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«Diálogos Para o Fim do Mundo»
De Joana Bértholo
Caminho, 243 pp.

Antes do mais, que possa resultar estranho e algo hermético a uma leitura crítica que se quer clara e cristalina (mas do porquê de tal perceberão em lendo até ao fim, percebendo a dificuldade em abordar um texto como aquele em mãos), apresento a autora deste «Diálogos Para o Fim do Mundo». Joana Bértholo nasceu em 1982, em Lisboa, e, lemos na badana da contracapa, «disseminou moradas por destinos europeus e outros. Licenciou-se em Design de Comunicação pelas Belas Artes de Lisboa e depois mudou-se para Berlim, onde está a fazer o doutoramento.» Mais ficamos a saber que tem já outros dois títulos publicados: «Havia – Histórias de coisas que havia e coisas que continuam a haver» e «Boa-Nova», título a que foi atribuído o Prémio Jovens Criadores 2005. Recebeu ainda diversos outros prémios no domínio da escrita, de argumentos para BD até ensaio. O livro, agora, este que, a propósito, foi distinguido com o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho 2009.

“Existe fim no começo e começo no fim”, escreve Joana Bértholo. Pensemos no Tempo, medida ou coordenada deveras importante para pesar este romance. E não o tenhamos como normalmente, vulgarmente, habitualmente se imagina ou pensa, como uma linha recta seguindo em frente, com um antes e um depois. Tenhamo-lo antes enquanto uma mole abstracta onde se jogam e interseccionam diversos tempos, tempos que se justapõem, tempos que colidem, tempos que se cruzam e jogam livremente, tempos cujos fins e princípios dialogam e a si mesmos se alimentam. De quê? De histórias, ou de uma história com estórias dentro. Neste romance de Joana Bértholo a narrativa joga-se assim, esquartejada em espaços-tempos, avançando a esboços ou numa espécie de composição de fotogramas de um filme a que faltassem alguns excertos, alguns planos, sequências.

Imagética no plano textual e linguístico, tudo se processa também numa cadência quase rítmica ou musical. Assim, ao mesmo tempo que a escritora desencadeia um jogo de construção da palavra (assente em repetições, quase-aforismos, trocadilhos, etc.), o mecanismo de repetição, de alinhavos de ideias já antes expostas e continuamente repegadas, gera uma tessitura quase melódica (a própria escritora fala, no final, na sua escrita como um conjunto de “andamentos”), em que a todo o momento se retomam motes gerando novas glosas, novas ideias, novos avanços na narrativa. Nada desprezível, bem pelo contrário, é igualmente o poder inovador, singular e experimentalista que a autora assina, não tanto por via dessas recorrentes remissões para o anteriormente dito, antes por outros factores; como o caso das notas de rodapé (que a cada momento aventam novas pistas de leitura para o dito), como o caso de um índice colocado antes do final do livro, como ainda, por exemplo, o próprio final do livro, cujas notas explicativas ou respectivos agradecimentos da autora surgem como parte integrante do texto.

Este é também um livro de interrogações, de inquietações, um espreitar ao mundo pela janela do desconcerto. Desconcerto por via do seu cortejo quase fantástico de personagens, desconcerto pelo seu encadeado labiríntico, de espaços e tempos da acção, desconcerto pelo modo como aglomera uma multiplicidade de referências culturais, sobretudo no domínio da imagem, ao que de resto alude Joana Bértholo no final, das obras de Greenaway a Tarkowski, de Herzog a Resnais ou Wim Wendars. Na literatura, citam-se também nomes como os de Mircea Eliade, Sam Harris, Italo Calvino, Agustina Bessa-Luís ou Gonçalo M. Tavares (escrita, de resto, da qual esta se poderia dizer irmã, sobretudo por via do modo filosofante como vai abrindo veios de reflexão a cada momento da narrativa).

Como pano de fundo, quase meramente instrumental para o que realmente parece importar à autora, o pensar o mundo e o ser humano à sua volta, temos a história da família ucraniana Kozak. E, no início, temos a fome e o frio, temos o silêncio de um pai que é obrigado a partir para o outro lado do mundo, e, pelo meio, temos a gesta da família que a bordo de um navio intende juntar-se-lhe, um bom punhado de anos passados. E algures entre tudo isso, entre o princípio e um fim indefinidos, temos uma panóplia de estórias, cujos dados nos vão elencando pistas para reflexões diversas, do amor à felicidade, da morte até ao nada. Um tal emaranhado de pistas, espaços, tempos e personagens, acaba por nos deixar algo baralhados, levando-nos a percepcionar o tudo que lemos como meros apêndices de uma história universal que, como se vista e lida de um prisma cosmogónico, deixa de fazer qualquer sentido, senão aquele que cada facto e dado assumem para o destino imediato de cada personagem. Romance sem sentido? Como a autora escreve: «Tudo aparenta fazer sentido por um espaço muito curto no tempo, Onde Nada acontece». O tempo, vistas as coisas, tudo devora e reduz a nada, pelo que talvez nada de nada realmente exista ou aconteça.

Sem veleidades de grandiloquência ou presumida discursividade filosófica, sem alardear uma retórica pedante, esta escrita tem o condão de ser autêntica, o que muito resulta da sua originalidade. Imaginativo, aqui e ali algo obscuro, sempre desconcertante (como a isso já aludimos), este romance não será um tsunami, mas no mínimo um fulgurante meteorito será. Romance in-progress, a si mesmo se desenhando e mostrando-se ao leitor nesse processo, mecanicamente jogado entre o lúdico e o racionalizado, «Diálogos Para o Fim do Mundo» escapa a géneros ou fórmulas pré-existentes. E só por isso merece ampla leitura e reconhecimento

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~ por pedroteixeiraneves em Março 19, 2010.

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