ptneves no www.pnetliteratura.pt – hélia correia

Haverá, na carreira e percurso de um autor, um livro ao qual se possa chamar «o livro de uma vida»? É provável que sim, ou talvez não, talvez seja excessivo dizê-lo, talvez por via da enorme carga de subjectividade que uma tal afirmação compreende. E, porém, porém no caso do romance «Adoecer», de Hélia Correia, que a este texto nos convoca, apetece arriscar dizê-lo. Não apenas pela grandeza e qualidade do livro em si, do texto enquanto matéria, mas igualmente porque, sabemo-lo, durante grande parte da vida da escritora este romance a acompanhou, florescendo aos poucos, ano após ano, num lento e moroso processo em que cada dia, cada viagem, cada descoberta, contribuíam para um pouco mais do seu segregar que agora, muitos anos passados (muitos também de escrita), se corporiza neste fulgurante romance. Não é caso comum ou corrente, de resto, a história da gestação deste livro, não o é a história que encerra, como também o não é o modo de irmanação da autora relativamente à personagem que convoca e por ela, como veremos, se viu convocada.

Tudo terá começado há cerca de três décadas, quando, na altura exilado em Paris, o “namorado” de Hélia Correia recebeu pelos Correios uma carta com um postal que, em parte, lhes moldaria a vida – pelo menos a literária, sem dúvida (aos dois, porque também Jaime Rocha se viu intimado por esta história a sobre ela poetizar; e aqui aconselho vivamente a leitura do último “episódio” dessa convocação, o belíssimo livro de poemas ora também editado pela Relógio d’Água, «Necrophilia»). Nele, no supracitado postal, a imagem de uma mulher deitada, a cara inexpressiva, como uma «cera», semi-imersa dentro de uma espécie de regato de águas escuras e lodosas, rodeada de densa vegetação ao gosto romântico. E, contudo, nada de romântico assistindo à personagem fúnebre, embora muito bela, terrivelmente bela; ela é, na verdade, a encenação pictórica da Ofélia de Shakespeare, num quadro que a história de arte ocidental guarda com a entrada «Ophelia», assinada pelo pintor britânico novecentista John Everett Millais.

Esta Ofélia de Millais interessa-nos, sem dúvida, mas mais, no que aqui nos traz, nos interessa a mulher de carne e osso que encarnou essa personagem eivada de mistério e trágica beleza. Sua graça: Elizabeth Siddall. Mas, contextualizemos. Estamos em meados do século XIX, na Inglaterra vitoriana. No espírito das ruas, uma sociedade moralista, retrógrada, machista. E no seu mais palpável do viver, uma realidade salobra, em que as cidades conheciam inúmeros problemas de saúde pública. Nascer e viver não seria, nesses tempos, coisa fácil. Elizabeth Siddall nasceu numa família de parcos recursos e, enquanto mulher, votada à nascença a um destino de mera sobrevivência. Não fosse a sua beleza, não fossem os seus fulgurantes cabelos ruivos, não fosse certo dia um jovem pintor, William Alingham, tê-la descoberto numa chapelaria e ter-se por ela encantado; como se por magia. Não por tê-la achado excepcionalmente bela, antes por nela ter reconhecido os traços de uma “changeling”: «… não podia ignorar o encontro.»

Convidada a posar para ele como modelo, a jovem iniciaria aí um seu percurso de ascendência social, subtraindo-se ao meio onde por sorte nascera. Do mesmo modo, nesse exacto instante iniciaria uma caminhada de tragédia: «Uma terrível história começava e ele seria o instrumento do começo.» Foi a história desta mulher invulgar que, desde o momento em que a viu há já algumas décadas, no imediato, igualmente como que por encantamento, cativou Hélia Correia. Durante anos, a escritora efectuou viagens diversas a Inglaterra seguindo, a par e passo, todos os caminhos e lugares que Lizzie percorreu. Num trabalho quase detectivesco, acompanhado por apurada pesquisa documental, Hélia foi-se, deste modo, imbuindo do ser e sentir daquela mulher por todos incompreendida, por todos temida e que, contraditoriamente, a todos atraía. A identificação com a personagem/ mulher é óbvia e, de resto, assumida: «Na verdade, conheço esta mulher. Não a criei. Sei mais a seu respeito do que sei sobre as minhas personagens. Pisei já muito chão que ela pisou, toquei em coisas onde teve as mãos. Dormi junto a lugares onde dormiu. Nada nela me é estranho.»

E não é, em absoluto! De uma forma espantosa, a autora reinventaria todos os seus passos e percursos. Vale-se de factos, aqui, permite-se a algumas efabulações e liberdades ficcionais ali. Biografia, sim, mas ao contrário dos biógrafos profissionais, sem «os pulsos amarrados». Ou seja, bem mais importante do que os meros factos, e por via de um trabalho de osmose, coloca-se por dentro da personagem, veste-lhe a alma, é-lhe por dentro. Algo que opera, diga-se, não apenas relativamente a Lizzie, mas também para com as outras personagens, desta forma, mais concorrendo para perceber a essência de Lizzie. Diria mesmo que, além de lhe interessar contar a história de amor neurótico («neles a sexualidade parecia expurgada de raiz») vivida entre Lizzie Sidall e Gabriel Dante Rossetti, mais terá interessado a Hélia Correia verdadeiramente perceber aquela mulher que «tinha um corpo selado na tragédia» e entender, se possível fosse, a «história de uma barbárie e dos seus autores». História que «acaba mal e não começa bem», como escreve a páginas tantas, sobretudo, literariamente, a partir daquele episódio inicial em que Lizzie é pintada por Millais enquanto Ofélia, momento a partir do qual «qualquer coisa de Ofélia se alojara definitivamente no seu corpo». Recorde-se que, posando horas a fio dentro de uma banheira aquecida por lamparinas, quando estas, gastas, se apagaram, Lizzie ali permaneceu na água fria não querendo perturbar o trabalho do pintor, acto que lhe valeu um valente resfriamento, primeiro sintoma de uma vida pautada pela doença.

E pela doença vamos, explicitando um pouco o título do livro. Se na realidade a doença marca o corpo de Lizzie ao longo da sua atormentada e breve existência, a verdade é que a sua doença era sobretudo da ordem do psicológico. Aquilo que percepcionamos é que a sua vinda a este mundo estava desfasada do tempo; Lizzie era como que um alma que regressara à vida com o mero intuito de ir ao reencontro da sua alma gémea, Dante Gabriel («O mito do eterno reencontro dos amantes que encarnam noutros corpos e que, sem escolha, iguais a condenados, começam novamente a sua história, cabia ali, como uma obra da paisagem»). Só que nada se repete. Apesar de se reencontrarem, de se reconhecerem de um mundo e vivência outra, os dois amantes estabelecem uma relação convulsa, marcada pela morte e por um qualquer desajuste com o mundo à sua volta. É bem verdade que Dante Gabriel a toma por musa e, a exemplo dos seus companheiros pré-rafaelitas, a incita a emancipar-se (numa atitude, entre outras, precursora dos ideais socialistas futuros), é bem verdade que vive com ela, a ensina a pintar e a escrever, mas não menos certo é que, apesar de tudo e do incomensurável que os ligava, toda a sua relação será marcada e votada a uma estranha maldição, como se o sofrimento lhes ficasse bem. Daí que Lizzie, mais do que adoecer, quase desejasse adoecer, nela combinando «a condição de morbidez» auto-induzida.

É todo esse processo decantatório rumo à perda que Hélia Correia romanceia, ao mesmo tempo que nos adentra no pulsar da vivência vitoriana, e particularmente no ar de uma Londres à data profundamente «estratificada». Pelo caminho, acodem múltiplas personagens que ao longo dos anos foram gravitando em torno do misterioso casal, filtrando ainda lugares e pequenas estórias dentro da história. Sublime no dizer, no construir de cada frase, Hélia como que verte à escrita um tempo (e uma vida) que ela mesma tivesse respirado. Em termos de estruturação narrativa, nada de mais simples. A história começa com a descrição da sua chegada ao cemitério de Highgate, onde Lizzie está sepultada ao lado do pai de Dante Gabriel, retrocedendo depois ao início, a finais de 50 do século XIX e seguindo então cronologicamente até à morte de Lizzie, em 1862, para terminar com o episódio da exumação do seu corpo a fim de se recuperar o inédito e único exemplar do livro de poesia de Dante Gabriel, «House of Life», que o pintor-poeta depositara junto aos seus cabelos sete anos antes.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 29, 2010.

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