a entrevista a manuel da silva ramos que lhe fiz para o pnetliteratura.pt por ocasião das correntes d’escritas 2010

Manuel, é a primeira vez que vais às Correntes?
É.

O que te dizem os encontros de escritores?
Os encontros de escritores servem para se verificar que até os escritores envelhecem.

Uma provocação desde já: os escritores encontram-se ou antes dão encontrões?…
Nesses encontros de escritores faz-se salão da Marquesa de Alorna, come-se, bebe-se, vende-se o produto e depois cada qual vai à vida. Não há confrontos, nem animosidades. Gombrowicz dizia que nos encontros de escritores cada qual vendia qualquer coisa como a prostituta que vendia o seu corpo na rua. Estou de acordo com ele.

Estiveste fora do país muitos anos; de que modo isso influenciou a tua escrita?
O facto de ter vivido 27 anos em França e de ter conhecido muitos países foi capital para a minha escrita. Devorei bibliotecas francesas, instruí-me, fodi muitas mulheres, confrontei-me com muitas pessoas… Ganhei uma imensa cultura e uma imensa experiência de vida, duas coisas essenciais para uma pessoa ser um verdadeiro escritor.

Que diferenças vês naquilo que hoje te motiva para a escrita e no que te motivava quando começaste a publicar, nos idos de 60?
Sempre quis ser escritor, independentemente da quantidade de leitores que pudesse vir a ter. Aos onze anos quando me ofereceram um livro do Júlio Dinis devorei-o no próprio dia e no final disse que queria ser escritor.

O mundo do livro mudou muito de então para cá. Em qual te sentes melhor na pele de escritor, no mundo editorial de há trinta, quarenta anos, ou no de hoje?
Claro que me sinto melhor no mundo editorial de hoje. Lembra-te que quando comecei a publicar havia a censura fascista.

Tu que conheceste editores de várias gerações, como vês os de hoje por oposição aos de outrora? Mudou a relação entre escritores e editores? Para melhor ou pior?
Acho que os editores de hoje estão mais perto dos escritores, o que implica uma relação mais pessoal e comercial. O que não é forçosamente mau…Muitos são pigmaliónicos e intervêm na génese de uma obra ou na alteração do enredo. É boa essa proximidade porque um escritor também se pode enganar…

Assusta-te um mundo dominado pelo digital e pelo electrónico, em que o livro de papel, e por consequência as livrarias, possam desaparecer?
Não, os livros em papel nunca desaparecerão. Nunca desaparecerá o cheiro dos livros, a atracção dos livros. Folhear um livro é saber já se o livro é bom ou mau. Gosto dos livros com várias mãos, sublinhados, às vezes com manchas de café…

A tua escrita tem um quê de originalidade e singularidade. Confirmas?
Confirmo.

«Viagem com Branco no Bolso» é, ainda hoje, um livro desconcertante. Como é que vês esse livro há distância de uns anos? Achas que foi um livro bem compreendido?
Acho que “ Viagem com Branco no Bolso “, que é o meu livro mais ambicioso, foi mal compreendido, mal lido, poucas pessoas o leram até ao fim. É uma injustiça. Mas a literatura está cheia de injustiças. Ernesto Sampaio gostou muito deste livro assim como o Torcato Sepúlveda. De resto, foi o silêncio absoluto. Se fosse em França, em Espanha, mos Estados Unidos…

«Louvado seja o caralho!», assim começa esse livro. Achas que o leitor português já está preparado para estes socos no estômago, ou o achas que o moralismo e pudor dos tempos da velha senhora ainda se sente no ar?
“Louvado seja o caralho!” era a frase predilecta do anão de Arcozelo, um dos personagens do meu romance. Era natural que eu a metesse no meu romance. Claro que continua a haver um moralismo e um pudor da parte dos leitores. Vou-te contar uma história em relação com isto. Uma empresa de trabalho temporário estrangeira muito estabelecida em Portugal prometeu comprar quatrocentos exemplares deste meu romance para oferecer pelo Natal. Mas quando viram a primeira frase do livro, só compraram 150 exemplares.

Creio que para um maior registo de veracidade em «O Tanatoperador», ter-te-ás, em França, inflitrado nalguns funerais… Queres contar se é verdade?
Foram anos dolorosos, loucos, intensos, que eu passei em França. Já estou a escrever essas memórias. Parte dessa experiência contei-a no livro de poemas “O Tanatoperador“ onde é questão de um homem que vai aos funerais para se aproximar dos mortos e das mortas. Eu fui esse homem louco e aguerrido e quando se sabe que os franceses colocam à entrada da porta de sua casa o escrito (“La famille ne reçoit pas”),
a família não recebe ninguém, é de elogiar essa atitude suicidária desse exilado político que eu fui sem temor.

Num livro mais recente, «O Sol da Meia-Noite», optaste por uma escrita digamos que mais apreensível em termos de estruturação narrativa. Foi uma opção propositada?
“O Sol da Meia-Noite seguido de Contos para a Juventude “ é uma descida incandescente à noite portuguesa onde sexo, loucura e álcool estão reunidos. Tinha por isso de ter uma linguagem e uma estrutura facilmente apreensíveis pelos leitores e pelos leitores mais novos. O programa estava logo na capa: “Contos para a Juventude”…

Quanto de ti é possível reconhecer nas aventuras das tuas personagens?
Claro que há muito de mim nas aventuras das minhas personagens. Já uma vez o disse algures: “A vida – minhas obras completas“.

Para escrever deve-se evitar estar lúcido?
Não. Já conheci muitos escritores que bêbados escreviam muito bem. E outros drogados que escreviam maravilhas. A lucidez é boa para os cirurgiões, aos escritores escapa-lhes sempre qualquer coisa…

Tens um novo livro nas livrarias, queres dar a conhecê-lo?
O meu novo romance “Três Vidas ao Espelho“ é um romance reconfortante e alegre que faz o elogio do emigrante português (tantas vezes humilhado) e dos contrabandistas da raia que tiveram um papel crucial na economia das regiões portuguesas vizinhas da fronteira espanhola. É uma história incrível de um contrabandista que foi baleado pelas costas e de dois homens corajosos que tentam reabilitar a memória deste raiano humilde ao ponto de o exumarem do cemitério espanhol onde ele estava enterrado nas brumas do esquecimento. Mas o livro também são as histórias de dois emigrantes bem-sucedidos que são heróis à sua maneira. O primeiro distribuía a bondade pelo mundo dando dinheiro aos necessitados e o segundo, que vive nos meios do cinema, tem por utopia própria espalhar o ouro dos sonhos pelo planeta inteiro. O meu livro é um retábulo humano e regenerador, cheio de vida, poesia, emoção e riso.

Escrever salva-te? De quê?
O dia em que não escrevo três páginas é um dia sinistro para mim. A literatura salva-me da mediocridade deste mundo… A literatura, como já disse uma vez, não é adopção, é vocação. Um escritor verdadeiro é um desesperado e um tipo fora das regras. Tento sempre escrever um livro que queime as mãos dos leitores. Exactamente como dizia Stephen Vizinczey: «Os grandes escritores não são aqueles que nos dizem que nós não devemos brincar com o fogo mas aqueles que nos queimam os dedos».

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~ por pedroteixeiraneves em Março 11, 2010.

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