ptneves no www.pnetliteratura.pt – rui vieira

«Vozes no Escuro»
De Rui Vieira
Edições Nelson de Matos, 222 pp.

Rui Vieira, nascido no Porto em 1966, cidade onde reside, lançou recentemente o seu novo romance, apresentado na Póvoa de Varzim, nas Edições Nelson de Matos. Trata-se da sua terceira investida pelo género, após a edição de «Guardador de Almas» (2005, título vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada) e «A Eternidade Noutra Noite» (de 2006), ambos ainda com a chancela da Ambar. É de um espaço de sufoco que nestas páginas de fala, de um lugar de ausências e privações, de silêncios e provações, lugar sem nome, ou de pedras apenas feito, numa ordem que das pedras que erguem os muros e as paredes atravessa os corpos para neles se fazer regra e ordem. É, afinal, de uma «vida que não se vive» que falamos, e as vozes que ouvimos, a quase uma só voz, respiram todas um fogo de tragédia pressentida, vogam as memórias de vidas magoadas, prenhes de dor e desespero. As vozes que ouvimos, escutamos, lemos, repercutindo uma quase sina, repartem-se ou ecoam por três gerações. Em jeito de um coro à grega, o cimento de miséria que as une constrói a consciência de vidas impuras, tocadas pelo pecado e pela morte. Um homem que morre nas águas de um rio, uma mãe presa à imobilidade, uma mulher que dorme com o marido da irmã, um padre que afaga crianças ao colo. Pelo meio, Deus no Céu e na Terra, rente às pedras que os humanos pés pisam, posto no desassossego da dúvida humana: «Deus existe?, claro que não existe, ou se existe não bafeja todos com o seu sopro divina»… Como não questionar: como não questionar-se esta noviça criada por Rui Vieira que experimenta na pele e na alma o isolamento de seis dias numa cela de um convento, atravessada pelas vozes e espíritos das muitas freiras que antes dela ali (se) privaram da vida e do ser humano (isto, de o serem plenamente, de fruírem do gozo dos sentidos e das emoções humanas)? Livro de questionamentos, este é sobretudo um livro cravejado de silêncios. Um livro densamente povoado de silêncios (o silêncio tornado deserto onde a si mesmo, perante Deus, se buscar), profundamente poético e que, por isso mesmo, a todo o instante nos pede uma leitura em voz alta, reclamando de cada palavra, de cada frase o seu tempo próprio de dizer e respirar. Expressão de um desespero enraizado na incompreensão, as vozes devêm «almas perdidas» tentando a custo compreender os seus destinos: «Vagueio por este sonambulismo de vidas, perdida em corpos e sentimentos não meus (…) só tenho dezassete anos, preciso de me apaixonar, como saberei amar o próximo se nunca me apaixonar?»; ou: «Como se pode aprender a amar sem poder ser amada?». A dúvida, portanto, a insinuar-se nos interstícios das palavras, das vozes, tolhendo-as por dentro, junto ao coração («Gritos eternos no escuro»), desafiando as sombras, questionando o dom, a escravatura de Deus. Em desconcerto e num desconexo encadeado de fulgurações frásicas, como se por dentro dos pensamentos avulsos dos seres, «Vozes no Escuro» não é um romance fácil, antes, diria, mais uma experiência da palavra, um exercício do dizer, o reflexo de uma tentativa do autor em colocar-se por dentro das personagens, dizendo do seu ser e sentir. O enredo, a existir, insinua-se assim aos requebros, por memórias repartidas, puzzle que é dado ao leitor reconstruir à medida que avança na leitura. Emocionalmente, num crescendo contínuo as páginas atiram-nos para um pico que, nas páginas finais, assume contornos vorazes e tremendos, desenhando um quadro de insânia e quase alucinação, bem expresso na descrição de um universo onde voluteiam anjos e demónios, carrascos, criaturas monstras, exércitos do Demo, por entre imagens como estas: «cozinheiros fritam em frigideiras pedaços humanos num cheiro sebento de redenho, corpos trespassados por paus giram num espeto, submergem cabeças rapadas e pernas de caldeirões, ferradores com rabos de lagartixas e cabeças de dragões cravam ferraduras em corpos nus, zurram de dor, enquanto músicos de corpos reluzentes preenchem os sentidos com sinfonias tocadas em instrumentos que sopram pelo ânus.» (no que parece uma clara remissão para o universo plástico-infernal de Jheronimus Bosch). Livro de abismos, este, com a(s) alma(s) olhando-se a todo o instante no fundo de si mesma(s), vomitando-se em vida à procura de uma razão para ser(em) e existir(em). «Abismo: precipito-me sem fôlego num precipício onde não se distingue o fim, uma mão invisível arrasta-me para o infinito, para o vazio do ser, um grito que se prolonga num eco inexistente, nade existe, eu, sombras e imagens num fumo que se adensa, neblina, sem referências, marcos, cego, caminho às apalpadelas pelas trevas, jamais encontrarei um caminho de volta.» Livro ao negro?

Anúncios

~ por pedroteixeiraneves em Março 8, 2010.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: