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O Evangelho do Enforcado
De David Soares
Saída de Emergência, 365 pp

«Lê-de de um fôlego», é costume dizer-se dos romances ou livros que nos arrebatam a atenção da primeira à última página. Pois bem, o que talvez fosse mais correcto dizer do mais recente romance de David Soares *, «O Evangelho do Enforcado», é que se lê tirando-nos o fôlego. E o que apetece dizer aos leitores (avisados ou desejando sê-lo) é que estamos perante um romance excepcional. Palavras arriscadas? De modo algum, na certeza de que uma tal consideração apenas poderia aventar-se tendo por base apreciativa (ou depreciativa) um qualquer preconceito em relação à chamada literatura fantástica.

Entendamo-nos, é de recorte e lavra genial esta empreitada literária de David Soares. Por inúmeras razões, todas elas concorrendo para a assunção plena do trabalho de escritor. Na verdade, David Soares devém aqui um tríplice artista, habilmente cruzando três matérias-primas, três vertentes que obra e mescla como poucos: por um lado, trabalhando muito bem o registo histórico e de época do livro, por outro, revelando-se mestre na veiculação de um ambiente de suspense e fantástico, por fim ainda, ganhando-nos por via do exemplar trabalho de linguagem que opera, fluente e erudito a um só tempo, inatacável na estruturação e gestãos dos tempos e picos da história, tal como, para finalizar, excelente no esculpir psicológico das personagens.

Assim, tenhamos para início a história e o contexto histórico que nos são apresentados. Dois veios concorrem em paralelo para o seu correr e futuro confluir. Primeiro, a vida e obra (ou parte dela) de Nuno Gonçalves , aquele a quem é commumente atribuída a realização dos famosos “Painéis de São Vicente” (padroeiro de Lisboa, em cujo Mosteiro os painéis foram descobertos em 1882, donde o nome que lhes foi atribuído, mal-grado, como elucida David Soares, “nada na iconografia vicentina” remeta, “directa ou indirectamente, para a figura atribuída ao génio artístico de Nuno Gonçalves”). Depois, todo o contexto político, económico e social que nos é dado percpecionar como se confrontássemos um enorme fresco de época, fundamental, na sua busca pela verdade e rigor, para, não só tornar verídico e fidedigno todo o pano de fundo onde as personagens evoluem, como também para consubstanciar algumas teorias que na nota final David Soares assina – nomeadamente no que respeita à temática das pestes e ao que estaria na sua (verdadeira) origem, bem como ao que daí adviria; em particular, as visões e bizarrias que acudiam aos espíritos aturdidos e psicóticos de então.

No plano da construção de personagens o desempenho do autor é exemplar. Estatui as particularidades e particularismos das diferentes classes sociais, ao mesmo tempo que nos define com enorme profundidade os seus protagonistas. Em particular, claro, um Nuno Gonçalves vertido a psicopata necrófilo ao longo da sua vida assolado por visões e visitas de um geronte que dele se diz pai e matéria primeira. Brutais e desarmantes são os relatos dos encontros entre ambos os seres, desde a juventude do pequeno Nuno (nascido com espinhos nas costas) até ao seu confronto já na velhice, depois de um incêndio, em que Nuno se vê tenebrosamente absorvido pela execrável e pestilenta criatura, vindo depois a ser salvo ou “absolvido” por um colectivo de Decanos juízes. No mesmo plano de definição de personagens, muito interessantes vêm a revelar-se as essências psicológicas dos infantes, em particular de D. Pedro, o regedor do Reino, e de D. Henrique, figura de carácter excêntrico, aqui glosado enquanto homossexual (consubstanciando, de resto, uma teoria que não é nova), figura de ocultos desígnios, interesseira e fria, longe, portanto, do seu retrato “idealizado” de grande patrono das navegações portuguesas e de uma presumida e não mais que teorizada ou sonhada Escola de Sagres, isto é, bem mais ao jeito e servindo os interesses de uma História oficial, mais interessada em cotejar os brios das suas personagens do que em elencar os seus defeitos.

É neste âmbito que se vai plasmando de forma súbtil uma Lisboa quinhentista simultaneamente pobre, suja e obscurecida, emoldurada também num plano de festa e cosmopolitismo que era, sem dúvida, o retrato da Cidade das Sete Colinas de então (David Soares chega a fazer, nesse plano, um paralelismo curioso entre a Lisboa de então e a Nova Iorque de hoje!) – não por acaso também, David Soares empresta à sua ficção diversas personagens estrangeiras, nomeadamente o pintor flamengo Van Eyck (os diálogos entre ele e Nuno são de antologia), ou os italianos Fillipo e Bembo (a quem é atribuída a feitura do Tarot na sua versão mais popular, o baralho de Francesco Sforza e Bianca Maria Visconti – pormenor e personagem nada dispiciendos olhando à estrutração do romance (por naipes de cartas à maneira dos Mamelucos) e àquele que no romance se diz ter sido o mais importante trabalho de Nuno Gonçalves, a composição de um novo baralho de Tarot, com novas figuras acrescidas de «vinte e três triunfos (trunfos) para tornar o jogo mais interessante». Lido o livro, não deixo de estranhar e pensar num facto curioso: de todas estas personagens que fizeram a História, é o pintor que clama mais apego por parte do leitor, mesmo que na pele de um assassino de cariz insane. Como se diz e bem, a páginas muitas e de forma repetida, mesmo que por outras palavras, só a arte permanece. O resto, o resto é a costumeira intriga política que ainda hoje é apanágio dos nossos políticos e poderes públicos. Vistas bem as coisas, Lisboa não terá mudado assim tanto…

Sendo que o plano histórico e social é muito palpável, muito realista, não é por isso que a narrativa de David Soares deixa de se instituir e radicar, no seu todo e primacialmente, no domínio do fantástico. E isso logo a início se desleva aquando da descrição das deambulações de infância e juventude de Nuno Gonçalves, quando ainda vivia em Embraçadura. As visitações e os diálogos com o Geronte são o pano privilegiado para esse destilar fantasioso, o que, agregado a um realismo cru e brutal de certas cenas (seja quando Nuno e o pai aprendem com um peleteiro as técnicas de morte e esfolamento de um coelho, seja, por exemplo, na cena de violação múltipla de uma rapariga deficiente, ou nas mais adiante descritas cenas de assassinato perpetradas por Nuno – sobretudo por ocasião das mortes dos prostitutos Veríssimo, Máxima e Júlia («mártires» e «santos de outrora»), concede à escrita um grande poder imagético. A contribuir para esta ordem de fantástico, nada também como sublimar e jogar com os muitos simbolismos de época, o que David Soares também opera com grande conhecimento e propriedade.

Conhecimento e propriedade… Eis outro aspecto do livro que nos deixa perplexos. Vejamos, este livro avança com teorias algo polémicas, a começar pela índole psicótica de Nuno Gonçalves, passando pela assumida homossexualidade de D. Henrique (com cenas de erotismo desabridas), acabando, por exemplo, na veiculação de que as personagens centrais dos famosos painéis não serão senão uma alusão metafórica a dois outros santos lisboetas, os gémeos São Crispim e Crispiniano, daqui derivando, lá está, «com propriedade», um muito interessante paralelismo com a desafortunada vida e desventura do infante D. Fernando, esquecido pela Corte e pela família numa Fez distante onde foi brutalmente morto pela mourama, isto após uma fracassada tentativa de conquista de Tânger. Teorias, sim, dizia, pois que a verdade da génese dos painéis está longe de vir à tona, mas teorias que o autor avança de forma credível, conjugando e dando a perceber os interesses de época, cruzando as vontades e desejos das suas personagens.

Quase a terminar, seria incauto de minha parte não ler também neste romance toda uma espécie de teoria sobre a arte ou sobre a essência do artista, bem como sobre o criar em si mesmo, enquanto acto, enquanto dádiva, enquanto desígnio maior (não por acaso Nuno Gonçalves, tido ele mesmo enquanto «obra de arte», votado desde a nascença a um destino único e singular, é salvo do Geronte pelos Decanos juízes). David Soares parece corroborar a ideia de que apenas a Pintura prevalecerá no tempo, dizendo mesmo, na nota final, que os livros, enfim, o papel como o hoje conhecemos, tem uma vida média de 80 anos, sendo que depois desaparecerá, a não ser, claro, que se reimprima segundo vontade dos vindouros, de quem, ao que parece, o escritor não espera muito, pois diz que os nossos bisnetos já não saberão quem fomos ou o que fizemos. Terá em parte razão, mas é custoso pensar que tenha. Talvez também meia-dúzia de livros de hoje possam chegar-lhes às mãos e interessá-los. Talvez. É bom pensar que sim. E talvez não seja tão fantasioso quanto isso, mesmo que as palavras lhes cheguem por via electrónica.

*

David Soares é autor dos romances O Evangelho do Enforcado, que conta a história dos famosos painéis de São Vicente de Fora, Lisboa Triunfante, uma história mágica sobre a capital portuguesa, e A Conspiração dos Antepassados, sobre o encontro do poeta Fernando Pessoa com o mago inglês Aleister Crowley (Saída de Emergência: 2010, 2008 e 2007).
Publicou três livros de contos, cinco álbuns de banda desenhada e um livro de ensaio literário sobre banda desenhada. Na sua carreira como autor de banda desenhada (publicado em França e em Espanha), foi premiado com dois troféus para Melhor Argumentista Nacional e uma bolsa de criação literária, atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pelo Ministério da Cultura.
Colabora, regularmente, em diversas antologias literárias, relacionadas com o género Fantástico e é considerado pela crítica especializada nesse género como sendo o melhor autor português de literatura fantástica. Em 2009, viu um excerto do seu romance Lisboa Triunfante ser publicado na revista literária polaca Lampa, uma edição do Instituto Camões na Polónia, junto de excertos de outros autores portugueses como José Saramago, Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge.
Também trabalha como tradutor, tendo assegurado a tradução de obras de autores como Alan Moore, Jack Dann e Philip K. Dick. Escreve quase todos os dias no weblog: cadernosdedaath.blogspot.com.

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~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 4, 2010.

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