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mar«O Mar em Casablanca»
De Francisco José Viegas
Porto Editora, 234 páginas

«Simplesmente, limitava-se a observar que o tempo passara.» O tempo passara. E com ele Jaime Ramos, o detective lavrado pela imaginação de Francisco José Viegas, protagonista de livros e aventuras outras que não esta, «O Mar em Casablanca», que agora nós traz de volta aos dias e andanças do circunspecto inspector. Ainda no activo, a braços com novos mistérios, novos casos de homicídios, Jaime Ramos encontra-se, porém, no Outono da vida, pelo menos da vida profissional: «Daí a quatro anos entraria na recta final da sua carreira»; donde que evitasse chatear-se com coisas de somenos. Nomeadamente: corredores, inquéritos arriscados, casos de corrupção, enfim, toda uma série de chatices desprestigiantes da carreira e, diria, «do próprio crime». «A polícia apostava nos jovens» e Ramos sabia disso, pelo que, olhando para o passado nos reflexos do presente, se limitava «a observar que o tempo passara». Iniludível, infame.

Não espanta, por conseguinte e por tudo isto, que a toada deste livro, desta intriga «a dois mortos» que envolve Ramos, e que, virá a saber-se, «mete Angola e dinheiros», se tinja de uma melancolia típica de quem, vendo chegar o fim da linha, olhe para trás conferindo as contas do passado. Um olhar para trás sem raiva, retenha-se, pois Jaime Ramos não se revela homem de aziagas recordações e azedas memórias. A narrativa desta história decorre pois numa cadência apaziguada, pacificada. Os dados dos crimes em mãos jogam-se aos olhos do leitor à medida que se escoam pelas páginas as memórias de Ramos. Tepidez, o melhor termo para dizer deste desfiar será esse, a morna e branda tepidez com que Francisco José Viegas consegue impregnar-nos, numa gestão muito bem conseguida entre intriga criminal, por um lado, e o destilar do passado de Ramos, por outro. O Outono, sempre a toada outonal a desprender-se das páginas.

Propósito duplo nessa estratégia. Primeiro, ir cozinhando habilmente o mistério das mortes por resolver, entregando ao leitor indícios, pistas, factos avulsos de um puzzle desconexo por deslindar. Depois, aproveitar as deixas para ir reflectindo um passado cheio de geografias, nomes, tempos e ideias outras. O seu tempo de juventude, a aproximação ao Partido (primeiro em África, depois no Porto), a relação complexa com Emília, os difíceis tempos da guerra do Ultramar, a relação com Rosa, o Douro e as suas paisagens, as vindimas, o calor infernal do Pocinho, as montanhas e os vales da sua adolescência, tudo corre pelos silêncios de Jaime Ramos, tal como correm dados e geografias outras pelos mapas de vida das suas personagens. E, no entretanto, o conferir das informações veiculadas pelos prestáveis José Corsário e Isaltino de Jesus (este, diz-se a páginas tantas, aparentando «um cão obediente e fiel»), no entretanto, no mais íntimo dedutivo de Jaime Ramos, o desmontar dos mistérios, a lenta construção interior dos puzzles da morte.

Nostálgico quanto baste, Jaime Ramos não perdeu ainda, apesar de tudo, a sua fina a apurada capacidade de ler o mundo no presente, fazendo uso, para o efeito, das suas reconhecidas capacidades de ironia crítica. Seja quando uma personagem pergunta a Ramos se ele vai continuar a fumar («Eu? Sim. Incomoda-o?» – e o outro responde: «Não. É que assim também fumo. Há muito tempo que não fumava um cigarro com protecção da autoridade.»), seja quando se tecem considerações futebolísticas (sobretudo a respeito da compreensão a ter por quem seja Sportinguista…), ou ainda nas diversas observações sobre o mundo dos jornalistas e do jornalismo em geral («Antigamente, um jornalista era um jornalista, indicávamos-lhe a mesa dos jornalistas, ao canto, onde podiam fumar antes da sobremesa e beber mais um pouco. Hoje misturam-se muito.»), bem como a respeito dos tiques e hábitos burgueses e afins de hoje: «… depois, nos anos oitenta, veio o turismo de habitação, vieram os snobs do vinho, vieram os gabirus, os gestores de quintas, os técnicos de marketing…».

Ao longo de mais de duzentas páginas, Jaime Ramos desvela-nos o seu passado, as suas dúvidas, apreensões, diz-nos das suas razões, do seu ser, abre-nos a sua alma como detective algum se atreveria a fazer, a não ser que confrontado com a morte no momento exacto em que esta, visitando-o, o obrigasse a rever o filme da sua vida em segundos (no caso estas páginas). Esperemos que disso não se trate e que os poucos anos que lhe restam de carreira ainda lhe guardem muitos casos por deslindar. De outro modo, que o Inverno a vir lhe seja grande antes que um imenso mar branco venha abater-se sobre o filme da sua vida. E, já agora, se possível, um longo Inverno povoado de cadáveres quanto bastem, armas, ardis e o mais que preciso for pela frente. E sim, claro, que para o efeito cumpra Ramos os prescientes avisos do seu médico, que leve, enfim, uma vida saudável, nada de tabaco, álcool, stress, pão integral e saladas às refeições, está de ver. Religiões orientais? Enfim… não será necessário chegar a tanto.

A intriga, por fim: tenha o leitor dois crimes em cenários paradisíacos, de luxo. Um, no Hotel Palace do Vidago, em festa de despedida, à qual comparece, embora sem ser convidado, um ex-jornalista de Economia, Joaquim de Sousa Seabra, que no final da festa aparece morto no exterior do hotel, num lago cheio de líquenes. Outro, numa antiga quinta vinhateira das encostas do Douro, onde surge o cadáver de Benigno Mendonça, preto, angolano que se dispôs comprar a propriedade em causa, «alvejado durante o sono», morrendo em tranquilidade, um «corpo apenas», «um negro morto e abandonado na cama de uma casa de turismo rural». Dois crimes, dois mundos, duas vidas com portugueses dentro, estórias que a História forjou. O resto deixa-se ao leitor o trabalho de imaginar. Como diz Jaime Ramos a páginas tantas, «… só podemos imaginar, é o que nos resta.» Imaginar, por exemplo, o mar em Casablanca, imaginar o mar que não se vê em «Casablanca». Mas, afinal, «como é o mar em Casablanca?»

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 6, 2009.

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