ruy duarte de carvalho – onde o mundo se acrescenta

Ruy Duarte de Carvalho faleceu há dias. Tinha 69 anos, era um escritor, ponto. Excelente, de excelência. Como homem também, dizem os que de perto o conheceram. Eu apenas à distância (de quem respeita os grandes escritores) o vi, quando há dois, três anos compareceu ao convite que lhe fizeram para ir às Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim. Vi-o e fotografei-o — irei depois buscar uma ou outra imagem para partilhar a sua memória. Escritor exigente, de escrita exigente, escrita perscrutadora do mundo e do Homem, da terra e do além, deste e doutros mundos. Escrita desmedida, sopesada, inteligente, arguta, viva, vibrátil, pulsante de mundo andado – de andar e palmilhar se faziam as suas palavras, os seus livros que, pudessem, haveriam de, ao abrir-se as suas páginas, exalar um profundo cheiro a terra. Na verdade, RDC trabalhava as palavras como quem lavra o dizer, respeitando como poucos o solo que é o silêncio, sulcando-o de inteligência e mil cuidados. Talvez por isso dissessem a sua poesia difícil, que o era, aqui e ali, mas porque feita de uma busca de perfeição, de um querer a forma perfeita. «A forma, antes do mais. Eu ando a procurar dar à palavra a forma afeiçoada à forma da palavra, digamos sem receio que da palavra só conheço a forma, a construção…», escreveu em «Lavra». E sim, ao seu corpo deu a herança da palavra, pode agora «caminhar em frente e procurar o espelho de outras águas». De regente agrícola a administrador de fazendas, de criador de ovelhas caraculo a cineasta e antropólogo respeitado, de escritor neófito (com «Chão de Oferta», de 1972) a escritor logo, logo consagrado (com títulos como «Como se o mundo não tivesse leste», «Vou lá visitar pastores», «Os Papéis do Inglês» ou «Desmedida», sem esquecer a sua obra poética, reunida em «Lavra»), RDC, ao desaparecer, deixa efectivamente muito mais pobre a literatura angolana, mas também as literaturas africana e mundial. Mundial, digo bem, porque era o Homem no seu todo, o Homem Universal, o que o interessava, não o homem particular, não o local ou rural, como enganosamente os seus livros poderiam deixar transparecer. Filhas dos impulsos que nele eram sempre reflexo de profunda inteligência, as suas palavras modelavam-se ainda no barro da poesia e da refinada ironia. Para se perceber como assim era, leia-se por exemplo o que sobre a poesia disse numa entrevista que em 1992 concedeu a José Eduardo Agualusa para a revista «Ler»: «Procuro a simplificação máxima. Aquilo que não pode ser dito com mais nem com menos palavras. A poesia é isso. É eleger a forma única para dar notícia de uma experiência única. E é aí que eu creio que o mundo se acrescenta.» Ou, como jocosamente e com grande argúcia, escreve na primeira narrativa de «Como se o mundo não tivesse leste»: «R vinha com o Gabriel dos lados do “Wine Bar”. Com eles uma australiana, de bom aspecto como todas as australianas, mesmo as mais feias, que são, como se sabe, uma espécie muito particular de inglesas melhoradas pelo sol e pelo sul.»

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 18, 2010.

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