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«Os Dias de Saturno»
De Paulo Moreiras
Quid Novi, 199 pp.

Paulo Moreiras, autor revelado em 2002 com o romance «A Demanda de D. Fuas Bragatela» (Temas e Debates), publica agora com a chancela da Quid Novi o seu segundo romance, «Os Dias de Saturno». Se aquando da publicação do primeiro livro este lhe mereceu o aplauso e reconhecimento da crítica, tanto mais que dava cartas num género algo inexplorado na literatura portuguesa, o romance histórico de tom pícaro, neste reincidir ficcional volta a mostrar (em parte) porque o mereceu. O registo volta a ser o mesmo, o do romance histórico, enredando-se o autor, desta feita, pelos meandros de uma narrativa cheia de mistério e aventura que decorre em finais do século XVII e princípios do século XVIII. O espaço da acção? Primeiro, Tomar, depois a Lisboa fervilhante e soalheira desses tempos idos.

Estamos, sem dúvida, perante um romance que se lê com agrado e voragem. Corrijo: que se começa a ler com agrado e voragem. O início é muito bem conseguido, criando e embrenhando no imediato o leitor numa ambiência de relativo suspense e mistério. Encontramo-nos nos arredores de Tomar, «entre moitas e matagais», no coração de uma floresta lúgubre. Há um casinhoto perdido, sons de corvos grasnam «à procura de pequenos ratos ou sardaniscas», ouvem-se passos de um misterioso cavaleiro que se aproxima do dito casebre com «mil cautelas». Revelada a figura, damos com um noviço que se esquivara aos predicados votivos da sua fé entregando-se ao negócio dos furtivos prazeres carnais. Tomado de fúrias e receios, alterca-se confrontado com o resultado desse deslize, brutalizando, pela recusa, a jovem a quem pusera no ventre a semente de um filho quase a vir ao mundo. Trocam palavras aziagas, ele foge para junto de Deus, deixando Leonor a braços com o futuro sem nome. Lá fora, o dia torna-se noite, a luz vê-se subitamente enegrecida pelo enfiamento da Lua entre o Sol e a Terra. Um eclipse tem lugar, como que a marcar a desdita do rebento que vai nascer daí a nada.

Nesse mesmo dia, àqueles locais ocorrem, atraídos pelo fenómeno, dois homens que se reúnem no Convento de Cristo, dois grandes amigos e alquimistas: Domingos Rodrigues, cozinheiro do Rei D. Pedro II e autor do primeiro livro de cozinha publicado em Portugal, e o médico da Casa Real, João Curvo Semedo. Quis o acaso que assim fosse e provavelmente não por acaso já que Domingos Rodrigues, em passeio no dia seguinte ao eclipse, veria o seu destino cruzar-se com o de um recém-nascido enjeitado e que ele salva das águas de um rio. Acolhe a criança e decide dar-lhe guarida e suprimento paterno. Começa aí a vida de Saturnino, um jovem mudo, com um estranho sinal na pele nas cercanias do coração, e que assim, por manhas do destino e da crendice, irá viver para Lisboa, palco futuro das peripécias a vir e que servem de combustível ao enredo do romance.

Fazendo magnífico uso de um vocabulário que se pretende de época, muito bem empregue e dominado, Paulo Moreiras revela-se mestre no domínio da palavra e quase às tantas somos obrigados a recorrer a um dicionário para nos travarmos de razões com o verdadeiro alcance e sentido de certas palavras. Denota-se, porém, uma certa recorrência na utilização de alguns termos, mas nada de mal vem daí ao mundo. A história decorre a bom ritmo, ainda que sem grande alvoroço, pelo menos até ao momento em que Saturnino conhece uma vendedeira de tremoços. Até lá, o autor brinda-nos com muito boas recriações do “ar dos tempos” então vivido numa Lisboa oitocentista, dando-nos a percepcionar usos, costumes, gentes, cheiros e cores. Correndo Lisboa, os seus bairros e ruas, inventariando algumas personagens típicas, desde as peixeiras negras aos poetas repentistas (no caso Tomás Pinto), passando ainda pelos pregoeiros ou pelos muitos estrangeiros que na altura nos visitavam, Paulo Moreiras entretém o leitor na pintura de época sem que, até então, algo de mais, em termos de enredo, faça avançar o romance.

Por fim, os passos em frente. Saturnino apaixona-se, vê-se envolvido em disputas de capa e espada, entrega-se aos tumultos do coração enquanto o seu pai e o seu amigo Curvo Semedo ensaiam, uma vez mais, a alquimia das matérias tentando encontrar o segredo da vida eterna, ao fim ao cabo, a simbiose perfeita entre o ser humano e o Cosmos. A coisa, nos dois planos, dá para o torto. Saturnino quase morre por via das refregas a que os ventos do coração o levam, tal como o seu pai e o amigo deste, vitimados (o segundo morre mesmo no imediato) por uma experiência alquímica mal sucedida. Quanto a Saturnino, espadeirado do ombro até à barriga, o nosso herói acaba em casa da sua amada, cosendo-lhe esta a frio (e a aguardente) o enorme rasgão sulcado no corpo – é quanto a este aspecto, de resto, que denotei uma “falha” algo caricata no romance, tão-só porque depois de relatado o “acto cirúrgico” nunca mais nele se fala e em poucos dias Saturnino parece miraculosamente recuperar, envolvendo-se mesmo em quezílias e empresas ulteriores de grande exigência física, apenas levemente se queixando quando ajuda o pai moribundo.

No mais, devo dizer que pode ou não gostar-se da forma como Paulo Moreiras catapulta o romance para o seu final, quanto a mim de forma pouco conseguida, já que a páginas tantas resulta logo óbvio para o leitor que Lídia não é quem ele pensa ser, e sendo que o desenlace da história – dois amantes que vem a saber-se são irmãos separados à nascença (ou quase) – soa a dejá vu em matéria de amores impossíveis (intriga, de resto, já por demais “usada e vezada” em seriados televisivos – como dizem nossos irmãos brasileiros – de horário nobre). Do mesmo modo, não posso deixar de dizer que igualmente algo abrupto e mal resolvido (com o eclodir de um incêndio caseiro algo forçado) me pareceu o epílogo das vidas de Lídia e sua mãe. Resumindo, o que me pareceu foi estarmos perante um romance com duas partes distintas. Por um lado, um romance muito bem trabalhado ao nível da forma e da linguagem, por outro, uma história que em termos de enredo ou argumento deixa bastante a desejar.

Sendo bem certo que não acredito na história da problemática inerente ao chamado «segundo romance», a verdade é que neste caso acabo por ficar com saudades da engenharia narrativa patenteada pelo autor em «A Demanda de D. Fuas Bragatela». Não queria terminar, porém, sem deixar de frisar uma vez mais: Paulo Moreiras escreve declaradamente bem, muito bem, isso é indesmentível, mas aqui deixou-me com água na boca quanto a um final verdadeiramente arrebatador e inédito. Mais não fosse, porque chegados à última página, a pensar ficamos no que teria ou terá sido o resto da vida de Saturnino, vida que sentimos inacabada e com muito mais por contar ou ficcionar. Ou seja, ficamos com a sensação de que Paulo Moreiras poderia ainda ter ido mais longe e que talvez tenha investido numa enganosa urgência de terminar o seu livro. Quem sabe não seria de pensar um segundo capítulo para esta história?

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~ por pedroteixeiraneves em Dezembro 10, 2009.

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