zambujo vs josé luís gordo, excerto de uma conversa a chegar na edição de janeiro da «epicur» – foto ptn
O que significa deixar cair o Fado na banalidade?
José Luís Gordo – Olha, por exemplo, por o fado a ser cantado no Eléctrico 28. Como é que se pode cantar o Fado com aquela chiadeira, aquele balanceio, com pessoas a entrar e a sair, a porem notas de euros nos buracos das guitarras, como se os cantores e os guitarristas fossem ceguinhos… É diferente: o Fado não precisa disso para sobreviver. Isso estraga o fado, não lhe dá mérito, retira-lhe.
António Zambujo – Sim, mas não vamos dizer que é tudo mau. As Festas da Cidade são um bom exemplo contrário do que se deve e pode fazer pelo Fado.
José Luís Gordo – Sem dúvida, mas numa cidade como Lisboa, cheia de pequenas praças, becos e ruelas onde se pode cantar o fado com dignidade, pô-lo num eléctrico… Tu ias lá cantar?
António Zambujo – Não, claro que não.
José Luís Gordo – Pois! E eu já o disse ao Miguel Honrado e ao António Costa. É claro que foi algum tinhoso que lhes foi lá vender esse peixe. Mas a culpa não é de quem vende, é de quem compra. Se querem pôr as pessoas a ver Fado, no seus ambientes naturais, as casas licenciadas, é preferível que as ajudem, por exemplo, a terem melhores cartazes, melhores elencos. Porque as despesas para ter uma casa com qualidade a funcionar 365 dias por ano são incalculáveis. Melhor era que dessem vouchers às pessoas que não têm possibilidades para ir a esses locais.

