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«Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas»
De Ricardo Afonso
Objectiva, 200 páginas

Que a literatura portuguesa contemporânea é pouco dada ao humor creio ser asserção amplamente reconhecida e aceite. Donde que, e talvez, carregada de velhos hábitos e hálitos medos, a sua prática tende, quando em uso, a moldar-se a subterfúgios vários, ora escudando-se na recriação polissémica das palavras, ora usando e abusando do uso do calão, ora glosando as matérias mais por via do sarcasmo e de uma ironia subterrânea, quase sempre velada e nas entrelinhas do dizer. Décadas de mordaça ditatorial terão contribuído para isso, mas isso igualmente explicado por via da difícil arte de ironizar à escrita, isto é, escrever com graça, sem cair na graçola, dizer dos dias e das suas faunas com humor e, sobretudo, dizê-lo com bom gosto. É que, como se sabe, é pelicular a distância entre o humor e o mau gosto. Ora, vem tudo isto a propósito de romance há relativamente pouco tempo editado entre nós, «Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas», de Ricardo Adolfo.

Um título comprido é meio caminho andado para uma estranheza que no imediato se pretenda imprimir a um livro, com o propósito, creio que claro, de assim chamar(-lhe) público. Muito mais isso sucederá se esse título em concreto encerrar em si uma ponta de absurdo, matéria, como é também assente, privilegiada para se instituir enquanto ponto de partida para o humor. Se a tudo isto acrescentarmos uma fotografia de capa assaz rústica e singular, temos o “prato” completo. Ora, este livro, reunindo as três coordenadas, apresta-se a que, a um primeiro olhar, nessa conta o tenhamos, de «coisa» que ao humor intende prestar-se. E se, na verdade, como veremos, outras motivações acodem aos desígnios de escrita do autor, o facto é que o rótulo “irónico” que se cola ao título e ao seu absurdo em muito concorre para o modo como se enfrentam estas páginas. O que, de resto, nem sempre é bom, apesar de poder ser um bom incentivo à compra, tanto mais num plano de crise em que rir é cada vez mais preciso e surge como panaceia para todos os males. É que, por outro lado, se a empreitada não corresponde às expectativas a queda será bem maior…

Vejamos então. Desilude, nessa perspectiva, este livro de Ricardo Adolfo? Não, de modo nenhum, revelando-se o autor extremamente arguto e acutilante no modo como explora e explana o ser e o sentir das suas personagens, dois “desgraçados” emigrantes lusitanos (Brito e Carla) numa dita «ilha» (que se adivinha ou presume de Sua Majestade), que, com um filho às costas (depois dentro de uma mala), e depois de uma fabulosa compra (verdadeiro achado ou pechincha), acabam por se perder, noite dentro, nos labirintos da cidade, levando-os a revelar a sua lusa-essência. É nisso, precisamente, que Ricardo Adolfo revela ter mão, ou seja, no modo como, com enorme à-vontade, joga com as falas das personagens, trazendo à tona (por via da plasmagem à escrita do seu registo coloquial) o mais clássico do comportamento do emigrante português quando no estrangeiro. A sua esperteza saloia, os maneirismos do seu linguajar das terrinhas de origem, o modo de a si mesmos se verem e a partir daí verem os outros, etc. Tudo vem à babugem das palavras num livro muito dialogal, quase sempre na primeira pessoa das desgraças, que se atravessa facilmente e com um sorriso nos lábios.

E contudo… Pegue-se num livro e aproximemo-lo da vista lentamente; as letras, a princípio definidas, é bem certo que à medida que mais próximas dos olhos, irão ganhando indefinição acabando numa desfocagem completa, isto é, numa cegueira. Isto para dizer que cegamos quando demasiado próximos das coisas – o amor é cego, diz de há muito o povo sempre cheio de razão. Talvez por isso mesmo Ricardo Adolfo, que sendo português de vivências e crescimento (embora nascido em Luanda) agora vive em Amesterdão, consegue tão bem dar-nos a ver o universo interior destas suas personagens, destes emigrantes portugueses fazendo pela vida a léguas e léguas do seu país. Em suma, a distância aclara, permite racionalizar, retira emotividade a qualquer apreciação. Isso são, porém, quinhentos. Outro tanto será saber até que ponto esse trabalho, que assenta meramente no domínio da linguagem, da tradução do oral à escrita, constitui matéria literária, ou se sim, se de monta. Quanto a nós, este registo de escrita de Ricardo Adolfo assemelha-se mais a empreitada de argumento cinematográfico do que propriamente a outra coisa. Colherá por via do seu ritmo junto de muitos leitores, mas em termos de substância oferece pouco. O que até, partindo do título, acaba por desiludir, tão-só porque nele se encerra uma ideia-chave que depois não encontra desenvolvimento de maior, a ideia de que partir, emigrar é morrer.

Uma outra dúvida poderá, de resto, e com lógica, assistir ao leitor: corresponderá esta fotografia do emigrante feita pelo autor à imagem real do emigrante português de hoje? Em muitos casos é bem provável que sim, que muitos dos nossos patrícios que hoje deixam as terrinhas no rectângulo à beira-mar em busca de outros sóis ainda levem consigo na bagagem umas morcelas e um rabo de bacalhau e que, em solo estrangeiro, se comportem com todos os seus lusos-vícios – ou, na visão do autor, como uns pategos. Porém, não menos verdade é que nos dias de hoje outros portugueses, de outra índole e géneros diversos, com outras posturas e objectivos bem distintos (do mero partir para trabalhar que nem cães com o sonho de um dia voltar e construir vivendas azulejadas), partem por esse mundo fora. Os primeiros já por demais glosados (e gozados), julgo que seria bem mais interessante (teria sido) romancear a nova gesta de emigrantes que hoje resolvem deixar Portugal. A matéria para ironizar é provável que não fosse menos produtiva e inspiradora, embora, desta feita, olhando não tanto às pessoas, aos indivíduos, aos que partem, antes ao país eternamente «feira-cabisbaixa» que fica para trás, abandonado, vazio dos seus melhores. A questão é muito simples: Ricardo Adolfo escalpeliza as mentes de dois emigrantes clássicos, mas que de verdadeiramente interessante retira ele, retiramos nós, desse exercício enquanto leitura de um Portugal de hoje? Estou em crer que muito pouco.

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~ por pedroteixeiraneves em Junho 9, 2010.

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