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luandino«O Livro dos Guerrilheiros»
De José Luandino Vieira
Caminho, 108 páginas

Kene Nvua, ou Diamantino Kinhoca, é um ex-guerrilheiro angolano, anti-colonialista, combatente de muitas lutas, camarada de muitas caras de batalha. Kene Nvua é o nosso narrador de serviço no lembrar da história, no fazer presente das muitas pequenas histórias que somam a grande História. Ele será o contabilista de «errores e tribulações», dos «muitos sofrimentos» pelos quais o seu povo passou, ele será o escrivão do deve e do a haver de vidas muitas «e não menos mortes». Morte, sim, porque este é um livro sobre a guerra, sobre a luta, aquela travada pela independência angolana, logo um livro sobre a morte, sobre a dor. Um livro sobre uma história com data marcada, porque, como diz José Luandino Vieira, por interpostas personagens, o sonho na base da luta era um sonho de sempre, «perseguindo teimosamente seu trilho de muitos séculos», «colheita prometida muito tempo já».

A guerra, por conseguinte. Aquela começada nos idos do Março de 61 e n’«as confusões do quatro de Fevereiro». História, portanto, contada a vermelho-sangue, terrível, feia, feita puro horror, assim esventrada nas palavras-catanas do escritor: «Ora naquele ano de sessenta-e-um, Março, fez a morte grande messe de vidas. (…) Por isso que só as flores dos cafezeiros permaneceram brancas, todo o verde das matas do Norte s’anoiteceu de sangue. Tinha mortos pelos caminhos, picadas e estradas. Sem itinerário. Pendurados das árvores ou semeados pelos capins, pasto dos pássaros.» Ou ainda, não menos morte: «Brancos; mulatos; negros – colonos e assimilados e gentios; altos, baixos, esquartejados e inteiros. Todos, porém, mortos matados. Cabeças espetadas em paus, rota de formigas. Queimados. Crianças, nascidas e nascituras.» E o muito mais, estropiado num dizer de palavras que queimam o só de imaginar. Tanto que «nesse ano, teve a terra demasiado morto a estremecer as raízes debaixo do sol; tanto que até a chuva ficou presa nas nuvens, medo de cair.»

É neste ambiente de um contar vivo de memórias feito e vivido, experimentado na pele do não-esquecimento, que Luandino Vieira volta à edição, com este segundo volume da trilogia «De Rios Velhos e Guerrilheiros». Nas mãos, na boca, nas palavras, a guerra, pano de fundo de um passado que não se gasta sequer tentando esquecer. Uma guerra também nossa, portugueses leitores, mas nem sempre conhecida senão pelo modo como nós a vivemos e vimos, portanto tão-só e apenas de uma perspectiva unívoca. Mas a História tem sempre dois lados. O outro lado desta guerra que foi nossa, e também do Outro, é-nos por este, e pela voz de Luandino, ora dita, escrita e passada a papel. Para que não corra perigos de esquecimento ou erosão da memória, até porque, como é sabido, a história africana nem sempre se põe no papel, antes corre de boca em boca, de cicatriz em cicatriz, de cantiga em cantiga. Importante pois que vá ficando na suposta perenidade do papel impresso a tinta.

Mas guerra é guerra, seja vista de qualquer prisma. «É só miséria, a guerra.» Mortos sem assinatura, mortos de corpo presente, mortos que faleciam «sem deixar cadáver», guerrilheiros e homens – «ossos dispersos» – que morreram mal: «morreu mal», diz-se às tantas de um lembrado camarada combatente; morre-se sempre mal numa guerra. Porque qualquer guerra é uma história de ódios, e esta foi-o. História também de heróis, de homens que sofreram para se tornarem história, para que as suas estórias individuais gerassem o rio maior da sua história colectiva. Rio de sofrimento – há nessas estórias «sofrimento suficiente para isso» –, águas de dor, lágrimas de raiva, este não é, por conseguinte, um livro fácil. Há nele tumulto de sentimentos, emoções cruzadas, memórias incompletas, mortos por morrer, sonhos por viver. Daí também alguma nostalgia que dele, aqui e ali, se desprende, rememorando locais, as gentes, os cheiros, as cores, lembrança sempiterna do «era uma vez no tempo que não tinha minas nas picadas», do tempo em que «a gente ainda andávamos descalças de medo», tempo fugido que não escapa nunca, sequer hoje, décadas passadas, «quando a morte não é mais certeza disparada em pó e pólvora, só mina esquecida na estrada».

E neste cruzar de memórias e tempos outros, neste desmembrar de lembranças e gentes, o cruzar também da esperança com a tragédia (esta chegando até aos dias de hoje, com um presente-futuro hipotecado às mãos de generais e quejandos graduados, ex-combatentes vivendo à grande e à africana no bem-bom de luxos insultuosos e riquezas despudoradas, convivendo diária e tristemente com a miséria-fome dos que foram outrora seus irmãos de batalha). Luandino leva-nos neste livro como se caminhássemos com ele numa picada minada, ora seguindo tranquilos e apaziguados no trilho poético do seu dizer, ora deflagrando subitamente com ele no rebentamento de palavras de sangue, ódio e raiva. De sempre, dirão os críticos da sua obra, este navegar duplo pelas margens da construção poético-literária (elaborada, debruada, erudita, polissémica, por vezes complexa), aliada a uma vertente social e política subliminar ou nas entrelinhas do contado (por vezes até, disfarçada ou mascarada nalgum surrealismo de toada mítico-animista sempre ousada, sempre experimentalista, embora fiel ao imaginário ficcional africano). Breve na sua contenção, «O Livro dos Guerrilheiros» revela-se, no entanto, e por via do tudo-mais acima expresso, grande no desenovelar de emoções e sensações que gera. Livro com pele, carne e osso, pois, ou seja, aquilo que se costuma chamar literatura.

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~ por pedroteixeiraneves em Outubro 14, 2009.

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