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«Promessa»
Vergílio Ferreira
Quetzal, 279 pp.

Post Mortem, certos autores costumam revelar-se arcas sem fundo, suscitando sempre nos meios literários, a cada novo título revelado, grande curiosidade e expectativa. Não será o caso em apreço, o de Vergílio Ferreira, mas a verdade é que a edição ora havida de um seu romance inédito, justamente este «Promessa» em mãos, veio espicaçar muito interesse sobre o mesmo. Nada de anormal, ou não estivéssemos em presença de um dos grandes autores portugueses do século XX. Normal também pois tratando-se de um inédito, ainda para mais o primeiro romance dito de «ideias» escrito pelo autor de «Aparição», mais expectativas gerou o anúncio pela Quetzal desta edição. Uma edição cuidada, diga-se, e sobretudo, muito bem justificada por quem tomou a empresa a peito, Hélder Godinho e Fernanda Irene Fonseca. Justificada e cuidada porque, com o desaparecimento do autor e sem que de sua parte tenha restado alguma indicação expressa sobre a sua vontade, ou não, de publicação do romance, alguma polémica suscitaria sempre uma tal decisão. Socorrem-se os autores, contudo, e para desde logo explanarem de sua justiça sobre o assunto, do próprio Vergílio Ferreira, indo buscar-lhe, a um dos volumes de «Contra-Corrente», o seguinte excerto «caucionatório» vertido a epígrafe: «… se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele.» que é o mesmo que dizer, ou ler, quem cala consente! No mais, esclarece-se ainda a propósito, logo no início da introdução: «A decisão de o trazer a público não foi fácil de tomar, mas várias razões nos levaram a querer assumir essa responsabilidade». Bem escrito, bem feito! Aí está agora, já ao alcance do conhecimento público, «Promessa». Note-se, único romance inédito completo – pois, ao que nos é elucidado, um outro romance inédito existe, de sua graça «Dobrando o Cabo», mas que o escritor terá considerado «falhado» e incompleto.

Um livro muito interessante este «Promessa»; a saber porquê. O primeiro aspecto relevante é, obviamente, possibilitar-nos conhecer um pouco mais sobre as primícias romanescas de Vergílio Ferreira. Serve a presente edição, por conseguinte, para completar a perspectiva geral de uma longa cadeia de produção literária, conferindo-lhe talvez um dos seus elos principais. Se, por um lado, aqui logo se percebe e intui o Vergílio Ferreira futuro, com todas as suas preocupações filosóficas, por outro, mais nele se antevê o futuro autor de exímio domínio estilístico-narrativo. História de uma amizade conturbada, conflituosa, de difícil denominação ou categorização, o relato de Flávio na primeira pessoa, narrador omnisciente, destila não apenas os mundos ético-morais em confronto, dele e de Sérgio, como ao mesmo tempo se institui como pano de fundo perfeito para o pintar de uma época e de um tempo circunscritos. É por aí, nesse contexto epocal em que o romance foi escrito, que deverá o mesmo entender-se e melhor justificar-se.

Estava-se no pós-Segunda Guerra Mundial e a eclosão de um conflito global em tão larga escala e com tal violência, apenas poucas décadas decorridas sobre a Primeira Grande Guerra, de 1914-18, veio contribuir sobremaneira para o desenvolvimento de uma corrente filosófica que vinha ganhando terreno, o existencialismo, de resto, já fora de portas propugnado por diversos autores, entre os quais Camus ou Sartre, este, inclusive, que Vergílio viria a traduzir – nomeadamente o estudo «O Existencialismo é um Humanismo». O homem em torno das eternas questões da existência, da liberdade versus absoluto metafísico, da vida versus morte, da essência versus acção, eis os tópicos de reflexão catalisadores da escrita de Vergílio Ferreira, sobretudo a partir da publicação do romance «Mudança» (publicado em 1950) inaugurando aquilo a que alguns mais tarde viriam a referir-se como «romance problema», e logo aqui, neste «Promessa», plasmado na sua essência; ou seja, alguns anos antes de «Mudança», o autor passava a juntar às suas preocupações político-sociais as questões da consciência do ser humano, isto é, passava a reflectir o Homem no confronto com a sua perenidade sobre a Terra; como escreveria depois em «Aparição», debatia-se com «o espantoso milagre de estar vivo e o incrível absurdo da morte».

Diálogos longos e profundos (não ao alcance de qualquer leitor impreparado ou buscando na literatura conforto de linguagem estival), interessantes passagens filosóficas acerca do Belo, da Arte, do estar à vida ou, tão-só, sobre a Vida e a Morte (como entender o «eu» heggeliano, enquanto um «ser-para-a-morte» ou um «ser-para-o-nada»?), aqui se denuncia um autor já em busca de si mesmo, enquanto pessoa e enquanto escritor – não por acaso se diz na introdução estarmos ante um romance de «aprendizagem». Que sê-lo-á, mas apenas na medida correlativa da grandeza e maioridade futuras da obra de Vergílio Ferreira, porque, e a verdade é uma só, este é já um sólido romance que nada desmerece dos demais títulos do autor, longe portanto, e em meu entender, do «livro medíocre e precipitado», como ao mesmo Vergílio Ferreira chegou a referir-se.

Quanto à estrutura e à história que nos é contada, diria que, face às motivações supracitadas, estas passam para segundo plano. No início, Flávio propõe-se contar a história de Sérgio, mas rapidamente irá o leitor aperceber-se de que em mãos não teremos grande história, apenas um rubricado relacional entre duas personagens que, ao longo do livro, irão dirimir personalidades e modos distintos de entender o mundo. Flávio e Sérgio, aluno e professor. O primeiro, um pretenso activista, portanto ligado à acção, o segundo, um idealista, poço de angústias, dúvidas, hesitações, corpo do existencialismo. Incisivo, perscrutante, aqui e ali levemente poético, interessa particularmente ao escritor dar a conhecer o interior das suas personagens, sendo que tudo o mais em redor, o mundo físico, nada mais funciona senão como um palco em que aquelas evoluem.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser interessante constatar, apesar de estarmos ante um romance datado («Calcule que minha mulher esteve ontem duas horas na bicha do carvão»), alguma espantosa actualidade de certas passagens, como, por exemplo: «A questão está aí, na incompatibilidade actual dos valores materiais e intelectuais. Porque o dinheiro nunca serviu a inteligência. A inteligência é que tem servido o dinheiro. O que é preciso é inverter a hierarquia». Ou ainda: «Temos nós aqui um conflito entre o valor que socialmente se dá às coisas da inteligência e os meios práticos que se não dão para aguentar esse valor».

Romance, por fim, de ruptura, face ao legado neo-realista que o precedeu, sobre este «Promessa» (que teve como primeiro título «Sequência») interessa reter, em jeito de conclusão, que, de algum modo, condensa e antecede todas as preocupações literárias e futuras de Vergílio Ferreira, começando no auto-questionamento do Homem metafísico, a procura da autenticidade do Homem, a busca da razão do Ser, sobretudo no seu confronto com a inevitabilidade da morte, ou passando ainda, e como corolário, pelo questionamento de Deus. Em suma, Vergílio Ferreira como o conhecemos dos grandes romances que nos deixou, em concreto, «Manhã Submersa», «Aparição» ou «Alegria Breve», este último uma espécie de resposta final a muitos dos questionamentos e dúvidas que ao autor assaltaram ao longo da vida e obra

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 7, 2010.

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