marinho pinto e a ordem

•Novembro 20, 2009 • Deixe um comentário

«Marinho Pinto quer menos funcionários na Ordem». Leio o título e pergunto-me se não terá havido uma gralha na notícia, isto é, não quereria ele dizer que quer «menos funcionários na ordem» (assim mesmo, ordem com minúscula)? Assim, um pouco mais espalhafatosos, ao seu jeito?…

Título de notícia no «Público», 20 de Novembro

outros silêncios

•Novembro 20, 2009 • Deixe um comentário

«Silêncio e alguma indiferença. A reunião do grupo parlamentar do PSD de ontem foi abalada pela proposta do deputado José Pacheco Pereira para criar, no Parlamento, uma comissão eventual de acompanhamento da corrupção na administração pública.»

«Público», 20 de Novembro

revelador e… assustador – o problema do jornalismo

•Novembro 20, 2009 • Deixe um comentário

Leio hoje na revista «Sábado» e quase tremo:
«Quando o jornal Sol publicou a primeira notícia a revelar a existência de uma investigação britânica no caso Freeport, em Janeiro de 2009, um dos directores do semanário recebeu um telefonema que podia livrar o jornal da falência. A jornalista Felícia Cabrita preparava nessa semana uma segunda manchete sobre o escândalo, que dava conta do célebre DVD inglês, onde Charles Smith acusava um ministro de receber luvas. O nome do ministro era José Sócrates, saber-se-ia mais tarde. O telefonema pretendia travar a notícia.
“Uma pessoa do círculo próximo do primeiro-ministro e que conhecia muito bem a situação do jornal e a nossa relação com o banco BCP disse-nos que os nossos problemas ficariam resolvidos se não publicássemos a segunda notícia do Freeport”, assume à SÁBADO o director do Sol, José António Saraiva».
E ainda, mais adiante, a propósito das consequências sofridas pelos órgãos de Imprensa que foram dando notícias sobre o caso: «A primeira vítima foi o jornal O Independente: no ano em que publicou a primeira notícia sobre o caso Freeport, viu o investimento publicitário do Governo cair 65%. Estrangulado financeiramente, foi extinto em 2006. Depois disso, outros jornais, como o Público (que liderou a investigação ao caso da licenciatura de José Sócrates) ou o Sol (que fez várias manchetes com o caso Freeport), viram cair abruptamente a publicidade do Governo e de grandes empresas públicas ou com ligação ao Estado. No pólo oposto estão o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, ambos do grupo Controlinveste, de Joaquim Oliveira.»

o problema de às vezes ser português

•Novembro 20, 2009 • Deixe um comentário

Portanto, somos democratas se aceitamos que um governo caucionado pelo voto do povo legisle conforme o estatuído no seu programa de governo. Porém, já não somos tão democratas se aquilo que esteja em causa em matéria de adopção legislativa vá contra as nossas opiniões. É isto em resumo o que se passa com a minoria conservadora que anda em pulgas com a hipótese de o PS vir a aprovar, conforme dissera que faria, uma lei no sentido de possibilitar aos casais do mesmo sexo o casamento. No início da semana todos tivemos a oportunidade de assistir na televisão ao debate que opôs os dois lados da barricada, pró e contra, e assistimos então aos argumentos pouco convincentes dos segundos, mais escudados numa pretensa e camuflada defesa do instituto do Referendo do que propriamente empenhados, à luz da razão e de um posicionamento progressista, em defender a sua posição com pés e cabeça. Na verdade, e isso o revelavam os seus sorrisos amarelos, sarcásticos e quase de nojo face a uma tal hipótese, aquilo que as suas posturas demonstravam, demonstram, não é senão uma grande falta de respeito pela diferença, pela liberdade e, sobretudo, pelo direito à igualdade de direitos entre todos os cidadãos tal como propugna a Constituição. Adejar com o fantasma decorrente da adopção (ui, mal dos males!) tão-somente mais diz do seu conservadorismo. E, em matéria de adopção, no mais pergunto: o que é melhor para o tão citado «interesse superior das crianças», serem adoptadas por duas pessoas do mesmo sexo que lhe podem dar um futuro, que lhe podem dar amor, que lhe podem permitir sonhar, ou deixá-las entregues à solidão de lares de acolhimento, sem rumo ou futuro qualquer acautelado? Como dizia alguém no supracitado debate, parece-me que o que faz confusão a esta gente é que uma criança possa ser exposta ao sexo entre casais homossexuais – mas, por favor, algum juízo, nos ambientes heterossexuais algúem se põe a fazer sexo em frente às crianças?! Ah – dirão ainda – e qual a confusão que isso não iria trazer à cabeça de uma criança quando na escola afirmasse ter dois pais? Qual deles iria às reuniões? Alminhas santas, que importa isso? Não importará muito mais que essa eventual criança adoptada, com dois pais ou duas mães, tenha alguém que se preocupe com ela e com os seus estudos? Ao pensar nisto tudo, chego apenas a uma conslusão, cada um tem os fantasmas que quer e merece. Agora, tenham dó, em 1876 o Marquês de Sá da Bandeira teve o discernimento de fazer com que acabasse a escravatura no nosso país, sinal inequívoco de que Portugal se encontrava na linha da frente mundial no respeito pela liberdade e pelos direitos do Homem. Caramba, estávamos no século XIX, os mapas de África ainda surgiam meramente com nome de cidades e povoações ao longo da costa, no seu interior apenas se pintavam terríveis animais ferozes, que era tudo quanto se sabia ou imaginava existir nas suas vastidões! Não deixo de pasmar com o que se passa hoje em pleno século XXI! Pois se as pessoas querem casar-se porque havemos a umas de possibilitar o desejo e negá-lo a outras? Mas isto é assim tão difícil de perceber?

ontem, hoje… e amanhã?

•Novembro 20, 2009 • Deixe um comentário

Ouvi ontem, em directo na TV, o debate na AR sobre o Ensino. Se bem entendi, da discussão ontem na AR em torno da suspensão ou não do modelo de avaliação dos professores, na legislatura anterior o PSD era declarada e abertamente contra o dito modelo cujo fim exigiam e não deixavam de bradar, agora, já com mais peso na AR, já não se mostram tão críticos e propõem que, relativamente ao dito modelo, se opte pela sua continuidade apenas fazendo substituir a palavra «suspensão» por «substituição», sem de resto dizerem para quando. Para daqui a 30 dias? E se sim, porque não já?

apostas propostas – rem live at the olympia in dublin

•Novembro 19, 2009 • Deixe um comentário

É mais outra edição memorável em torno de uma das grandes bandas da pop-rock das últimas décadas, os REM. This Is Not a Show recolhe 39 canções gravadas ao vivo no Olympia Theatre de Dublin, em 2007, durante cinco noites de concerto. Não bastasse o registo histórico, a edição é acompanhada por um DVD com o famoso documentário na ocasião filmado pelos franceses Vincent Moon (que se notabilizara pelo trabalho com os Arcade Fire, The Shins ou com os The National) e Jeremiah. Sem narrativa cronológica, alternando entre o preto e branco e a cor, ou entre o palco e o backstage, é sem dúvida um documento único.
Live at The Olympia in Dublin, Warner

o problema (futuro) do autor

•Novembro 19, 2009 • Deixe um comentário

Em Espanha, o Ministério da Cultura encontra-se a ultimar as conclusões de um estudo sobre o livro electrónico na sociedade espanhola. Lê-se sobre o assunto no «El Pais» de hoje, assim, num excerto: «En España se han editado 8.447 libros electrónicos en 2008, frente a los 220 de 1994, lo que arroja una producción media de casi un libro a la hora, según los datos aportados por la ministra de Cultura, Ángeles González-Sinde. El documento que se está elaborando también planteará otras cuestiones como los proyectos y adaptación de la industria editorial, la utilización del libro electrónico en el campo de la enseñanza y de la investigación universitaria, los cambios en los canales de distribución y la incidencia de este nuevo formato en los hábitos de lectura de los españoles.»

apostas propostas – tom waits

•Novembro 19, 2009 • Deixe um comentário

Waits, já todos os sabemos, é um dos mais originais e singulares músicos que o mundo jamais conheceu. À sua música desconcertante, feita de uma miríade de sons em convulsão e aparente desagregação, desobedecendo provavelmente às mais clássicas leis de qualquer compêndio de composição, Waits faz ainda aliar uma poética de cariz agreste, um lirismo de vertente épico-visionária que mais baralha os dados àqueles que o escutam e que, sem saberem exactamente perceber porquê, à sua música ficam colados. Pois bem, para esses fãs do genial músico, este Natal guarda uma boa surpresa, este duplo CD contendo dezassete temas gravados ao vivo aquando da sua digressão de 2008, mostrando em público, pela América e pela Europa, o álbum Glitter & Doom. A acompanhá-lo em palco, cinco músicos brilhantes: Seth Ford-Young (baixo), Patrick Warren (teclados), Omar Torrez (guitarras), Vincent Henry (sopros) e Casey Waits (bateria e percussão). O segundo CD reúne, em cerca de 40 minutos, as chamadas Tom Tales, gravações em que Waits aborda inúmeros assuntos e temáticas, numa espécie de ruminações quixotescas em formato de solilóquio que mais adensam a complexidade do seu ser e personalidade. Bom, como sempre.
Glitter & Doom Live, Edel

salto à vara

•Novembro 18, 2009 • Deixe um comentário

Notícia: «Vara garante que não cometeu nenhum crime».

quinas

•Novembro 18, 2009 • Deixe um comentário

Ganhámos, ganhámos, ganhámos, como a nossa vida vai ser mais feliz! Ui, mas a sorte e as quinas que dobrámos para lá chegar.

eu acho que a igreja está prestes a abortar o troufa real; e com razão!

•Novembro 18, 2009 • Deixe um comentário

Teotónio Pereira, o arquitecto responsável pelo plano de urbanização da zona do Restelo entende que a Câmara Municipal de Lisboa deve mandar parar a obra (esta linda obra que aparece na fotografia) e refazer o projecto desenhado por Troufa Real. Pois, também me parece melhor, não encaixa ali muito bem e tal. De facto, aqui a palavra aborto aplicava-se bem, mas, no contexto, será que é pecado?

assim vai a crise

•Novembro 18, 2009 • Deixe um comentário

Notícia: «Os lucros das PMEs aumentaram mais de 40 por cento em 2008.» E pergunta Gomes Ferreira de sorriso na cara aos seus convidados: «Como se consegue fazer negócios num contexto tão desfavorável?» Perdão, Gomes Ferreira, «desfavorável»? Com 40 por cento de lucros?

índia – mito, sensualidade e ficção

•Novembro 15, 2009 • Deixe um comentário

PB150097Uma excelente exposição hoje vista no Sintra Museu de Arte Moderna Colecção Berardo. Para ver até dia 11 de Abril de 2010, dividindo-se a visita por três grandes grupos temáticos expositivos que têm na sua génese a cultura indiana. O primeiro grupo expositivo corresponde a uma fotobiografia de Mahatma Gandhi (Porbandar, 1869 – 1948) intitulada “A minha vida é a minha mensagem”, apresentada em colaboração com a La Casa Encendida e a Gandhi Server Foundation. Trata-se de uma exposição inédita em torno da figura do líder Indiano, considerado o pai da nação Indiana. Composta por cerca de 60 fotografias, escolhidas entre 25 000 que compõem os arquivos mais importantes sobre Gandhi, as do seu sobrinho Kanu Gandhi e o do seu biógrafo Vithalbhai K. Jhaveri de Mumbai. Além da mostra fotográfica, a exposição inclui textos originais, citações e uma selecção de documentários, um dos quais realizado pelo cineasta Spike Lee, bem como a única gravação existente da sua voz, referente famoso discurso “A minha mensagem espiritual”. Também será possível ver uma reprodução do seu quarto na casa Birla, em cujo jardim foi assassinado, e ainda documentos inéditos, entre os quais se contam algumas cartas para Tolstoi, uma das suas grandes influências; para Tagore, que lhe deu o nome de Mahatma (a grande alma); e até para Hitler.
Um segundo grupo expositivo apresenta a modernidade indiana através de uma família de artistas: Umrao Singh Sher-Gil, Amrita Sher-Gil, Vivan Sundaram e Navina Sundaram. “Esta é a história de uma família indiana de artistas, ao longo de três gerações, estabelecendo a ligação entre os óleos de Amrita Sher-Gil, figura-chave da arte moderna da Índia, e as fotografias inovadoras e magníficas do seu pai, Umrao Singh Sher-Gil, considerado por muitos o fundador da fotografia indiana moderna. Por sua vez, as obras de ambos entrelaçam-se com as fotomontagens e a obra de Vivan Sundaram, sobrinho de Amrita, neto de Umrao e um dos melhores artistas da cena artística indiana contemporânea”.
Um terceiro grupo expositivo pertencente à Colecção Berardo é composto por antiguidades decorativas Indianas, com referências ao imaginário popular e religioso Hindu (pequenas estatuetas, baixos relevos em madeira) e uma série de 60 fotografias documentais inéditas da autoria de Juan Bécquer, tiradas nos anos 50 e 60 e que nos revelam uma Índia mítica e monumental.

oportunidade de negócio

•Novembro 15, 2009 • Deixe um comentário

aparelhoSócrates, o Procurador, o Presidente do Supremo, antes o Presidente da República, cheira-me que esta gente tem às escondidas uma qualquer participação num negócio de aparelhos auditivos. Dizem que os escutam, mas a pergunta que se impõe é quem ainda os ouve?

da bósnia, com amor

•Novembro 14, 2009 • Deixe um comentário

Um a zero, que com a maior sorte do mundo, não foram um a três. E talvez não tivesse sido mau, para pôr os rapazinhos dos penteados e das tatuagens a jogar futebol como antigamente. E o tal de Ronaldo, de quem esta semana todos falaram a toda a hora como se fosse o homem por trás da descoberta da vacina contra o cancro? De vocês não sei, ou sei quase nada, de mim digo-vos que esta semana enjoei desta baba futebolística com que os portuguesinhos todos andam na boca. Ai, ai, ai, se não estivermos na África do Sul, ai, ai, ai!!! Mas que é isto? Que lógica funciona na cabeça desta gente que só pensa nisto, que acorda, vive e dorme a pensar no calcanhar de um tipo cujos miolos devem ser de catchu? Que lógica assiste a esta Imprensa que se borra toda um dia inteiro em directos do estádio dos aguiões, sem nada para dizer, sem gente interessante para entrevistar, sem notícia nenhuma!? A Bósnia? Vai ser um calvário. Mas nós somos melhores, certamente que dirá o mister.

os suicidas

•Novembro 14, 2009 • Deixe um comentário

89.
tentou agarrar-
-se ao que de si próprio
restava
mas faltaram-lhe as forças.

existessenciais e que tais

•Novembro 14, 2009 • Deixe um comentário

7. O cão só morde a quem o acorde.
8. A pulga lá por ir de cão, quem é que se julga?
9. O elefante nunca vai e volta num instante.

o problema de deus

•Novembro 14, 2009 • Deixe um comentário

O Vazio Zen

«Ser paciente, é dormir.
Mas não dormir acordado.
Crer mais do que acreditar
em que Deus está ao meu lado.»

Raul de Carvalho, «De Nome Inominado» (1974), Ed. Caminho, «Obras de Raul de Carvalho»

paulo coelho na selecção?!

•Novembro 13, 2009 • 1 Comentário

mago«Autori portoghesi
1 2 3 4 5 >>

COELHO PAULO
IL VINCITORE E’ SOLO BOMPIANI
€ 19,00 € 14,25 -25%

SARAMAGO JOSE’
QUADERNOBOLLATI BORINGHIERI
€ 15,00 € 12,00 -20%

…» Autori portoghesi!!! Ora bem, que raio de informação é esta? Desinformação, certamente, já que o excelso Paulo Coelho de português só terá a língua que usa nos seus livros – sendo certo que é bem provável que a exemplo da generalidade dos brasileiros também possa ter nos seus antepassados um qualquer avô brasileiro, emigrado lá das brenhas do norte em finais do séc. XIX, princípios do século XX. É bastante provável. Porém, que eu saiba não tem aspirações a central na selecção. A gralha vem no site http://libreriarizzoli.corriere.it/libri/narrativa/in_lingua_italiana/autori_portoghesi.aspx?idc=10014300, resumindo no diário italiano Corriere della Sera. Achei piada. O Berlusconi deve andar a afectar o povo…

naldinho, velha raposa!

•Novembro 13, 2009 • Deixe um comentário

naldinho

DR. HenriCartoons

apostas propostas – wild beasts

•Novembro 13, 2009 • Deixe um comentário

Wild-Beasts-Two-DancersActualmente sediados em Leeds, os Wild Beasts, presença confirmada em Lisboa no cartaz do próximo Super Bock in Stock (4 e 5 de Dezembro), vêem chegar ao mercado nacional esta semana o seu segundo longa-duração, Two Dancers, álbum que sucede a Limbo, Panto (2008, Domino Records) Hayden Thorpe, Billy MacKenzie, Tom Fleming e Benny Little surpreendem-nos com um álbum acima da média, inventivo, por vezes imbuído numa atmosfera «dark», mas também cheio de garra, a exemplo de uns Editors ou uns The White Lies. Indie de feições experimentalistas, eis talvez a melhor aproximação ao seu som, onde predominam as guitarras de Little e a aveludada e quente voz de Thorpe, que não raro se aproxima das tonalidades da voz de um Antony ou de Prince Billy.
Two Dancers, Edel

dum a dez – os números para os mais pequenos -ptn

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

O 1 é só ele, coitadinho, e mais nenhum.
O 2 está antes do que vem depois.
O 3 vem agora porque chegou a sua vez.
O 4 está no quarto a brincar com um lagarto.
O 5 faz fita e diz muito chateado: «Já não brinco!»
O 6 admira os seus anéis e sonha com histórias de reis.
O 7 diz que é muito forte e com ele ninguém se mete!
O 8 é de todos o mais redondo e mais afoito.
O 9 chama o 10 para casa porque já chove.
O 10 chega a casa, descalça as botas e seca os pés.

O 1 descuidou-se com uma garrafa de rum.
O 2 gostava de ter um carro de bois.
O 3 sonhava em ir a Fez.
O 4 pede que o levem ao teatro.
O 5 fecha a porta e corre o trinco.
O 6 agarra na tela e nos pincéis.
O 7 anda a passear de trotinete.
O 8 foi à dispensa roubar um biscoito.
O 9 de chegar a dez ninguém o demove.
O 10 corre o mundo de lés-a-lés.

nuno ramos – «ó» pra literatura brasileira ganhando da gentxi!

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

ramosO artista plástico e escritor brasileiro Nuno Ramos foi o vencedor da edição 2009 do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, atribuído pelo livro de contos «Ó», editado pela chancela Iluminuras. Em segundo e terceiro lugares ficaram outros dois autores brasileiros: João Gilberto Noll, com «Acenos e Afagos», e Lourenço Mutarelli, com «A Arte de Produzir Efeito Sem Causa», respectivamente. Primeiro aspecto, a distinção de um livro que, ao que leio, pela sua vertente experimentalista e alergia a catalogações de géneros, dificilmente seria premiado por um qualquer concurso de literatura nacional. Segundo aspecto, os escritores portugueses foram claramente derrotados nesta edição do prémio: justiça ou rotatividade geográfica oblige? Pela frente mais um Prémio Camões em perspectiva? Enfim, venha o livro para o mercado nacional que, já agora, em matéria de nova literatura brasileira tristemente pouco ou quase nada nos vai revelando.

os suicidas

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

88.
porque
lhe ofereceram
um espelho.

apostas propostas – jorge fernando

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Jorge FernandoCompositor e intérprete, letrista, grande descobridor de talentos, ex-guitarrista de Amália, também produtor (Mariza ou Ana Moura, entre outros), Jorge Fernando regressa à edição em nome próprio. Vida é como se chama o seu novo longa-duração, disco onde volta a cruzar géneros musicais e a apostar no fado enquanto ponte para outras sonoridades. Aqui, dezasseis temas reflectem, no dizer de Jorge Fernando, outros tantos «retratos musicais e poéticos sobre o espírito dos dias». Colaboram nomes como Sam the Kid, Ana Moura, Lucio Dalla, Fábia Rebordão, os músicos Daniele di Buonaventura (bandeonista), Márcio Montarroyo (trompetista) ou o consagrado grupo polifónico corso A Filetta. Os resultados são francamente positivos e entusiasmantes. Para afastar de vez o fantasma do «Umbadá»…
Vida, Farol Música

histórias fulminantes – ptn

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Era noite escura. Levando o seu poste de electricidade pela trela, um homem dirigiu-se para o café da praça. Ali perto, e porque proíbiam a entrada de postes de electricidade no estabelecimento, amarrou o poste a um cão, não sem antes lhe fazer uma festa no cocuruto da lâmpada, recomendando-lhe, de passagem, que se portasse bem, que ele regressaria num instante. Durante a breve ausência do dono do poste, o cão aproveitou para alçar a perna e fazer-lhe um chichi em cima, facto que quase lhe ia provocando um curto-circuito. Quando o homem voltou do café, encontrou o seu poste de estimação chateado, atribuindo-lhe este as culpas do sucedido. Como forma de vingança, no trajecto para casa o poste recusou-se a iluminar-lhe o caminho.

pergunta ao pó – john fante

•Novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

ahab1Via, em primeiro lugar, Manuel da Silva Ramos, escritor encontrado subitamente ao acaso subindo o Chiado há já três anos, ou por aí, travei conhecimento com o magnífico nome Arturo Bandini, alter-ego do escritor John Fante, norte-americano de ascendência italiana. Depois veio parar-me à mão o seu famoso «Wait Until Spring, Bandini», cuja leitura no inglês nativo, por uma razão ou outra, fui adiando. Poucos meses depois, a Teorema editava o primeiro título do autor em português, «A Confraria do Vinho». A capa, de péssimo gosto, enganava aqueles que eventualmente por ela se deixassem enganar não investindo na leitura das páginas. Não me deixei enganar e logo de um trago emborquei a sua escrita genial, cheia de força e emotividade. E, devo dizer, fiquei inebriado a ponto de pedir a todas as alminhas que rapidamente outros títulos de Fante vissem tradução e edição nacional. Foi preciso esperar quase três anos para que isso acontecesse, o que agora sucedeu pela mão da novel editora portuense Ahab (a quem já há quem chame a nova Cavalo de Ferro). E assim foi que, há poucas semanas, chegou às estantes (às das livrarias e às minhas) o também clássico «Pergunta ao Pó». Sumariamente, devo dizer que, uma vez mais, não acho nada afortunado o trabalho estético e gráfico que foi concedido ao livro, tal como devo afirmar que, uma vez mais, voltei a reencontrar uma escrita cheia de carne e osso, visceral e densa, pontuada por momentos de deliciosa e subterrânea ironia. Arturo Bandini é o protagonista de serviço, aspirante a escritor de sucesso, vivendo o dia a dia contando os poucos cobres que lhe vêm parar ao bolso, seja via remessa maternal, seja quando o seu editor (o melhor do mundo) lhe envia por antecipação avanços sobre contos e um romance a publicar. Pelo meio dos seus sonhos e aspirações literárias, o relato do seu difícil e problemático confronto amoroso com a bela Camilla Lopez, uma empregada de bar de ascendência mexicana.

o problema do autor

•Novembro 11, 2009 • Deixe um comentário

«Tinha escrito duzentas e quarenta páginas e o fim do livro estava à vista. O resto foi como um cruzeiro sobre águas tranquilas. Depois enviaria o manuscrito a Hackmuth, trá-lá-lá, e a agonia da espera começaria.»

John Fante, «Pergunta ao Pó», Ahab

os suicidas

•Novembro 11, 2009 • Deixe um comentário

87.
porque quis
declarar-se
culpado.

apostas propostas – rosanne cash

•Novembro 11, 2009 • Deixe um comentário

Rosanne CashO apelido não engana, Cash diz tudo, no caso que a menina Rosanne é filha do lendário homem de negro, Johnny Cash de sua graça e génio. Reunindo convidados como Bruce Springsteen, Jeff Tweedy, Rufus Wainwright ou Elvis Costello, Rosanne Cash interpreta uma lista de clássicos da folk americana que lhe foram dados a conhecer pelo seu pai. Treze dessas canções surgem aqui em estado de graça, com magníficos arranjos e notável interpretação. Fascinantes são, por exemplo, Motherless Children, Sea of Heartbreak, Long Black Veil, Miss the Mississipi and You, entre outras.
The List, EMI Music

histórias fulminantes

•Novembro 11, 2009 • Deixe um comentário

Ao passar pelas brasas o homem caiu no sono e acabou por queimar-se. Os bombeiros, chamados ao local, apagaram as brasas como se de um incêndio de grandes dimensões se tratasse. Traumatizado, passou a lutar constantemente contra insónias. Esgotado de sono e cansaço, a conselho de amigo resolveu, e já em desespero de causa, ir viver para Brazaville tentando a todo o custo voltar a passar pelas brasas. Quis o acaso que numa noite de frio fosse apanhado em flagrante a atiçar umas brasas, acabando preso e acusado de pirómano.

apostas propostas – limiar

•Novembro 11, 2009 • Deixe um comentário

LIMIAR~1
LIMIAR
12 a 15 Nov. 5ª a Sáb. 21H45 Dom. 16H15
Teatro Nacional D. Maria II
Sala Estúdio
De João Silva, redigido a partir de discussões e conversas livres e criativas dos actores do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos. Encenação e direcção dos actores, João Silva.

algumas capas de livros infantis holandeses, de 1810 a 1950

•Novembro 10, 2009 • Deixe um comentário

4070556657_e5f45ce7a64071288588_53ef4d28d74071289234_96d5738dcc4071314354_447855756c
Em http://bibliodyssey.blogspot.com/2009/11/dutch-covers.html

o problema do autor

•Novembro 10, 2009 • Deixe um comentário

11_letters72

apanha de tabaibos – dr. ptn

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

P9110407

o problema do jornalismo

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

«It would be hard to find a less promising country in which to start a newspaper than Portugal. Not only are readers defecting to the Internet, as they are elsewhere, but relatively few people ever picked up a paper to begin with. And print advertising has plunged by more than 40 percent this year.»

Eric PFanner, «New York Times», 8 de Novembro 2009

apostas propostas – eudora welty

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

eudoraDias 11 e 12 de Novembro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Eudora Welty estará em destaque e a debate. Nascida no Mississipi, em 1909 (falecida em 2001), Welty é hoje considerada uma das autoras mais proeminentes da literatura norte-americana do século XX. «Os Ventos e Outros Contos» é uma antologia que agrega textos representantes das diversas fases da sua carreira literária desde 1941 a 1963, numa variedade estilística que atesta o seu génio. A escrita weltiana é caracterizada por uma visão humanista, por um sentido de irmandade para com homens e mundo, no modo como descreve situações do quotidiano, conferindo-lhes uma ressonância poética, próxima do realismo mágico.

os suicidas

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

86.
pegou
em todas as ausências
e deu o nó.

apostas propostas – kings of convenience

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

Kings of ConvenienceNão será pop, será popy, não será easy listening, mas é seguramente um outro álbum dos Kings of Convenience que agradará a uma primeira audição. Declaration of Dependence traduz, por conseguinte, o quão bem funcionam em conjunto Erlend Oye e Eirk Boe, que voltaram a encontrar-se para o seu terceiro disco de originais. Em escuta, treze canções repletas de simplicidade, emoções e um não-sei-quê de candura original absolutamente desarmante. Less is more, eis a máxima seguida pela dupla norueguesa. É certo que não há novidade, mas também não há desilusão.
Declaration of Dependence, EMI Music

existessenciais e que tais

•Novembro 9, 2009 • Deixe um comentário

6. Gaiola é estabelecimento prisional para homossexuais?

apostas propostas – «milton», de william blake

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

blake«Milton» é o título com que a Antígona dá continuidade à publicação das obras de William Blake (1757-1827, artista e poeta), ainda e sempre pela experiente e poética mão de Manuel Portela. «Milton» encena a viagem de autodescoberta e renovação do herói que lhe dá título. No primeiro livro do poema, John Milton regressa do céu ao mundo dos mortais. Sob a forma de um cometa, penetra no corpo de William Blake. A relação entre o poeta vivo e o seu predecessor dramatiza as pulsões contrárias da consciência individual, e uma luta sem tréguas pela afirmação da imaginação e da visão contra a mera exterioridade do mundo material. No segundo livro, Milton une-se à sua emanação feminina, Ololon, progredindo em direcção à superação apocalíptica das divisões entre sexos, entre vivos e mortos, e entre a consciência humana e as suas projecções alienadas no mundo exterior. Este enredo integra inúmeras referências e alusões, que vão desde a Bíblia à vida pessoal de Blake, em particular a difícil relação com o seu mecenas William Hayley.

quando por vezes realidade e ficção andam próximas – a propósito do brasileiro que foi ao seu funeral, publico aqui um excerto do último romance que escrevi em que o protagonista passa por algo do género…

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

«Entrei de óculos escuros e vagueei pelas campas à procura do meu corpo… Creio que na altura nem me dei conta de quão bizarra era aquela cena, um homem à procura de si mesmo no cemitério! E tinha eu ficado surpreendido com as leituras dos contos no Clube do Belo. Pois ali estava eu, uma espécie de morto-vivo caminhando por entre túmulos e ténues vozes de lamento e choro, em busca da minha última morada. Como seria ela? Teriam os meus amigos e conhecidos, quem sabe os meus leitores – poucos, mas enfim… –, realizado alguma colecta para me concederem uma campa minimamente digna? Perpassei os olhos por centenas de campas, mas nada, nem sinais de mim. Ter-me-iam cremado? Não tinha deixado nenhuma vontade escrita nesse sentido, pelo que alienei a hipótese. Porém, tinha sido ali que eu fora enterrado, lera-o nos jornais no dia seguinte à minha morte. Portanto, eu teria de estar por ali algures. Mas onde? Incapaz de me descobrir decidi perguntar à entrada do cemitério, a um homem que me parecia responsável fosse lá pelo que fosse ali dentro. Perguntei-lhe pelo meu nome, pela minha campa, ao que ele, fúnebre – parecendo que esse seu ar e a sua postura faziam parte de um ‘livro de estilo’ da profissão –, entrou dentro de um pequeno casinhoto, voltando com um grosso e negro livro de registos na mão. Folheando-o à minha frente, lambendo o dedo indicador direito entre uma e outra página, ainda perguntou
Quando foi mesmo que o senhor morreu?
dizendo-o sem saber que ao fazer a pergunta era ao morto que se dirigia… Disse-lhe a data e ele avançou nas páginas.
Ora, ora, deixe cá ver… sim, sim, cá está, cá está ele. Tem razão, o senhor morreu, está efectivamente morto. Talhão 87, Campa 735. O amigo vai por este corredor até ao fundo, ali onde está aquela capelinha, está a ver? Aí, vire à direita, faça esse carreiro e ao fundo, também do lado direito, estão as campas rasas. Não tem que enganar, se não o descobrir logo, pergunte ao coveiro, acho que ele anda lá agora a desenterrar umas ossadas que a bicharada já digeriu.
Agradeci e retirei-me engolindo em seco.
Bicharada? Digerido pela bicharada?!… Campas rasas?! Não mais do que uma campa rasa, assinalada com o meu nome numa tosca e singela tabuleta?… Preferi não ver, preferi não ir. Aquilo já era uma machadada suficiente. Mas fui, a curiosidade mata, por mais que o saibamos não sabemos resistir-lhe e eu, que já estava morto, foi como se tivesse morrido uma segunda vez. Ao olhar para o solo sob o qual se encontrava o corpo do ministro, verti duas lágrimas e fui-me embora, triste e derrotado, mas disposto a ir em frente com a minha nova vida. “Só a morte desperta os nossos sentimentos”, escreveu Albert Camus, a mim, aquela visita provou-me isso mesmo, para o mal, enchendo-me o coração de um vazio imenso, e para o bem, levando-me à decisão de viver os meus futuros dias com todo o meu empenho e emoções. Afinal, eu era um ministro e se o era pelo menos iria viver como um ministro. Ao sair do cemitério, reparei numa loja de flores do outro lado da rua. Pensei em ir comprar-me um ramo, mas achei que isso seria demasiado triste.»

o problema do autor – john fante

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

fante«Uma oração. Claro que sim, uma oração: por razões sentimentais. Ó Deus Todo-Poderoso, perdoa-me o facto de me ter tonado ateu, mas já leste Nietzsche? Oh, que livro aquele! Deus Todo-Poderoso, quero ser justo contigo. Façamos um trato. Se fizeres de mim um grande escritor, regressarei à Igreja. E suplico-te, querido Deus, mais um favor: faz a minha mãe feliz.»

John Fante, «Pergunta ao Pó», Ahab edições

apostas propostas – james ensor ou porque é que não estamos em paris

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

ensorAté 4 de Fevereiro de 2010, o parisience Museu d’Orsay, conjuntamente com o MOMA, consagra uma retrospectiva à obra do pintor e desenhador belga James Ensor. Um convite à descoberta de uma obra eclética e polimórfica, estranha e audaciosa. Nascido em Ostende em 1860 e falecido em 1949, o artista deixou uma obra complexa agora dada a conhecer num percurso por quatro etapas da sua vida e produção artística.

existessenciais e que tais

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

5. Será possível a um músico negativista compor sinfonias? E poderá um compositor paralítico compor um andante?

apostas propostas – seu jorge

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

SEU JORGEReúne canções como «Trabalhador», «América do Norte», «Burguesinha», «Tive Razão» ou, entre muitas outras, a brilhante «Mina do Condomínio». De Seu Jorge, chega ao mercado este muito recomendável «América Brasil ao Vivo», corolário de um ano de estrada cheio de concertos que lhe valeu o Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de MPB 2008. Gravado no Citibank Hall, no Rio de Janeiro, em 31 de Janeiro do ano corrente, num cenário tropicalista em que os músicos surgiram em palco na pele de «trabalhadores brasileiros» (cozinheiro, polícia de trânsito, índio aculturado, palhaço) por contraponto a um Seu Jorge trajando à executivo, este é um álbum que celebra a inventividade e boa-disposição da música brasileira. Nota especial para a participação de Damien Rice no tema «The Blower’s Daughter», que na versão «É Isso Aí» foi um sucesso no dueto do cantor com Ana Carolina.
Edição EMI

ptneves no www.pnetliteratura.pt – francisco josé viegas

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

mar«O Mar em Casablanca»
De Francisco José Viegas
Porto Editora, 234 páginas

«Simplesmente, limitava-se a observar que o tempo passara.» O tempo passara. E com ele Jaime Ramos, o detective lavrado pela imaginação de Francisco José Viegas, protagonista de livros e aventuras outras que não esta, «O Mar em Casablanca», que agora nós traz de volta aos dias e andanças do circunspecto inspector. Ainda no activo, a braços com novos mistérios, novos casos de homicídios, Jaime Ramos encontra-se, porém, no Outono da vida, pelo menos da vida profissional: «Daí a quatro anos entraria na recta final da sua carreira»; donde que evitasse chatear-se com coisas de somenos. Nomeadamente: corredores, inquéritos arriscados, casos de corrupção, enfim, toda uma série de chatices desprestigiantes da carreira e, diria, «do próprio crime». «A polícia apostava nos jovens» e Ramos sabia disso, pelo que, olhando para o passado nos reflexos do presente, se limitava «a observar que o tempo passara». Iniludível, infame.

Não espanta, por conseguinte e por tudo isto, que a toada deste livro, desta intriga «a dois mortos» que envolve Ramos, e que, virá a saber-se, «mete Angola e dinheiros», se tinja de uma melancolia típica de quem, vendo chegar o fim da linha, olhe para trás conferindo as contas do passado. Um olhar para trás sem raiva, retenha-se, pois Jaime Ramos não se revela homem de aziagas recordações e azedas memórias. A narrativa desta história decorre pois numa cadência apaziguada, pacificada. Os dados dos crimes em mãos jogam-se aos olhos do leitor à medida que se escoam pelas páginas as memórias de Ramos. Tepidez, o melhor termo para dizer deste desfiar será esse, a morna e branda tepidez com que Francisco José Viegas consegue impregnar-nos, numa gestão muito bem conseguida entre intriga criminal, por um lado, e o destilar do passado de Ramos, por outro. O Outono, sempre a toada outonal a desprender-se das páginas.

Propósito duplo nessa estratégia. Primeiro, ir cozinhando habilmente o mistério das mortes por resolver, entregando ao leitor indícios, pistas, factos avulsos de um puzzle desconexo por deslindar. Depois, aproveitar as deixas para ir reflectindo um passado cheio de geografias, nomes, tempos e ideias outras. O seu tempo de juventude, a aproximação ao Partido (primeiro em África, depois no Porto), a relação complexa com Emília, os difíceis tempos da guerra do Ultramar, a relação com Rosa, o Douro e as suas paisagens, as vindimas, o calor infernal do Pocinho, as montanhas e os vales da sua adolescência, tudo corre pelos silêncios de Jaime Ramos, tal como correm dados e geografias outras pelos mapas de vida das suas personagens. E, no entretanto, o conferir das informações veiculadas pelos prestáveis José Corsário e Isaltino de Jesus (este, diz-se a páginas tantas, aparentando «um cão obediente e fiel»), no entretanto, no mais íntimo dedutivo de Jaime Ramos, o desmontar dos mistérios, a lenta construção interior dos puzzles da morte.

Nostálgico quanto baste, Jaime Ramos não perdeu ainda, apesar de tudo, a sua fina a apurada capacidade de ler o mundo no presente, fazendo uso, para o efeito, das suas reconhecidas capacidades de ironia crítica. Seja quando uma personagem pergunta a Ramos se ele vai continuar a fumar («Eu? Sim. Incomoda-o?» – e o outro responde: «Não. É que assim também fumo. Há muito tempo que não fumava um cigarro com protecção da autoridade.»), seja quando se tecem considerações futebolísticas (sobretudo a respeito da compreensão a ter por quem seja Sportinguista…), ou ainda nas diversas observações sobre o mundo dos jornalistas e do jornalismo em geral («Antigamente, um jornalista era um jornalista, indicávamos-lhe a mesa dos jornalistas, ao canto, onde podiam fumar antes da sobremesa e beber mais um pouco. Hoje misturam-se muito.»), bem como a respeito dos tiques e hábitos burgueses e afins de hoje: «… depois, nos anos oitenta, veio o turismo de habitação, vieram os snobs do vinho, vieram os gabirus, os gestores de quintas, os técnicos de marketing…».

Ao longo de mais de duzentas páginas, Jaime Ramos desvela-nos o seu passado, as suas dúvidas, apreensões, diz-nos das suas razões, do seu ser, abre-nos a sua alma como detective algum se atreveria a fazer, a não ser que confrontado com a morte no momento exacto em que esta, visitando-o, o obrigasse a rever o filme da sua vida em segundos (no caso estas páginas). Esperemos que disso não se trate e que os poucos anos que lhe restam de carreira ainda lhe guardem muitos casos por deslindar. De outro modo, que o Inverno a vir lhe seja grande antes que um imenso mar branco venha abater-se sobre o filme da sua vida. E, já agora, se possível, um longo Inverno povoado de cadáveres quanto bastem, armas, ardis e o mais que preciso for pela frente. E sim, claro, que para o efeito cumpra Ramos os prescientes avisos do seu médico, que leve, enfim, uma vida saudável, nada de tabaco, álcool, stress, pão integral e saladas às refeições, está de ver. Religiões orientais? Enfim… não será necessário chegar a tanto.

A intriga, por fim: tenha o leitor dois crimes em cenários paradisíacos, de luxo. Um, no Hotel Palace do Vidago, em festa de despedida, à qual comparece, embora sem ser convidado, um ex-jornalista de Economia, Joaquim de Sousa Seabra, que no final da festa aparece morto no exterior do hotel, num lago cheio de líquenes. Outro, numa antiga quinta vinhateira das encostas do Douro, onde surge o cadáver de Benigno Mendonça, preto, angolano que se dispôs comprar a propriedade em causa, «alvejado durante o sono», morrendo em tranquilidade, um «corpo apenas», «um negro morto e abandonado na cama de uma casa de turismo rural». Dois crimes, dois mundos, duas vidas com portugueses dentro, estórias que a História forjou. O resto deixa-se ao leitor o trabalho de imaginar. Como diz Jaime Ramos a páginas tantas, «… só podemos imaginar, é o que nos resta.» Imaginar, por exemplo, o mar em Casablanca, imaginar o mar que não se vê em «Casablanca». Mas, afinal, «como é o mar em Casablanca?»

apostas propostas – cecilia bartoli

•Novembro 6, 2009 • Deixe um comentário

untitledA cada novo disco Cecilia Bartoli surpreende, reinventando-se nas interpretações, buscando sempre novos motivos de interesse a explorar musicalmente. Desta feita, interessaram-na os Castrato, que marcaram uma época na História do Bel Canto, que fizeram escola em Itália (Nápoles era considerada uma fábrica de castratos) e que tiveram em nomes como Farinelli ou Porporino os seus expoentes. Neste soberbo Sacrificium, Cecilia recupera algumas das mais famosas composições escritas para voz, três delas num segundo CD, contendo árias de Broschi, Handel e Giacomelli.
Sacrificium, Universal Music

existessenciais e que tais

•Novembro 5, 2009 • Deixe um comentário

4. Era um cavaleiro andante e insistia em inscrever-se na prova de marcha. A organização do evento negou-lhe o intento considerando que ele partiria com uma vantagem à cabeça.

apostas propostas – editors

•Novembro 5, 2009 • Deixe um comentário

EditorsThe Back Room, dos Editors, editado em 2005, foi uma das melhores pedradas no charco da alt-pop dos últimos anos. No segundo álbum, An End As a Start, lançado dois anos depois, a banda de Tom Smith reincidia na excelência, reiterando a aposta do grupo num som pós-punk alicerçado numa linha de guitarras muito eficaz, não abdicando de linhas melódicas muito pungentes. Agora, ao terceiro álbum, os Editors realinham baterias, investindo no domínio da electrónica e sintetizadores. A toada ‘negra’ continua latente, há porém mais alegria e descontracção nas canções.
In This Light and on This Evening…, Edel