quando por vezes realidade e ficção andam próximas – a propósito do brasileiro que foi ao seu funeral, publico aqui um excerto do último romance que escrevi em que o protagonista passa por algo do género…

«Entrei de óculos escuros e vagueei pelas campas à procura do meu corpo… Creio que na altura nem me dei conta de quão bizarra era aquela cena, um homem à procura de si mesmo no cemitério! E tinha eu ficado surpreendido com as leituras dos contos no Clube do Belo. Pois ali estava eu, uma espécie de morto-vivo caminhando por entre túmulos e ténues vozes de lamento e choro, em busca da minha última morada. Como seria ela? Teriam os meus amigos e conhecidos, quem sabe os meus leitores – poucos, mas enfim… –, realizado alguma colecta para me concederem uma campa minimamente digna? Perpassei os olhos por centenas de campas, mas nada, nem sinais de mim. Ter-me-iam cremado? Não tinha deixado nenhuma vontade escrita nesse sentido, pelo que alienei a hipótese. Porém, tinha sido ali que eu fora enterrado, lera-o nos jornais no dia seguinte à minha morte. Portanto, eu teria de estar por ali algures. Mas onde? Incapaz de me descobrir decidi perguntar à entrada do cemitério, a um homem que me parecia responsável fosse lá pelo que fosse ali dentro. Perguntei-lhe pelo meu nome, pela minha campa, ao que ele, fúnebre – parecendo que esse seu ar e a sua postura faziam parte de um ‘livro de estilo’ da profissão –, entrou dentro de um pequeno casinhoto, voltando com um grosso e negro livro de registos na mão. Folheando-o à minha frente, lambendo o dedo indicador direito entre uma e outra página, ainda perguntou
Quando foi mesmo que o senhor morreu?
dizendo-o sem saber que ao fazer a pergunta era ao morto que se dirigia… Disse-lhe a data e ele avançou nas páginas.
Ora, ora, deixe cá ver… sim, sim, cá está, cá está ele. Tem razão, o senhor morreu, está efectivamente morto. Talhão 87, Campa 735. O amigo vai por este corredor até ao fundo, ali onde está aquela capelinha, está a ver? Aí, vire à direita, faça esse carreiro e ao fundo, também do lado direito, estão as campas rasas. Não tem que enganar, se não o descobrir logo, pergunte ao coveiro, acho que ele anda lá agora a desenterrar umas ossadas que a bicharada já digeriu.
Agradeci e retirei-me engolindo em seco.
Bicharada? Digerido pela bicharada?!… Campas rasas?! Não mais do que uma campa rasa, assinalada com o meu nome numa tosca e singela tabuleta?… Preferi não ver, preferi não ir. Aquilo já era uma machadada suficiente. Mas fui, a curiosidade mata, por mais que o saibamos não sabemos resistir-lhe e eu, que já estava morto, foi como se tivesse morrido uma segunda vez. Ao olhar para o solo sob o qual se encontrava o corpo do ministro, verti duas lágrimas e fui-me embora, triste e derrotado, mas disposto a ir em frente com a minha nova vida. “Só a morte desperta os nossos sentimentos”, escreveu Albert Camus, a mim, aquela visita provou-me isso mesmo, para o mal, enchendo-me o coração de um vazio imenso, e para o bem, levando-me à decisão de viver os meus futuros dias com todo o meu empenho e emoções. Afinal, eu era um ministro e se o era pelo menos iria viver como um ministro. Ao sair do cemitério, reparei numa loja de flores do outro lado da rua. Pensei em ir comprar-me um ramo, mas achei que isso seria demasiado triste.»

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 6, 2009.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: