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zimlerOs Anagramas de Varsóvia
Richard Zimler
Oceanos, 365 páginas

Richard Zimler regressa aos escaparates literários com mais um romance, Os Anagramas de Varsóvia. Um excelente romance, desde já se assuma. Como pano de fundo temporal, a tenebrosa paisagem histórica do nazismo, focando-se o autor, desta feita, no período muito particular do ano de 1940. Na sua escrita, embrenhando-nos desde o início num enredo pleno de mistério, partimos ao encontro do viver e do respirar que se sentia no gueto de Varsóvia, capital polaca onde, ainda nos alvores da guerra, as hostes nazis encerraram, asfixiaram e humilharam quatrocentas mil pessoas forçadas a (sobre)viver em circunstâncias extremas. Trata-se, por conseguinte, por parte de Zimler, de um retomar do fio de uma meada ficcional que lhe é cara e recorrente (Zimler teve familiares no gueto e nos campos de concentração), bem como do repegar de vários aspectos que têm presidido ao seu labor criativo e narrativo. Em particular, o interesse votado à temática da errância judaica e à purga quase contínua que este povo sofreu ao longo da História, em traços gerais, a circunstância do Mal enquanto mal de vivre do ser humano. No mais, para além do carácter histórico que assiste ao romance, Zimler tece, com extrema minúcia e habilidade, um pano ficcional de cariz policial que vai servindo na perfeição ao agarrar do leitor, deixando-o em suspense até às páginas finais.

A história é-nos narrada por um sobrevivente do gueto chamado Heniek Corben, a quem terá sido relatada pelo protagonista Erik Cohen, um médico psiquiatra. Centrando-se no mistério e investigações em torno de uma série de macabros assassinatos de crianças no gueto – mortes invariavelmente embebidas em contornos de puro horror, pois os corpos surgem sempre mutilados de um, ou parte, dos seus membros –, Os Anagramas de Varsóvia é um livro cujo enredo ficcional, à imagem de todos os que se escrevem sobre uma tal temática, se vê ultrapassado, digamos assim, pelo impacto maior que sempre colhe a rememoração da vergonha humana perpetrada pelo Terceiro Reich. Não que Zimler não condimente o lado de ficção com credibilidade suficiente, pelo contrário, revela-se soberbo na gestão do evoluir dos pormenores e na elaboração do puzzle em torno dos crimes, apenas e tão-só que aquilo que, no meu entender, mais se cola à memória e o que mais brutaliza as emoções do leitor, é o plasmar da ambiência vivida no gueto, é o trazer-nos para dentro de uma atmosfera de perfídia e asfixia a que os judeus foram votados. Creio, de resto, ter sido esse um dos objectivos de Zimler. Outro, provavelmente, aquele de, e por oposição, revelar a faceta de resistência, de luta, de querer, de capacidade de sobrevivência que assiste ao Ser Humano.

Erik Cohen, a brilhante personagem criada pelo escritor, assume esse cariz heróico, de resistente, vestindo, por conseguinte, a pele da esperança; mesmo se diante das mais adversas circunstâncias, mesmo se aviltando pelo seu semelhante, mesmo se confrontado com o Homem esquecido de si mesmo, o Homem travestido a monstro, a máquina de morte, a servo da Besta. E contudo, contudo esta personagem apresenta-se a início do livro como «morta», um «homem morto». Explicação: mesmo tratando-se de um sobrevivente, qualquer um que tenha resistido aos campos da morte nazis de alguma forma morreu. Realista, brutal, cruel, doloroso, Os Anagramas de Varsóvia é um livro impiedoso, por vezes a espaços se confundindo com a malvadez que vai rememorando e esquartejando, de resto à imagem de Erik, que amiúde se revela cruel para com aqueles com quem partilha o ar que respira e a desafortunada desdita. No caso se Erik, como no de Zimler, nas suas opções, trata-se apenas de uma forma de luta – como que um «junta-te ao Mal para o entenderes e depois o denunciares»; dito de outra forma, o Mal tem que ser lembrado com todas as suas vísceras para que não seja esquecido, para que não sejam esquecidos aqueles que o sofreram na pele. O que não é de somenos importância numa época de memórias facilmente solúveis e ráveis branqueamentos históricos.

O Mal, a esperança, o ser humano. E, claro, Deus, cujos «indícios» parecem apagar-se em determinados momentos da História, como este vivido ao tempo do gueto de Varsóvia. E, na verdade, de Deus nem penumbra ao longo destas páginas onde apenas à tona emerge a miséria humana no pleno do seu fero esplendor. A miséria humana perpetrada, curiosamente, ou talvez não (já devíamos todos ter aprendido), por homens, homens como nós… «O mais espantoso é que tinham tal e qual o mesmo aspecto que nós.» Fim da História, conclusão do eclipse de Deus? Fim da história dos judeus?: «Sabe o que é que a senhora Sawicki me disse? – perguntei-lhe. – Que a nossa história terminou. A história dos judeus.» Fim da história, rendidos os corpos como «tropeços», como «traças», à crueldade de um povo que a havia elevado à condição de filosofia? Não, em parte não. Se é certo que a história não acabou (Fukuyama, muito anos mais tarde, também nessa apreciação se enganaria), bem verdade é que para quem viveu essa parte da história ela (enquanto vida, enquanto memória) chegara mesmo ao fim, mesmo que uma outra pela frente se apresentasse, uma nova vida, um viver contra a memória, um viver de sobrevivência. Viver, sim, mas provavelmente nunca um viver puro – e talvez essa seja uma crueldade maior do destino individual de cada um dos sobreviventes. A certa altura, o título do livro clarifica-se: no gueto, por uma questão de sobrevivência, os seus habitantes criam uma linguagem críptica e cifrada que só eles entendem. Os nomes, por exemplo, surgem como que do avesso, em anagramas. De outro modo, sobreviver pode até acontecer, pode até ser uma hipótese, mas esses, os sobreviventes, sabem que para tal aguentar será preciso inaugurar uma nova linguagem, tal como será necessário inaugurar tudo de novo, tal como será fundamental renascer. Talvez mesmo inventar um novo nome para Deus…

Ficção e não ficção dão neste livro as mãos para rubricarem um notável fresco histórico. O Homem, na sua miséria e grandeza, surge aqui desmontado à luz da História. Nada que o autor de O Último cabalista de Lisboa ou À Procura de Sana já antes não tivesse feito ou tentado pintar. Os Anagramas de Varsóvia junta-se assim a uma série de livros do autor que nesse sentido já apontavam: o tentar chegar ao âmago, ao osso, ao mais dentro do Ser Humano despindo-o nas suas perplexidades, interrogações e contradições. Literatura, em suma, de enorme qualidade, solidez e importância.

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~ por pedroteixeiraneves em Setembro 24, 2009.

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