num obscuro recôndito de uma noite assim

sem que seja preciso anoitecer
ouço por vezes dizer a alguns
poetas dolentes
parecendo morrer com as palavras
que a poesia salva
a ela se agarrando como o mar
abraçado às rochas. eu
que por vezes também anoiteço
subscrevo ao invés que a poesia adia
a dor com que se escreve
“a poesia salva”. tenho pois e antes
para mim que a poesia mata tão certo
como viver se vive para morrer. se
ao menos a poesia por vezes
adormecesse
tão-só concedesse uma paz
podre que fosse mas verdadeira
libertando a alma desse choro por dentro
dando-lhe a escutar o silêncio
puro como um pensamento de criança
tão-só se isso ao menos. mas não
a poesia cansa diariamente
como as notícias de sempre
em formato deprimente
como quem se entrega
à angústia de um diário ou à obrigação
de comungar Jesus por ser domingo
sendo segunda e terça e sexta-feira
no coração. não
digo que a poesia não salva
a poesia põe-nos sozinhos
como se escrevêssemos em espelhos ou
como se tivéssemos encontrado deus
num obscuro recôndito
de uma noite assim.

ptn

~ por pedroteixeiraneves em Julho 4, 2010.

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