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japJaime Freire
«A Japonesa Nua»
Edição de Autor

Japonesa nua? Não há. Quando muito uma tatuagem oriental. Convidativa, lasciva q.b., desenhada no sítio certo. Mas a que propósito então japonesas, sobretudo quando não as há? A propósito do livro recente que Jaime Freire acaba de publicar, justamente assim intitulado, A Japonesa Nua, em edição de autor. Quase romance, novela breve, enfim, o que se queira chamar-lhe, importa aqui a referência por se tratar de texto sui generis. Porno, assumidamente porno, assuma-se também aqui, e quem na qualidade de púdico ou sensível se tenha por aqui se fique na leitura da recensão em curso, pois certamente não estará perante o livro indicado para si. Temos, pois, ‘coisa’ relativamente nova e distinta no meio literário português. Na literatura portuguesa quase não há sexo, quanto mais pornografia – embora, contudo, e bem certo, seja pornográfico o modo como alguma literatura se publica e vende, mas isso são outras loiças. Porno, pois, e talvez por aí se compreenda a decisão de Jaime Freire em avançar com uma edição em nome próprio, isto apesar de eu desconhecer se o autor tentou a sua publicação numa chancela empresarial – o que talvez tenha feito, até porque muito em breve estará à venda o seu romance Geladas Brumas (entretanto já editado e disponível nas livrarias) mesmo que se de maior fôlego, sabemo-lo.

Adiante. O género (explícito) ajuda tão-somente, se preciso fosse, a perceber o título. O orientalismo inerente ao gentílico «Japonesa» encerra, desde sempre e ainda hoje, um quê de mistério e exotismo que o «nua» muito mais acentua. Desejando ir mais longe nas elucubrações, diria ainda que o carácter contido do relato – que não é romance nem deixa de o ser, que não é novela nem deixa de um ser – se aproximará, conceda-se o devaneio, no seguimento dos intróitos nipónicos supracitados, de uma narrativa-haiku. Donde, desde logo, decorre que a trama logo se impõe às primeiras páginas e parágrafos, sem grandes intróitos, sem delongas, sem escolhos à definição das personagens e à instituição da intriga. Com o protagonista, Filipe, um relativamente falhado guionista de cinema, enveredamos numa breve viagem de férias rumo a Moledo do Minho, típica estância veraneia a norte do pátrio burgo, a passar uns dias em casa de casal amigo, este bem-posto na vida, vivendo à grande e à portuguesa. Antes da chegada, porém, logo a «pedra ao caminho», o detonador da acção futura a saltar-lhe para a vida: uma mulher, o rosto e corpo da perdição, o pecado no clássico feminino. E um nome de arraso: Laura Janeiro (apelido ingénuo? Talvez não, olhando à sua raiz, Janus, nome no qual se fundem passado e futuro…).

No seguimento dos acasos não fortuitos (está visto), um pedido de informação à chegada e tão-logo a queda incontornável no abismo desconcertante do sem-sentido das emoções. Depois, um olhar cruzado na noite das esplanadas bastará para a consumação da tragédia. Tragédia pessoal, diga-se. Tragédia como recorrência ao homem face ao «buraco negro» feminino. Eterno retorno? Sem dúvida, a história repete-se, Fukuyama só se confundira na área de análise. Filipe é, desta feita, a vítima, a sombra que se segue, eventualmente a sombra de si mesmo na medida única em que o homem se faz a si próprio no seio da sua história. Pelo meio de todo este cenário, um carnaval de folguedos no meio de uma algaraviada de ais, uis e quejandas sulfurações, arfares e reverberações de prazer. Cavalgando Laura, Filipe perde-se, confunde-se e depois insurge-se contra o argumento habitual destas histórias, que, como se sabe nos casos afins, termina invariavelmente com um grande balde de água fria, gelada mesmo. Como acontece! O amor cega e Filipe cegou. E como ele, vem a sabê-lo em noite de afogar de mágoas com o seu anfitrião, também este já antes vítima da mesma mulher, anjo caído na mesma e exacta desmesura de amores de perdição.

De coração despedaçado, vale a Filipe um outro anjo, Lola, mas um anjo tipo Valium ou Aspirina, apenas para diluir os sintomas do mal. Vale-lhe, enfim, o regresso, o eterno regresso ao normal fluir dos dias, à vidinha de província, corriqueira, cinzenta, até que um outro Verão venha, um outro fortuito olhar num outro esbarre, aspergindo, como passe de magia, a dor das memórias passadas, cerzindo as cicatrizes do passado e pintando no calor dos dias um outro arrepio de amor e perdição. E assim por diante, na maré do ir e vir dos amores perdidos, das dores somadas, das esperanças esfumadas, no deve e no haver do existir.

Para que conste, Jaime Freire, jurista de formação, nascido em Lisboa e a viver na Figueira da Foz, tem até ao momento quatro livros publicados, todos eles de alguma forma subterrâneos ou pelo menos marginais ao mediatismo sempre obtido pelas grandes chancelas. São eles: O Homem da Superfície (Editorial Escritor); Conversa na Ilha da Jana (Black Sun Editores, 1998), Os Dragões de Komodo (Black Sun Editores, 2001), Any Time Is Tee Time e Outras Histórias (Angelus Novus, 2003). Segue-se, como atrás avançado, a publicação de Geladas Brumas, com o selo da Gradiva.

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~ por pedroteixeiraneves em Outubro 24, 2009.

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