pulido valente – o pior cego é o que não quer deixar de o ser

VascoPulidoValenteA crónica de Vasco Pulido Valente, hoje publicada no «Público», com as habituais honras de contracapa, é em tudo elucidativa quanto à cega arrogância da generalidade dos cristãos e, sobretudo, da Igreja enquanto instituição. Aquilo que sempre mais me incomodou no dirimir de argumentos a favor e contra a fé cristã é a incapacidade daqueles que são crentes em confrontar-se com a incredulidade alheia. Eu, ateu, respeito a fé dos cristãos, já a estes, pedir-lhes que respeitem o meu estado de incréu é coisa bem mais complicada. Questionar, pois, os rudimentos, as permissas, as formas, as bases, as ideias da Bíblia, devém assim, quase no imediato, um pecado, uma afronta, um sacrilégio. Tanto mais se for pelo riso, que, como se sabe, é o antónimo de Igreja. Adiante. Na suposta e pretensa detenção da Verdade Única, a Igreja, que gosta de se dizer aberta ao diálogo, renega pela rama qualquer hipótese de questionamento ou de dúvida. No mais, quando alguém o faz, como agora Saramago, lá vêm sempre as mesmas respostas incomodadas: ou o autor das dúvidas ou críticas não tem capacidade intelectual suficiente para o fazer, ou está animado de má-fé e vontade de ofensa. É o que faz Pulido Valente nesta sua crónia ofensiva, animado, sim, ele, de uma verve inquisitorial e redutora sobre Saramago: «São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja.» Razões de política?! De inveja?! Mas quem é que no seu perfeito juizo tem inveja de ser padre? «Patetices», diz Valente, escudado na sua arrogância moralista e castradora do Outro, daquele que pensa de modo diferente dele. E, claro, uma vez mais sobre a Bíbilia e os epidódios de violência gratuita, moral e física, que estão no texto das sagradas escrituras, nada, ou antes, a velha justificação: o simbolismo dos actos, o profundo mistério da palavra do senhor que, é sabido, escreve direito por linhas tortas – quanto a mim, escreve muito mal direito por linhas tortas e retortas (o senhor, é mais que certo, jamais ganharia o Nobel da Literatura, o da Paz, idem aspas, claro). Valente vai mais longe, surze da qualidade literária de Saramago, zurze, claro está, inchado de dores de cotovelo. E é extraordinário como o bom senso que diz faltar a Saramago lhe sobeja a ele, colmatado, está visto, por uma sobranceria sem nome, própria de quem se acha génio em terra de gente burra, de quem se crê iluminado em terra de cegos. Uma frase resumiria na perfeição esta crónica de valente: Ensaio sobre a cegueira. Meu caro Valente, «olho por olho, dente por dente» (saberá com certeza donde vem o dito), ou como escreve e bem Saramago, «… quem mas fizer, paga-mas, eu sou o senhor.» O pior, caro Valente, é que o tempo de ter medo das palavras já se foi há muito, tal como o tempo das vénias.

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~ por pedroteixeiraneves em Outubro 23, 2009.

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