apostas propostas – jaime rocha/ necrophilia

Quase a chegar às livrarias, o novo livro de poesia de Jaime Rocha, com que o jornalista/ poeta/ dramaturgo encerra a tetralogia em torno da vida de Elizabeth Siddall (ou Siddal, sem o l final, conforme se prefira). «Necrophilia» reporta-se aos anos finais da história neurótico-amorosa entre Dante Gabriel Rossetti e a sua musa e modelo, depois também mulher, Elizabeth Siddall, a famosa «Ofélia» do quadro de Millais, também conhecida por Lizzie, ou por Sid, como lhe chamava Dante. Poderosíssimos versos nos quais ressoam as fantasmagorias em torno da história da exumação do caixão de Lizzie, cerca de sete anos depois da sua morte, com um Rossetti em busca do único original do seu livro de poemas «The House of Life», que à data depositara junto aos cabelos de Lizzie, cujo estado (do cadáver), de resto, e segundo a lenda, se encontraria em surpreendente conservação e cujo cabelo, inclusive, teria continuado a crescer… Na capa, o belíssimo e intrigante retrato de Lizzie, intitulado «Beata Beatrix» (Beata, significando felicidade, Beatrix reportando claramente à Beatriz de Dante) — não menos intrigante, também a lenda/ rumor que aventa a hipótese de o quadro ter sido pintado por Rossetti já depois de ter encontrado a mulher morta em casa, com uma sobredose de láudano, teoria que não passa disso, embora “consubstanciada” pelo facto de Rossetti apenas ter dado conhecimento do falecimento da mulher algumas horas depois de a ter encontrado e também por via do retrato semelhar um rosto sem vida, uma quase máscara. Teoria, volto a frisar, e apenas uma teoria, tão-só porque se sabe que Lizzie faleceu às primeiras horas da manhã de 12 de Fevereiro de 1862 (às 07:20), sendo que durante a noite de 10 para 11, e durante este dia, três ou quatro médicos a viram (um deles, fazendo-lhe mesmo uma lavagem ao estômago) e a sua irmã Clara a visitou pelas três da manhã.
A todo este propósito apaixonante, transcrevo o poema «O Bosque Silencioso», de Elizabeth Siddall, traduzido por Helena Barbas e publicado pela Assírio & Alvim no livro «Os Pré-Rafaelistas Antologia Poética»:

Oh, bosque silencioso, entro em ti
Com o coração tão cheio de tristeza
Por todas as vozes vindas das árvores
E os fetos que se me agarram aos joelhos.

Deixa que me sente à tua sombra mais escura
Onde os mochos cinzentos esvoaçam em círculo
Aí te pedirei uma mercê,
Que eu não desmaie, nem morra, nem desfaleça

Olhando através das trevas como alguém
Com vida e esperança ambas acabadas,
Gelada como uma coisa de pedra
Sento-me à tua sombra – mas não estou só

Poderá Deus devolver-me o dia em que os dois
Estivemos sob as árvores cerradas no bosque escuro?

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~ por pedroteixeiraneves em Março 31, 2010.

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