ptneves no www.pnetliteratura.pt – maria da conceição caleiro

cao ilhasO Cão das Ilhas
De Maria da Conceição Caleiro
Sextante

Maria da Conceição Caleiro, nome sobejamente conhecido no universo dos estudos e crítica literária, aventura-se pela primeira vez na escrita do romance. «O Cão das Ilhas» é um livro estranho, estranho para primeiro livro, diria. Tão-só porque, para início desta recensão, me parece um livro que oscila entre o cativante e, por vezes, uma toada arrastada que parece perder-se no labirinto do dizer. De algum modo, é um livro ‘à deriva’ e, nessa medida, acompanhando o evoluir psicológico e geográfico do protagonista. No domínio da linguagem, o mesmo se passa, com a mesma sensação fiquei: ora deparamos com períodos mais correntes, sem grande urdidura, ora atravessamos momentos de um rendilhado frásico e linguístico muito mais elaborado, por vezes intrincado. Como consequência, creio que padece a gestão do ritmo da narrativa, aqui e ali sofrendo por via desse debruado descritivo, sendo disso exemplo o relato, a duas vozes, do encontro e aproximação entre Rafael e Pilar em Paris, em minha perspectiva algo arrastado e repetitivo.

Romance no masculino, são, porém, as mulheres o motor do enredo, uma vez que é por elas, e parece que só por elas, que vive Rafael, o cão das ilhas, o acossado, o fugitivo, o exilado. Uma vez nascido cão, cão para todo o sempre, parece retirar-se, como ilação, desta história. ‘Cão’ sentimental, emotivo, emocional? Sim e não. Rafael revela-se personagem complexa; ora capaz de amar uma mulher e guardá-la para sempre no coração, ora tratando todas as demais que lhe saltam ao caminho (e com estranha facilidade…) como «putas», com instinto frio e interesseiro. No mais, perde um pouco o romance pois dificilmente se mostra fidedigno no discorrer sobre o modo como Rafael se amanha para ganhar a vida. Estranhamente, bafejado pela sorte, o dinheiro parece chegar-lhe às mãos, não se percebendo bem como, tanto mais que a maior parte dos seus dias se faz de pura deriva, desde o porto do Havre até às ruas de Lisboa, passando pela sempre pícara, colorida e festiva Paris. É certo que Rafael nos é dito enquanto aguarelista, detentor de dotes artísticos, mas esse aspecto nunca passa de um quase fait-divers curricular.

Um outro aspecto que achei ter ficado aquém das expectativas (as minhas, claro) foi a descrição de um tempo-espaço em que as personagens evoluem. Na verdade, não posso dizer ter ficado com uma «aguarela» do pulsar parisiense dos anos 70, sequer do mundo a esse tempo. Da revolução dos cravos, pouco igualmente se adianta, tal como sobre a Lisboa de finais de 70, que nos surge apenas enquadrada na moldura boémia e das tertúlias de café. Das ilhas, açorianas, presume-se, ressoa apenas um espaço físico perdido num passado do qual ecoam apenas leves cintilações evocativas: o sabor da comida, uma peça de mobiliário, um dito ou um dizer concretos, a lembrança de uma mãe. Diria pois ter ficado com a sensação de que estas personagens, e os laços que as unem, evoluem numa espécie de território onírico, fechadas em si mesmas, longe do mundo que as rodeia. Zarina, Pilar, Melina, as mulheres de Rafael, que para ele convergem como abelhas ao pólen, acabam todas por perder. Rafael não é, por conseguinte, senão um anjo caído do «fétido» das ilhas, escorraçado do mundo mágico insular para o plano terreno dos afectos cruéis, condenado a uma deriva que há-de levá-lo à queda, arrastando consigo para o abismo as mulheres que atrai.

Tudo, pois, neste divagar existencial de alma ferida (o romance inicia-se com Rafael e Czarina, servo e senhora, traídos pelo ladrar do seu cão fiel, Tristão) convoca argumentos clássicos de pendor trágico. Circular, não nos custa a adivinhar, a páginas tantas pelo meio do romance, que a história não há-de acabar bem. Rafael é, a seu modo, um miserável Jean Valjean, um tumultuoso Heathclif, e a sua história lembra amiudadas vezes as sinas trágicas das relações ‘proibidas’ como aquelas de Pedro e Inês ou Romeu e Julieta. Nesta perspectiva, Rafael é o herói intemporal, o amante ferido e escorraçado que agrega em si as sementes imparáveis da vingança. Anjo e demónio, para resumir, numa atmosfera que ao seu passar se contamina e, a passo e passo, condensa o germinar da tragédia quase anunciada. Livro de errância, guardam-se também, da sua leitura, as passagens assumidamente eróticas e carnais, fulgurantes indícios de um mal-estar, cru e cruel, que acode aos sentimentos contraditórios do protagonista – nas suas relações, dir-se-ia não existirem afectos, antes ímpetos, não a calmaria do sentimento puro, antes a febrilidade do animal em sangue.

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 16, 2009.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: