o texto que levei às correntes (aí dedicado à Madeira)

«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema»

algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas:
O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.
O poeta, como as pedras, faz-se de matéria-silêncio.
Se o poeta quiser uma pedra pode ser um poema.
O poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito.
O poeta é um lapidário de sentimentos.
O poeta, como as pedras, precisa de solidão para medrar.
O poeta poetiza pedra a pedra, mas convém que não transforme os poemas em muros de lamentações.
Pedra a pedra o poema se constrói, mas convém que não se confunda com o imobilismo das pedras.
Há quem olhe para a pedra dos poemas como se olhasse para calçadas. Por isso há quem pise a poesia, desconhecendo pisar a vida, esse solo frágil.
Enquanto pedras, as palavras têm falhas. Por isso os poetas falham.
Enquanto pedras, as palavras têm arestas. Por isso é difícil a poesia.
Enquanto pedras, as palavras por vezes doem. Por isso têm os poetas corações magoados.
Enquanto pedras, as palavras são às vezes atiradas da boca para fora.
Enquanto pedras atiradas da boca para fora por vezes as palavras ferem.
Enquanto pedras, as palavras estão e não estão, são e não são.
Enquanto pedras as palavras não precisam de mais nada.
Os poetas nem sempre são puros como as pedras. Do mesmo modo as palavras.
A pedra pode corromper, as palavras também.
Os poemas como as pedras deviam servir apenas para construir.
Em Gaza há décadas que as pedras servem como arma, a poesia também pode ser uma arma.
Uma pedra pode atingir-nos mortalmente, um poema também.
Às vezes o poeta magoa-se com as palavras, tal como uma criança por vezes se aleija brincando com pedras; os poetas têm muito de crianças.
Às vezes não sabemos o que fazer com uma pedra, do mesmo modo que com um poema.
Atirar uma pedra fora é como rasgar um poema.
Olhando para uma pedra julgamos por vezes olhar para nada. Há quem olhe para os poemas como se olhasse para pedras.
Os poemas, como as pedras, encontram-se ao alcance de todos. A poesia, como as pedras, anda na rua.
Um poema é como uma pedra, pode sempre estilhaçar-se.
Alguns poetas têm corações de pedra. Se calhar por isso mesmo são poetas, porque se sentem na obrigação de ao longo das suas vidas irem polindo o coração.
Há pedras tão belas que parecem inventadas. Há poemas tão belos que parecem pré-existir ao poeta.
As pedras a ninguém pertencem. Os poemas deveriam também ser de toda a gente.
No meio do caminho de cada poeta existe sempre uma pedra, como existe sempre a palavra.
As pedras têm a qualidade da inércia. Há poetas que por vezes assumem essa qualidade.
Pegar numa pedra encontrada no caminho sabe bem. Sabe bem sentir o seu peso ancestral, sabe bem sentir a sua pele dura, áspera e seca, sabe bem cheirar o seu cheiro a terra e a distância. Pegar num livro de poesia encontrado ao caminho numa qualquer estante sabe igualmente bem, sabe bem sentir o seu peso, passar a mão pela sua pele de papel, sentir o seu toque e o seu cheiro.
Antigamente os homens escreviam nas pedras. As pedras eram livros que não se podiam folhear. Nesse contexto, os livros já foram de pedra. Ainda assim, isso de pouco lhes valeu – o tempo leu-os tantas e tantas vezes que os apagou da história, restando apenas algumas páginas em cavernas; entenda-se, páginas não encadernadas mas antes, dir-se-ia, encavernadas.
No tempo dos livros de pedra não resisto a pensar que emprestar um livro a alguém podia ser um acto perigoso e subversivo, considerado até um ataque à integridade física.
Igualmente no tempo dos livros de pedra, ninguém ia ler para a margem dos rios. Era demasiado custoso. Isto é, poucos se atreveriam a passear de livro debaixo do braço, sobretudo se fossem calhamaços de seiscentas páginas… Não sei que sucesso nesses tempos teria um Leon Uris ou um Rodrigues dos Santos…
No tempo dos livros de pedra, um best-seller equivaleria a uma pedreira inteira esventrada. Os ambientalistas do tempo dos livros de pedra é bem provável que não vissem com bons olhos os autores de best-sellers. Talvez preferissem os poetas.
Atirada, uma pedra pode viajar sem horizontes, um poema também.
Com pedras se constroem casas, com poemas se constroem abrigos.
Há casas feitas com pedra, e há quem faça dos poemas casa.
Da utilidade das pedras pouco sei dizer, da utilidade de um poema sei dizer o respirar.
Com uma pedra pouco podemos, com apenas uma palavra podemos às vezes muito mais. Com a palavra Amor, por exemplo.
As pedras guardam segredos do princípio do mundo, os poemas revelam esses segredos.
Há poetas que gostariam de ser lidos pelas pedras, como o poeta Manoel de Barros.
O meu pai foi geólogo e escreveu poesia.

alguns afastamentos entre pedras, poemas e poetas:

Uma pedra não surge do nada, os poemas costumam surgir.
As pedras não amadurecem, os poemas e os poetas sim. E devem.
Uma pedra não finge, o poeta, como é sabido, é um fingidor.
As pedras podem não querer dizer nada, os poetas pretendem muitas vezes ensaiar dizer tudo.
As pedras sabem esperar, os poetas são impacientes.
É provável que as pedras perdurem para sempre, é provável que os poemas não.
Tentar ler uma pedra pode ser uma perda de tempo, tentar ler um poema nunca o é.
As pedras em si mesmas não são conflituosas, alguns poetas são-no.
As pedras não tem identidade, a poesia sim.
As pedras não respiram, a boa poesia respira.
As pedras preciosas são raras, os grandes poetas muito mais raros são.
Uma pedra ocupa sempre um lugar, a poesia pode não ocupar e, sim, como dizia o poeta, é sempre uma coisa muito bonita.
Uma pedra não sofre, há poemas sofridos, tal como sofríveis.
Há, na realidade, poetas que parece não terem ultrapassado a idade da pedra.
Uma pedra pode ser inútil, um poema é sempre útil.
Uma pedra pode matar, a poesia raramente mata, a não ser que transborde de emoções ou se arme em reaccionária.
Houve uma idade da pedra, não sei se existiu, existe ou existirá uma idade da poesia. Se calhar todas as idades são idades da poesia.
Às vezes o Homem parece não conseguir passar sem pedras, há homens que parecem conseguir passar sem poesia.
Os bichos não gostam de pedra, há bichos que infelizmente gostam de poesia. E gostam das nossas estantes, gostam de mastigar palavras e papel.
Com as pedras permanecemos, com a poesia viajamos.
Há pedras em todo o lado, os poemas encontram-se ao fundo dos poetas.
As pedras podem servir para afundar, um poema pode ser fundacional.
As pedras por vezes confundem-se, os poetas são sempre distintos. No entanto, sim, há poetas confundidos.
A pedra não diz, o poema diz.
Água mole em pedra dura, na poesia é loucura.
A pedra não vira costas a nada, a poesia por vezes vira as costas à vida.
As pedras não se comprometem, a poesia deve comprometer-se.
As pedras não nascem em nós, a poesia nasce.
Uma pedra não acontece, a poesia acontece.
Uma pedra não é senão aquilo que é, pedra. A poesia é sempre mais do que aquilo que parece.
As pedras são coisas, os poemas são coisas especiais.
As pedras têm qualquer coisa de nada, a poesia tem qualquer coisa de tudo.
Uma pedra pode entrar no sapato, o poema dificilmente é uma pedra no sapato.
Uma pedra não provoca incêndios, um poema pode ser incendiário. Sobretudo se queimado. Outrora inúmeros poemas alimentaram grandes fogueiras.
As pedras são diárias, os poemas nem sempre.
A pedra só responde por si, o poema responde também pelo poeta.
Uma pedra pode bastar, raramente um poema nos basta.
Uma pedra atirada pode fazer barulho, um poema atirado pode fazer muito mais.
De noite as pedras apagam-se, os poemas refulgem.
Podemos guardar uma pedra no bolso, mas jamais no peito como um poema.
Um lugar com uma pedra pode continuar a ser um lugar vazio, um lugar com um poema jamais o será.
Um conjunto de pedras pode tapar o horizonte, um conjunto de poemas abre o horizonte.
Uma pedra pode servir de prova, um poema não pretende provar nada.
Para voar uma pedra precisaria de asas, um poema não precisa.
As pedras pesam, os poemas levitam.
As pedras não sabem a frutos, os versos podem saber a cerejas.
É provável que as pedras perdurem além de si mesmas, é menos provável que os poemas perdurem para além dos leitores.
As pedras não sangram, há poemas que parecem sangrar.
As pedras não são raízes, os poemas são como raízes.
O vento não entra nas pedras, mas o vento pode entrar num poema.
Uma pedra só é, o poema vive.
Uma pedra tem veios, um poema veias.

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Fevereiro 27, 2010.

Uma resposta to “o texto que levei às correntes (aí dedicado à Madeira)”

  1. É na verdade belo como a pedra que preservo vinda da minha infância. E por isso me conduz a um outro belo poema, no casoo do poeta Emanuel Félix, que diz: “Um homem pode amar uma pedra / uma pedra amada por um homem não é uma pedra / mas uma pedra amada por um homem”. Os silêncios das pedras são os silêncios perfeitos do poema.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: