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Jaime Freire
«Geladas Brumas»
Gradiva, 353 pp.

Um tipo «desviante». Ou, nas palavras de um colega causídico, a páginas tantas e finais, um «advogado estranho». Forbes Valdeflores, de sua graça, apresente-se o dito ao leitor: advogado, está de ver, à antiga, como se verá lendo, tributário de uma ideia romântica do belo e da verdade que ao longo deste romance perseguirá, tentando transmudar para o leitor esses nobres ideais – hoje em parte perdidos, como se subentenderá, sobretudo no luso adro que vivemos e respiramos. Lá iremos, agora assente-se: chama-se «Geladas Brumas» (Gradiva) e é o primeiro assomo romanesco de fôlego de Jaime Freire, autor a cuja obra já aqui nos referimos há um par de meses, por ocasião do lançamento editorial de uma sua breve novela, dita «A Japonesa Nua» (edição de autor).

Primeiro ponto, o desviacionismo com que escolhi iniciar o texto, ainda assim adjectivo («desviante») recortado pela própria pena do narrador, que enquanto tal se considera. Diria então este ser um romance desviante, bem à imagem do seu sui generis protagonista. Elucido: tivesse este romance sido escrito pela mão (já em queda) de um José Saramago e teríamos brado, celeuma e polémica de igual grandeza, ou superior mesmo, àquela instaurada pela edição das desventuras e dúvidas existencialistas de um Abel subitamente vertido a desmancha-prazeres da cristandade. Pois bem, Jaime Freire está longe de ter o eco público e mediático das tiradas romanescas do nosso Nobel e só isso explica que o que se lê neste romance, no dito e no entredito, não dê que pensar, bem como ruminar a muitos dos que são visados na sua visão desapiedada do mundo em volta.

Visão crítica? Mas então não estamos no plano do romance, da ficção? – perguntar-se-á. Sem dúvida que sim, e a servir de mote ao glosar crítico supracitado subjaz um enredo ficcional, encontram-se personagens saídas da lavra imaginativa do autor. Sim, há um caso, igualmente de urdidura autoral, tal como haverá dois crimes a reportar e o seu respectivo deslinde. Mas pelo meio lê-se e há (o) muito mais; o lado crítico, digamos, que no todo impregna em dose maior este arremedo literário. Assim é que quase me inclino a dividir este livro em dois, um de toada ficcional, outro de cariz pedagógico-instrutivo; não fosse a habilidade narrativa do autor em misturar os dois e talvez o livro se perdesse por falta de coesão, qual azeite em água. O que não sucede. Mas crítica de quê ou a quê? Indo ao osso, a um Portugal contemporâneo enredado numa crise de instituições jurídicas, financeiras, políticas, morais em última análise. Ora, estão a ver porque é o nosso romance «desviante», «estranho»… Justamente, por não calar, ou antes por ter a coragem de apontar o dedo.

Não se trata, pois, de romance morno, aquietado, amestrado, bem ao contrário do que é costume encontrar-se na ficção portuguesa contemporânea, sobremaneira mais afim de narrativas pseudo-esotéricas, versando histórias biográficas de rainhas mártires ou pós-modernas avant la lettre ou ainda nostalgias colonialistas. Romance jurídico? Thriller jurídico? O que queiram chamar-lhe. O que Jaime Freire faz, e com propriedade, é tão-só seguir uma das regras básicas de escrita: falar sobre aquilo que se conhece bem, a fundo. Ora, se assunto há que o nosso autor conhece de forma amiudada (ou esmiuçada, como é de moda dizer-se) ele é o do universo jurídico português. Aqui, traça-lhe um fresco impiedoso, retratando-o nos seus podres, nas suas falhas, nos seus excessos, nas suas contradições, quase «julgando» os seus actores principais, dos advogados aos procuradores, dos polícias às polícias, dos juízes aos jornalistas da área.

Assim corre este «Geladas Brumas», gelando, pelos seus considerandos e considerações, o mundo brumoso e kafkiano da Justiça num Portugal que reconhecemos de hoje, contemporâneo e perigoso, batido (à imagem da Europa e quejanda geografia capitalista) por ventos de História que cheiram a totalitarismo, a fascismo, a repressão, trazendo com eles a ameaça do regresso de Estados policiais e ditatoriais. Por um lado, temos uma vertente ficcional que se desvela pelo lado romântico, numa busca semi-quixotesca por ideais quase por completo varridos dos dias que correm, revelando um narrador-protagonista imbuído de emoções estéticas em desuso, versado e intelectual, “flanando” (errando), por exemplo, por uma Paris idílica e maravilhosa (mas até que ponto idealizada?), cheia de segredos e mistérios, repositório de paradigmas (da arquitectura às belas mulheres), enquanto que, por outro lado, encontramos longas passagens e momentos de vocação claramente pedagógica, descritiva ou histórica, maioritariamente de toada jurídica.

Em ambos os casos, Jaime Freire demonstra à-vontade, seja no dosear de mistério com que vai entretendo o leitor no deslindar dos assassinatos de Luísa Sommer e do jovem Dinis, os dois barbaramente mortos em circunstâncias estranhamente semelhantes, seja no rubricar de uma quase-sebenta jurídica (aqui e ali de carácter cronista) que, nesse plano, quase nada deixa de fora: das polícias que têm «instintos de matilha» e «gosto pela prisão sem culpa formada» ao poder político que se julga «acima dos demais» e «ignora os limites constitucionais», dos senhores procuradores que «não estão seriamente interessados em arregaçar as mangas e ir para o terreno intervir» aos «agentes do Ministério Público [a quem] só lhes agrada averiguar crimes para as manchetes dos jornais», passando pelos «nossos» tribunais em que, «hoje em dia», «há subornos, compra de depoimentos aos pontapés», os jovens juízes que saem do CEJ todos «cheios de vaidade», ou, entre mais acepipes, a classe da advocacia sobre a qual transcrevo excerto elucidativo: «Há lobbies da advocacia que celebram contratos com o Estado cobrando somas avultadas pelos serviços que prestam, o ajuste directo e a ausência de concurso público são coisas correntes, alguns dos que fazem parte destes lobbies acabam em chairmen de grandes empresas com capitais públicos, ocupando confortavelmente e sem chatices de maior esses altos cargos. Depois, em troca, atacam o poder judicial dizendo que este anda à solta…»

Engoliram? Em seco? Lá está, bem vos disse: «desviante»! Tanto que o próprio Forbes Valdeflores, depois da tirada, diga, consciencioso e precavido: «… ao denunciar a pilhagem corro o risco de criar inimizades no foro…» E logo depois, salvaguarde, e bem (à cautela, porque isto da advocacia tem também o seu quê de sorte…), que nesse antro também há gente honesta e de bem, «à antiga», assim como ele, ou como o velho Tovar de Lemos, advogado diligente, pugnando pela verdade e pela justiça em estado puro. Um tipo do tempo-que-já-lá-vai, produto de tempos outros que não estes, neo-liberalistas, decadentes. Há livros cujas histórias meramente entretêm, outros em que a História se entretece e diz dizendo o seu tempo, este é um deles.

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~ por pedroteixeiraneves em Janeiro 27, 2010.

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