o problema de às vezes ser português

Portanto, somos democratas se aceitamos que um governo caucionado pelo voto do povo legisle conforme o estatuído no seu programa de governo. Porém, já não somos tão democratas se aquilo que esteja em causa em matéria de adopção legislativa vá contra as nossas opiniões. É isto em resumo o que se passa com a minoria conservadora que anda em pulgas com a hipótese de o PS vir a aprovar, conforme dissera que faria, uma lei no sentido de possibilitar aos casais do mesmo sexo o casamento. No início da semana todos tivemos a oportunidade de assistir na televisão ao debate que opôs os dois lados da barricada, pró e contra, e assistimos então aos argumentos pouco convincentes dos segundos, mais escudados numa pretensa e camuflada defesa do instituto do Referendo do que propriamente empenhados, à luz da razão e de um posicionamento progressista, em defender a sua posição com pés e cabeça. Na verdade, e isso o revelavam os seus sorrisos amarelos, sarcásticos e quase de nojo face a uma tal hipótese, aquilo que as suas posturas demonstravam, demonstram, não é senão uma grande falta de respeito pela diferença, pela liberdade e, sobretudo, pelo direito à igualdade de direitos entre todos os cidadãos tal como propugna a Constituição. Adejar com o fantasma decorrente da adopção (ui, mal dos males!) tão-somente mais diz do seu conservadorismo. E, em matéria de adopção, no mais pergunto: o que é melhor para o tão citado «interesse superior das crianças», serem adoptadas por duas pessoas do mesmo sexo que lhe podem dar um futuro, que lhe podem dar amor, que lhe podem permitir sonhar, ou deixá-las entregues à solidão de lares de acolhimento, sem rumo ou futuro qualquer acautelado? Como dizia alguém no supracitado debate, parece-me que o que faz confusão a esta gente é que uma criança possa ser exposta ao sexo entre casais homossexuais – mas, por favor, algum juízo, nos ambientes heterossexuais algúem se põe a fazer sexo em frente às crianças?! Ah – dirão ainda – e qual a confusão que isso não iria trazer à cabeça de uma criança quando na escola afirmasse ter dois pais? Qual deles iria às reuniões? Alminhas santas, que importa isso? Não importará muito mais que essa eventual criança adoptada, com dois pais ou duas mães, tenha alguém que se preocupe com ela e com os seus estudos? Ao pensar nisto tudo, chego apenas a uma conslusão, cada um tem os fantasmas que quer e merece. Agora, tenham dó, em 1876 o Marquês de Sá da Bandeira teve o discernimento de fazer com que acabasse a escravatura no nosso país, sinal inequívoco de que Portugal se encontrava na linha da frente mundial no respeito pela liberdade e pelos direitos do Homem. Caramba, estávamos no século XIX, os mapas de África ainda surgiam meramente com nome de cidades e povoações ao longo da costa, no seu interior apenas se pintavam terríveis animais ferozes, que era tudo quanto se sabia ou imaginava existir nas suas vastidões! Não deixo de pasmar com o que se passa hoje em pleno século XXI! Pois se as pessoas querem casar-se porque havemos a umas de possibilitar o desejo e negá-lo a outras? Mas isto é assim tão difícil de perceber?

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 20, 2009.

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