matilde rosa araújo – notas de uma tarde em que um júri reuniu em sua casa para atribuição de um prémio infantil com o seu nome

cheguei cedo
fui mesmo o primeiro a chegar
porque creio que queria ser o primeiro a chegar
àquela casa cuja porteira me recebeu
dizendo que a dona Matilde me esperava.
subimos então pelo silêncio único e singular
que só os prédios antigos de lisboa
sabem ter quando é domingo de uma tarde de verão.
mansamente a porta se abriu e por trás dela
uma presença de um azul plácido
sem interrogação ou espanto assim só sorriso franco
e uma delicadeza daquelas a desmanchar-se
toda em cuidados limpos. que entrasse. entrei.
a sala viva de memórias objectos fotografias
livros bibelôts o tempo por ali num lusco-fusco
que as cortinas descerravam permitindo a pouca luz
que nela se demorava nos seus gestos
já gastos e de quem já de nada precisava. sentou-se
então devagar na poltrona com o sempre sorriso
a convidar-me ao mesmo. conversámos. disse-lhe
“um dia, quando eu tinha dez, onze anos, foi visitar a minha escola”
clareando-lhe o olhar à surpresa. “quem diria?” – sorriu.
sorriu sempre enquanto já depois de todos chegarem
nos ouvia num frenesi quase infantil
dissertando sobre inúmeros textos recebidos
a concorrer ao prémio com o seu nome. sorriu
ainda quando as poucas palavras que disse
anuíram ao veredito.”por mim o que acharem está bem”.
mais do que as palavras que então disse
guardo como memória esse sorrir frágil e primeiro
de quem ao longo da vida aprendeu
a ler rios nas palavras
nos versos tropelias e brincadeiras
nos poemas palhaços e acrobatas
no dizer um acordar eternamente criança.
depois dissemos adeus.

~ por pedroteixeiraneves em Julho 6, 2010.

3 Respostas to “matilde rosa araújo – notas de uma tarde em que um júri reuniu em sua casa para atribuição de um prémio infantil com o seu nome”

  1. que belo modo de dizer da admiração e do respeito por uma senhora que partiu em viagem, mas deixou uma poltrona para nos sentarmos demoradamente a ler, ler, ler

  2. Bela homenagem, sim. Que toca todos os que, mesmo não tendo conhecido pessoalmente a “dona Matilde”, leram os seus textos aos dez, onze anos.

  3. …E QUE A MIM ME TOCOU MUITO. BONITO TEXTO!

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