarem a curiosidade e, em muitos casos, adaptações por parte de músicos e compositores?
Eu acho que as cantigas medievais são um património ibérico riquíssimo e são, essencialmente, grande poesia; grande poesia lírica, grande poesia satírica, por um conjunto muito notável de poetas. Ora a grande poesia é intemporal. É evidente que as pessoas conhecem mais as cantigas de amigo, pelo lirismo delicado, pela sua sensualidade, algo que é até hoje motivo de atracção. Mas nem só. Há por exemplo um grupo galego que vai pegar naquelas cantigas, como direi?… mais… hardcore, que também há muitas, e faz com elas músicas de rock muito engraçadas. Há de facto todo um universo que as pessoas conhecem mal e que agora têm ao dispor de uma forma viva e activa, porque esse foi também um nosso desejo, ou seja, não apresentá-las apenas enquanto património estático, antes como um património que desejamos vá sendo lido e cantado. De resto, o professor Manuel Pedro Ferreira tem no site um artigo onde explica, por exemplo, de que forma as cantigas foram servindo para várias ideologias, desde o nacionalismo dos anos 30 e 40 até ao aspecto mais popular, o património popular, por exemplo, com as músicas do Zeca Afonso… Portanto, a lição que retiramos é que as cantigas vão sendo lidas e actualizadas segundo vários modos de ver o mundo e isso é também a característica da poesia em geral, não especialmente da Idade Média.
Para finalizar, este é também um trabalho que de algum modo permite perceber ao cidadão comum um pouco do que se faz dentro do âmbito universitário…
Sim, creio que essa é, de resto, uma das missões da Universidade, ou seja, não se fechar em si, mas dar ao público possibilidade de acesso aos resultados da investigação, mostrando também as competências técnicas que nós temos para além da transmissão do saber. Para além disso, o que desejamos é que este projecto seja visto, ouvido, consultado e discutido pelos cidadãos.
A um frade dizem escaralhado,
e faz pecado quem lho vai dizer,
ca, pois el sabe arreitar de foder,
cuid’eu que gaj’é de piss’arreitado;
e pois emprenha estas com que jaz
e faze filhos e filhas assaz,
ante lhe dig’eu bem encaralhado.
Escaralhado nunca eu diria,
mais que traje ante caralho arreite,
ao que tantas molheres de leite
tem, ca lhe parirom três em um dia,
e outras muitas prenhadas que tem;
e atal frade cuid’eu que mui bem
encaralhado per esto seria.
Escaralhado nom pode seer
o que tantas filhas fez em Marinha
e que tem ora outra pastorinha
prenhe, que ora quer encaecer,
e outras muitas molheres que fode;
e atal frade bem cuid’eu que pode
encaralhado per esto seer
Cantiga de Escárnio e Maldizer, da autoria de Fernando Esquio
para além da fatalidade de escrever versos, escrever
•Novembro 2, 2011 • Deixe um ComentárioPropostas para introdução de alguma tranquilidade nas consciências
Votar no amor de forma universal e directa aos olhos.
Deslocalizar a poesia para o tempo do pequeno-almoço.
Relembrar Baudelaire: «A inspiração é trabalhar todos os dias». Mesmo que trabalhar todos os dias canse.
Pensar e aceitar por vezes, com quanta modéstia seja necessário, que não temos nada a dizer – mesmo quando julgamos ter.
Não nos alongarmos demasiadamente a pensar nos gregos, senão antes a lê-los.
Beber um copo de optimismo ao acordar de cada impulso pessimista. Balbuciar talvez um verso, degustá-lo como a um vinho.
Respirar o suficiente para viver.
Educar a memória para os lapsos recordando fábulas e contos de fadas.
Enquanto durar a crise, aproveitar para repensar os sonhos. E dar-lhes tempo, terra, chuva.
Rejeitar todo e qualquer lirismo político-económico.
Se a vida se assemelhar em demasia a um mau romance, sorrir.
Pensar, em última análise, que dispomos ainda de direito de opção. Mesmo que só tenhamos uma opção.
A classe política: uma encenação mal conseguida à espera de um pontapé futurista.
Manifestar-se, sim, mas tendencialmente sempre pelo movimento das mães.
Acreditar que a verdade virá ao de cima como coisa que se mete pelos olhos adentro da mentira.
Ter esperança na justiça, tal como no futuro da poesia simples. Saber que os poetas arrazoados têm maus fígados.
Descer à rua com a leveza crédula de um deus caminhando sobre as águas, mesmo que seja preciso fingir com a força com se adopta um milagre.
Renascer sempre que possível, tornar a ser renascentista se preciso for.
Esquecer a propriedade alheia, virar o dedo para nós próprios como quem consulta um espelho de verdades.
Procurar sentimentos nas inquietações. Ir pelo mundo cientes de que caminhamos sem deixar pegadas.
Se essa for a atitude mais fácil, virar as costas e ir até junto do mar com os pés descalços.
Sair de peito aberto à morte em todos os dias sim e, sobretudo, fazer da leitura a nossa grande dívida soberana.
Se as coisas apertarem chuta para canto. Recorda: que canta seu mal espanta. Até porque não há por que confundir bola com fruto proíbido.























































































































































































