«está só?» – um conto indágora acabadinho

– Está só?
Aproveitei a deixa e contei-lhe tudo, a minha vida toda, ansioso e desesperado que andava por desabafar com alguém, com o primeiro que me aparecesse pela frente e desse mostras de me querer ouvir. Sentei-me e deitei tudo para fora. Não me fiz rogado, fui ao princípio. E contei-lhe como chegara até ali, do porquê do meu desespero. Já que me perguntava… Nem hesitei. Contei-lhe tudo em jeito de confissão, quase me entregando nos bons favores do tempo que disponibilizava em ouvir-me. Confessei-me como todos aqueles palermas que concorreram comigo ao «Felicidade, Mito ou Realidade?» se confessaram, abrindo as suas vidas como um livro, aos tipos da produção. Que diabo, eu queria ser feliz, queríamos todos ser felizes, mais, queríamos mostrar aos outros que éramos felizes, esfregar-lhes nas caras a nossa felicidade, a minha felicidade. E solícitos como cães abandonados respondemos a tudo, vida íntima, privada, passado e presente, o futuro também, expectativas, ânsias, desejos. Eu também, a despejar sem qualquer pudor a minha vida, entregando todos os meus pequenos segredos, dispondo sobre a mesa as cartas todas, desvelando o baralho completo de uma existência cinzenta, embora feliz, assegurava-lhes. Como alcançara a felicidade? Porque queria ser mais feliz? O que me faria mais feliz? Achava-me capaz de alcançar a felicidade absoluta? O que pretendia fazer com ela uma vez alcançada? Alguma vez me sentira próximo da felicidade absoluta? O que era ser feliz? O que era a felicidade? Achava-me digno de ser feliz? Achava-me merecedor da felicidade? Porque achava que a minha felicidade era melhor que a dos outros? Achava-me capaz de compartilhar a minha felicidade? A felicidade era na minha perspectiva um conceito tangível? Ah, tantas perguntas, eu só queria ser feliz, só queria dar a conhecer a minha felicidade, a minha alma rejubilante, bolas, só queríamos ser felizes e gritá-lo ao mundo! E o que tínhamos feito por isso? Disse que era um estado de alma, uma espécie de profissão de fé, havia que acreditar. Dei uma de intelectual, respondi que a felicidade para mim não constituía um fim, antes era um estar a caminho. Concorria porque me sentia feliz e queria partilhar a minha felicidade que tinha por exemplar. A um álbum de fotografias de mim e da minha família, mulher e filhos, tinha posto o título «Happy Family» – contei. E depois desfiei a meada da minha vida. A infância feliz, a adolescência feliz, a entrada feliz na vida adulta, o casamento feliz, a entrada feliz no mundo do trabalho, a felicidade ímpar dos filhos. Bolas, se havia alguém feliz era eu, nós, os candidatos, e de entre eles eu, o mais feliz de todos, o verdadeiro, o autêntico senhor contente. Enfim, assim me queria eu ver e na verdade até então assim me via. Depois de me pedirem que sorrisse, para com a ajuda de um especialista em risos e sorrisos avaliarem a franqueza e sinceridade da minha felicidade, a produção achou que eu preenchia todos os requisitos para ser concorrente ao «Felicidade, Mito ou Realidade?» e isso mo transmitiu – como se me dessem a boa nova de terem descoberto a cura para o cancro -, ao mesmo tempo que me apresentava uma minuta de contrato, cedendo direitos disto e daquilo, dispondo-me a isto e mais aquilo, comprometendo-me eu, por via da minha assinatura ali comprovada pela presença dos seus advogados que serviam de testemunha, a, em caso de vitória, a colocar a minha felicidade ao dispor dos interesses «superiores» da estação durante um período de dez anos. Assinei. Feliz, a felicidade a somar à felicidade. O concurso começou passadas três semanas, precedido de uma gigantesca campanha promocional em todos os Media e outdoors. A princípio, as pessoas julgaram estar perante uma mega-campanha publicitária de uma qualquer marca dentífrica que prometesse o sorriso perfeito com meia-dúzia de escovagens. Qual quê! Tudo marketing a funcionar, para deixar o público na dúvida e com a pulga do interesse atrás da orelha. Os sorrisos eram apenas teasers e o verdadeiro produto a anunciar apenas seria revelado no dia anterior à estreia do concurso. «Felicidade, Mito ou Realidade?». O país parou, ou não fosse estar prestes a conhecer as pessoas mais felizes à face da Terra. Não seria essa uma excelente oportunidade para tentar aprender com elas o caminho para a felicidade? Talvez até pudessem copiá-las nos seus modos de vida, quem sabe não poderiam, também elas, aspirar à felicidade? Quem sabe, pôr de lado as suas existências pacatas e incógnitas, esquecer os seus quotidianos cinzentos e pantanosos, os empregos aborrecidos, monótonos e mal pagos, o dia-a-dia sempre igual, repetitivo e sem novidades, as vidinhas rotineiras arrastando-se num pântano de existências sem cor, quem sabe? Enfim, por umas horas que fosse simular a felicidade em frente aos ecrãs, tomar de empréstimo por uns momentos o sabor da felicidade alheia. Ah, e fomos reis, sim, por momentos fomos os reis, mais importantes até que o Presidente da República ou qualquer ministro. Honras de sumárias entrevistas em directo para o telejornal que antecedia a grande transmissão, enfim a grande e ansiada estreia. «Está em condições de garantir ao país que é uma pessoa feliz? – o repórter para mim. E eu, assessorado por um elemento da produção ali ao meu lado, embora não visível para a câmara: «Com certeza. Venho de Vinhais e estou em condições de garantir que sou uma pessoa feliz.» E logo as palmas do muito público que se tinha deslocado ao estúdio. E eu a agradecer, afastando-me em leve passo de corrida – para assim dar dinâmica ao concurso, segundo me transmitiu a produção – para junto da apresentadora que era ela própria a imagem da felicidade. E logo o repórter, «em directo também para o jornal das oito, Rodrigo», tomando de assalto outro concorrente: «Diga-me, a felicidade é possível?» Ao que o concorrente: «Olhem para mim! Venho de Arcozelo e comigo, à minha imagem, teremos um país mais feliz, pelo menos enquanto não me expulsarem da casa. Viva Arcozeloooooo!», e logo palmas, assobios por entre o público feérico. E fomos todos tão felizes durante as três horas de apresentação do programa. Depois fomos para a Casa da Felicidade, como chamaram ao pré-fabricado onde nos enfiaram, quase sem contacto para o exterior senão através de câmaras estrategicamente colocadas por todos os compartimentos, até mesmo na casa de banho. E logo as conversas, regadas por aquele ânimo próprio de quem pela primeira vez se dá a conhecer ao outro, sempre com imenso para contar, em que cada palavra é uma novidade, cada revelação uma prova de amizade a nascer. Éramos na verdade todos tão felizes. Eu tinha uma família a comprová-lo, uma mulher lindíssima, dois filhos que eram uns doces – mostrei uma fotografia a comprová-lo –, um emprego fixo, e, felicidade das felicidades, escrevia até, sabiam?, sim, ficção e até poemas, podia dar-me a esse luxo, imaginavam? e, não bastasse, era editado! Já os outros, os meus concorrentes, fundavam as premissas da sua felicidade em aspectos mais frugais. Uma delegada de propaganda médica dizia-se feliz porque com o seu trabalho, ainda que de forma indirecta, estava a ajudar as outras pessoas. Um carpinteiro de Monfortinho dizia conhecer a felicidade plena porque fora iluminado com a graça de Deus, de resto, bem espraiada na sua profissão, com que, humildemente, imitava o Senhor. Um jovem de Salzedas dizia ser feliz porque conseguira abrir a sua oficina de tunning e nada lhe dava mais prazer. «Nada, nada, nada?» – perguntava, matreira, a apresentadora do concurso dirigindo-se para junto da namorada dele sentada na primeira fila da assistência, para logo em seguida, como se dando ela mesma a resposta, apresentar a dita e acrescentar: «Ah, é melhor não sabermos.» Outro jovem, com pinta de instrutor de Pilatos ou Body Combat, vinha de Minas Generais, no Brasil, e dizia ser «imensamentshi félish» porque vivia com uma mente são em corpo são e isso constituía para ele uma espécie de pedra filosofal da existência. O público aplaudiu mesmo sem perceber exactamente o alcance daquelas palavras ou o que queria o brasuca dizer com aquilo – de qualquer forma, aplaudiu, até mesmo porque o povo português é muito caloroso e simpático, em suma, é irmão. O que, justamente, o brasileiro, sensibilizado com a salva de palmas, agradeceu baixando a cabeça como se fizesse uma vénia e pondo, acto contínuo, a mão direita com o punho fechado sobre o coração, após o que olhou o público de frente e com a mesma mão lhe enviou retributivos beijos. Vlad, um moldavo radicado em Portugal havia cinco anos, dizia-se feliz tão-somente porque tinha emprego há mais de um ano, coisa que na sua terra nunca encontrara. Que sim, que isso o deixava feliz, embora soubesse que para a sua felicidade completa ainda teria de encontrar a sua cara-metade, e isto dizendo olhou com assinalável desejo uma concorrente a seu lado, a quem, descaradamente, e em directo, convidou a ir provar os seus frangos assados, na churrasqueira Pita Brasil, que ficava na Bobadela, que teria muito gosto em oferecer-lhe um franguinho, se ela gostasse, com picante… O público gostou do seu atrevimento e coragem, assobiando e aplaudindo. Dina Marquesa, a dita concorrente, sorriu e, ainda mais atrevida, logo respondeu: «Comigo, só se for picante mesmo!» O público recrudesceu os aplausos. E, acalmando as hostes, a apresentadora, puxando por ela: «Ó Dina isso não é próprio de Marquesa», fazendo um trocadilho com o nome e o apelido da concorrente, ao que esta: «Ah mas as marquesas de hoje já não são o que eram.» Nova revoada de aplausos. Semana após semana, os concorrentes eram avaliados pelo público via números de telefone, a cada qual correspondendo um número para onde chamar. Semana após semana fui ganhando as graças e favores do auditório votante, fosse porque um dos meus contendores se mostrasse demasiado feliz apenas em função dos bens materiais que tinha por objectivo de vida alcançar, fosse porque a felicidade, para a maior parte dos concorrentes, dependia não tanto deles enquanto pessoas, mas mais de aspectos exteriores ligados aos prazeres e à vida mundana. De alguma forma, o público, cioso ainda de uma qualquer réstia de moralidade perdida, premiava, ao votar em mim, aquela felicidade que se tinha por mais pura. Bastava que, num dos vários directos, eu falasse da minha querida mulher com a maior das ternuras e carinho, bastava que eu deixasse escapar uma lágrima ao dizer os nomes dos meus filhos, bastava até que recitasse em directo um singelo poema escrito na véspera, para que no dia seguinte o barómetro de popularidade dos concorrentes revelasse um cada vez maior distanciamento de mim para a concorrência. Até certo ponto, devo mesmo dizer, com alguma vaidade, só um concorrente que dizia ser feliz apenas por continuar a acreditar que a pequena Maddie ainda estivesse viva e que um dia haveria de ser encontrada me deu alguma luta. Porém, a sua popularidade caiu a pique a partir do momento em que anunciou ter aberto uma conta em nome próprio para receber dádivas pecuniárias que seriam destinadas «a não deixar morrer a memória da menina», no fundo, a «não deixar morrer a esperança». O público, escaldado por outras cantigas que tais dos pais da menina inglesa, desconfiou dos seus bons propósitos e deixou de votar nele. Foi, pois, com grande naturalidade que cheguei à final e acabei mesmo por ganhar o concurso. Dizia a apresentadora, na gala final, que era «a vitória da felicidade em estado puro, a vitória do amor e dos afectos». Em directo, e com os shares de audiência ao rubro, o sorridente administrador-geral da estação televisiva entregou-me um cheque de 10 mil euros, para além de um carro, um fim-de-semana nas Caraíbas em hotel de cinco estrelas para duas pessoas, um plasma de alta definição e um telemóvel da última geração. Garantia o feliz administrador-geral, nas palavras de circunstância, que era bem certo que «o dinheiro e os bens materiais não eram tudo, mas ajudavam muito à felicidade». Eu agradeci, abracei a apresentadora, que não conseguia esconder uma lágrima de emoção, e mostrei o cheque para as câmaras, ao mesmo tempo que a minha mulher e os meus filhos eram convidados pela produção a correrem para mim, abraçando-me e beijando-me entusiasticamente, no que éramos todos devidamente enquadrados por uma chuva de papelinhos coloridos que desciam do tecto enquanto tocava a música do genérico e todos, eu e todos os concorrentes iniciais, ao seu compasso cantávamos o refrão: «A Felicidade é um rio/ que eu hei-de navegar/ é como um sonho/ em que eu hei-de acordar». Se já era famoso, mais famoso me tornei. Entrevistas, entrevistas e mais entrevistas, toda a Imprensa me queria nas capas e nos ecrãs. Para ter algum descanso, fui para as Caraíbas com a minha mulher. Mas achei-a estranha quando à sombra de uma palmeira numa praia deserta e a uma calorosa investida minha se escusou a um beijo dizendo-se com enxaqueca. O tanas, ninguém tem enxaquecas nas Caraíbas! De enxaquecas se alguém percebia era eu, enxaquecas à espera de inspiração para escrever, enxaquecas de ansiedade por ver o livro terminado, enxaquecas à espera de uma resposta dos editores. Que diabo, não era ela feliz ao lado do homem mais feliz do mundo? E não fosse, a minha felicidade não lhe bastava? Foi, pois, com alguma surpresa que dela ouvi, como se um côco me caísse do nada em cima da cabeça: «Não, não sou feliz e a tua felicidade não me basta. Quero a minha, a minha felicidade, percebes?» Não percebi. Quero dizer, não percebi logo que havia mouro na costa, o mouro que haveria mais tarde de espadeirar a minha felicidade, fazendo-me perder o contrato de exclusividade que entretanto, por via da produtora e como acordado contratualmente, conseguira com algumas marcas de produtos diversos, de aforros bancários até produtos capilares. Abreviei. Quando voltámos das Caraíbas ela deixou-me para ir viver com o brasileiro instrutor de body combat que conhecera nas gravações do concurso! Acreditam nisso, o concurso que eu ganhara? O concurso no qual eu, logo à terceira semana de emissões, deixara para trás esse mesmo brasileiro, o tal da mente sã em corpo são, por quem ela me trocara? É claro que isso me deitou abaixo e é claro que a minha felicidade esmoreceu, tornando-me com os dias um homem entristecido. As revistas deram por isso, e os sacanas dos fotógrafos não descansaram enquanto não me tiraram um boneco «na fossa». Uma capa comigo a limpar as lágrimas e foi o suficiente para que os meus patrocinadores e anunciantes se fossem queixar à produtora. Logo, logo recebi uma carta dos seus advogados dizendo que, em virtude da alteração superveniente das circunstâncias, o meu contrato estava revogado. Resumiam, terminando, queriam uma pessoa feliz e eu não era mais uma pessoa feliz, em suma, eu comprometera-me a ser feliz e estava longe de o ser. Ponto final na relação contratual. De um momento para o outro a minha vida colapsava. Comecei a beber, perdi o contacto com os meus filhos, interpus uma queixa em tribunal contra a minha ex-mulher, deixei de escrever e entreguei-me à vadiagem. Deixei de falar com as pessoas, não queria ver ninguém. Meses e meses assim, à deriva, voltando para o mais dentro de mim. Certo dia não aguentei, entrei num café para almoçar e, decidido a falar com o primeiro que me aparecesse pela frente, ainda mesmo antes de me sentar para almoçar, o empregado para mim, querendo escolher-me a mesa
– Está só?
Estava. Aproveitei a deixa e contei-lhe tudo.

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 4, 2009.

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