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«A máquina de fazer espanhóis»
De Valter Hugo Mãe
Objectiva, 307 pp.

Cerca de ano e meio passado sobre a edição do romance «O Apocalipse dos Trabalhadores», livro sobre o qual aqui tivemos oportunidade de escrever (ver arquivo), valter hugo mãe regressa à edição em prosa com «a máquina de fazer espanhóis», desta feita já não com o selo da Quid Novi, antes agora apadrinhado pela Objectiva/ Alfaguara. Uma vez mais, é sob o signo da singularidade que a sua escrita se impõe e irrompe pelas nossas mãos e olhos, a um só tempo fera e brutal como também terna e poética. E lúcida, enormemente lúcida, quase ao ponto de assustar, talvez situada na ténue fronteira entre a lucidez e a insânia; porque entre os dois pólos balança o seu dizer, entre o real e o fantástico, o palpável e o etéreo, entre o carnal e um lugar qualquer onde as almas se desprendem dos corpos e tudo devém sonho. Ou imaginação.

As emoções são o motor da escrita de valter hugo mãe. É sobre elas que o escritor opera, qual cirurgião empenhado em desmontar-lhes os mecanismos de virem à tona da pele e se manifestarem. E nisso valter hugo mãe é exemplar, dissecando com extrema argúcia o ser e o sentir das suas personagens. Porque, não esqueçamos, é delas que se trata, são elas que importam ao escritor, as personagens que, sendo de ficção, por serem tão de carne e osso, tão quotidianamente reconhecíveis, mais parecem pedidas de empréstimo pelo escritor aos dias e às ruas, à casa de um nosso vizinho, à mercearia da esquina ali ao fundo. Já era assim com as personagens de «O Apocalipse dos Trabalhadores», tal como de «O Segredo de Baltazar Serapião» ou «O Nosso Reino», volta a ser com este novo título.

Vejamos, a valter hugo mãe não interessam os cenários, ele jamais se perde ou gasta palavras em descrições barrocas ou adjectivações rebarbativas (e por aí se percebe também que em termos de enredo não haja grande rendilhado ficcional). Os cenários existem apenas enquanto lugares/ espaços que as suas personagens evoluem, transitam ou habitam. O que se percebe, porque ao escritor, mais interessado em escalpelizar as emoções das suas personagens, não importa sobremaneira o descritivo dos espaços da acção, pois esses, sejam eles quais forem, tenham as cores que tiverem, as decorações que se quiserem, os fundos que se entenderem, serão sempre os “mesmos” em função da universalidade do sentir do ser humano, aqui como na China ou na Tasmânia; logo, é a este plano de trabalho, digamos assim, que o autor tem de se cingir, e cinge: as pessoas e as suas emoções. E mesmo que aqui a “portugalidade” das suas personagens ressume e espelhe um contexto e uma realidade sociais que dizem muito de um país, a verdade é que, mundo fora, as coisas não funcionarão de modo muito distinto.

Temos, pois, velhos. Velhos depositados num lar. A palavra, apesar de cruel, é essa; depositados. Deixados pelos familiares ao acaso dos dias finais de vida, arrancados do nada, e de uma hora para a outra, às suas vidas quotidianas, aos seus espaços, às suas rotinas. Entregues para morrer. Como silvas abandonadas nos caminhos finais da vida. Silvas como o senhor silva, protagonista, ou o senhor silva da Europa, ou como os muitos outros silvas desta vida que afinal serão todos os velhos que são atirados para lares de terceira idade; silvas, nesta perspectiva, com outros apelidos, com os apelidos que se quiserem, diversos no apelidos, iguais na condição – como os há no livro. Este é o primeiro aspecto a reter deste romance, uma visão desapiedada do modo como a sociedade contemporânea trata os seus velhos.

Mas o livro de valter hugo mãe tem muito mais que se lhe diga, não é somente um livro sobre a velhice. É um livro sobre a revolta (contra a perda e contra o perder constante que é a vida), e também sobre a malícia, a maldade – não por acaso estranhos acontecimentos acontecem no lar levando à visita do detective/ inspector Jaime Ramos, personagem que o escritor foi buscar aos livros de Francisco José Viegas, numa muito curiosa e eficaz apropriação de escrita alheia que leva valter hugo mãe ao extremo de alterar as suas “regras de escrita” e a, facto inédito, escrever alguns capítulos com maiúsculas. Neste particular, interessante é igualmente o trazer para dentro da escrita uma personagem, Anísio Franco, que na realidade existe (é conservador no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa) e em muito, excepto na idade e nalgumas opiniões, a ela corresponde – neste particular, enfim, não sendo dado novo, e recordo-me, de repente, da mesma opção num livro de Mafalda Ivo Cruz onde surge, vertido a personagem, o crítico/ curador de arte e professor Delfim Sardo.

Um outro dado que parece transparecer deste romance é a aproximação subtil, e muito bem plasmada, que se entretece entre os actos e pensamentos dos velhos com os das crianças, de resto, consubstanciando uma teoria clássica de circularidade; isto é, assumir que a velhice em muito se aproxima da infância, como se os corpos e as almas cumprissem em vida um eterno retorno à origem: leia-se, ao nada. Tomem-se, por e para exemplo, as saborosas cenas em que os velhos se constituem em pequenos grupos para dizer mal uns dos outros, o modo como em grupo zurzem das velhotas, os medos que os acompanham, as aventuras nocturnas a que se prestam, o dormirem em conjunto para afastarem os temores, as asneiras que fazem, os chichis que deixam correr pernas abaixo…

Porém, certa lucidez ainda lhes assiste, a lucidez das experiências de vida, a lucidez do remorso, a lucidez do final de vida em que, olhando para trás, se reconhecem erros, se assumem ou ensaiam justificar, perante si mesmos, pecados ou pecadilhos, numa espécie de auto-expiação que, por vezes, resulta também em redescoberta pessoal. É esse o rastilho necessário a valter para, por vozes interpostas, empreender uma espécie de acerto de contas com o passado, com um Portugal bolorento e cinzento, moralista e bufo, o Portugal da Velha Senhora e do fascismo à moda de Santa Comba Dão, à moda do «porco», vulgo Salazar, com tiques que parecem ainda transparecer no Portugal de hoje. Do exposto, decorre outra especificidade deste livro, o seu grau extremo de anti-clericalismo; a título de exemplo, os episódios do senhor antónio silva às voltas com a desgraçada da sua imagem de Fátima, a serem lidos pela Igreja, seriam suficientes para pôr João Paulo II às voltas debaixo da terra… A ironia (sempre muito bem cultivada por valter) disfarça as coisas, é bem certo, mas não creio que tenha sido essa a preocupação do autor. E, sim, pelo meio há um sui generis espanhol português de Badajoz… E, sim, é mais um belo livro do autor.

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~ por pedroteixeiraneves em Março 8, 2010.

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