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«A Arte de Morrer Longe»
Mário de Carvalho
Caminho, 125 pp.

Reza assim, à laia de neologismo: Cronovelema (vem na capa, não nos deixa mentir). E subentende o leitor, néscio, a apalpar género literário reconhecível, que será coisa entre a crónica e a novela. E conclui, com a liberdade que lhe assiste de quem vai acompanhando estas coisas da edição luso-literária: é, pois, matéria com que o escritor, de mão e voos maiores, já por demais vistos, lidos e afiançados, por crítica e público, se entretém enquanto vem e não vem romance de maior fôlego à tona dos seus dias. Nada de espanto maior, não é todos os dias que se escreve um romance e, por outro lado, arremedos de outro quilate também têm direito a ver-se ficcionados pela mão autoral, quem sabe até numa espécie de aquecimento para empreitada maior. Estamos, por conseguinte, a meio caminho, entre a novela e a crónica. Mas estamos, sobretudo, perante mais um texto, mais uma obra de Mário de Carvalho, autor, autor entre os grandes das nossas letras de hoje. Pelo que agradece o leitor, agradecerá igualmente a editora.

Novela, crónica ou breve romance, pouco interessa, até sobre isso aqui e ali, a páginas tantas, glosando/ gozando o autor num exercício que, por mais de uma vez repetido, se costuma dizer ou ter por metaliterário, revelando da parte do escritor enorme à-vontade no manejar da escrita e dos seus processos ou mecanismos de construção. É um primeiro sinal de um outro dado a reter da leitura deste “A Arte de Morrer Longe”, a refinada ironia que Mário de Carvalho volta a aportar à sua literatura. E nesse concreto se desvela ao comprido a tal faceta cronista a que alude a supracitada denominação, “Cronovelema”. Com a acção incrustada no real quotidiano de hoje, não nos é difícil percepcionar no dito e no entredito, no modo como o escritor vai dizendo do mundo à sua volta, no modo como nele vai gerindo e fazendo evoluir as vidas e acasos das suas personagens, um Mário de Carvalho assaz atento aos tiques e costumes das contemporâneas franjas sociais de que as suas personagens fazem parte; a começar pelo jovem e pacato Arnaldo, filho de boa gente mas sem grande futuro pela frente, pela sua mulher, Bárbara, a exemplo do gentílico a que a sua graça alude de modos pouco consentâneos com as regras de etiqueta mais exigentes aos olhos de uma burguesia moderno-decadente, pela mãe de Arnaldo, senhora de alto quilate social imbuída de um espírito justiceiro e moralista, embora ideologicamente confusa, até ao namorado desta, um polícia quinze anos mais novo, de porte atlético, figurão sempre a armar ao pingarelho. No mais, há também a reportar os colegas de trabalho de Arnaldo e Bárbara, cada qual soçobrando nos dias mais e mais cinzento, ocupado apenas em dar vazão às papeladas dos respectivos escritórios ou a gerir de perto, e ao pormenor, as vidas alheias.

E no início de tudo isto, uma tartaruga, um pobre quelónio que cresceu demasiado. Uma tartaruga com o destino traçado e ao qual nem a sua rígida carapaça a fará escapar. Desavindos, desconfiando-se mutuamente, por dá cá aquela palha, de affaires extra-conjugais, Arnaldo e Bárbara pensam em divorciar-se e é no ínterim do lavrar do deve e do a haver que se colocam a existencial questão do que fazer com a desgraçada tartaruga. Devolvê-la à procedência lojista, não, porque a dita fechou, oferecê-la a amigos ou conhecidos, não há quem se candidate, matá-la, seria algo do domínio do impensável, logo… logo há que abandoná-la à sorte (madrasta) de um qualquer jardim público e ao seu respectivo laguito de águas estagnadas. Mas nisso residirá todo um vasto problema e ror de agravos, sobretudo para o inefável Arnaldo…

Desconcertante, desbragado, desafiante, também despido, verdade seja dita, de predicados narrativos de maior, embora jamais sem desacautelar ou desmerecer do ponto de vista semântico, da qualidade de escrita, “A Arte de Morrer Longe” tem o condão de nos entreter por um bom par de horas, revelando o à-vontade com que Mário de Carvalho opera, de forma algo sarcástica, este escalpelizar do Portugal de hoje, das suas espécimes e aventesmas – algo que, de resto, não é ou vem de agora, bastando para tal pensar no delirante «Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina» ou “Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto». Tal qual, há um punhado de anos, o ex-Presidente da República Mário Soares passeando-se em balanceado monárquico em cima de uma tartaruga gigante algures nos trópicos de uns quaisquer antípodas, assim nos parece este romance às mãos de Mário de Carvalho, prazenteiramente se deliciando com a escrita e com os dias à sua volta, balanceando o seu olhar crivo-crítico pela fauna circundante e saboreando profundamente o ver-visto em redor

~ por pedroteixeiraneves em Maio 11, 2010.

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