histórias fulminantes

Lembrou-se, claro está, de Gregor Samsa. Apesar de tudo, acalmou-se; detestava insectos. Sentiu, primeiro, uma estranha comichão, a que não ligou. Estava ainda no torpor das primeiras horas da manhã, mas quando levou a mão à barriga para se coçar, apanhou um enorme susto. Levantou-se e retirou a camisa do pijama, olhando estarrecido para baixo. Sonhar estava fora de causa, tinha-se beliscado já por diversas vezes, tinha-o confirmado em frente ao espelho. A princípio, pôs a barriga para diante, como uma criança que quisesse fazer de gordo para gáudio familiar. Depois, como nada de mais acontecesse, foi-se acalmando aos poucos. Um braço, um pequeno braço tinha-lhe nascido, da noite para o dia, pelo umbigo. E agora, que faria ele com aquele terceiro braço? Ser-lhe-ia útil, poderia torná-lo em algo útil? Sobretudo ali, na barriga? Vestir-se seria certamente um problema, como logo tratou de aferir pondo uma camisa… Vagueou por casa durante horas. Telefonou para o trabalho dizendo não ir, a desculpar-se com uma indisposição. Por volta da hora do almoço, percebeu que o braço era algo infantil; queria brincadeira; fez-lhe cócegas durante largos momentos. Ria-se sem vontade, mas como obstar? Até que tentou domá-lo, ameaçando-o com uma corda; «Amarro-te!» A mão acalmou. Quando mais tarde voltou a fazer-lhe cócegas, ele, furioso, prendeu-a à volta do corpo. O pequeno braço barafustou, tentando libertar-se. Com os dias o braço cresceu, tornou-se mais musculado e ganhou alguns pêlos. A relação com o seu corpo era difícil, cada vez mais. O homem pusera baixa, mas em breve teria de resolver a situação, um dia teria de regressar ao trabalho, à vida normal. Até porque nunca chegara a descortinar um qualquer uso a dar àquele terceiro braço. Por uma vez, ao pensar nisso, deu consigo a pensar que Deus pensara bem a sua Obra — dois braços eram suficientes; a um homem que perca um braço o que sobeja não lhe chega, já um terceiro braço é obviamente demais para um só homem… A relação ia-se deteriorando, o braço não dava tréguas ao homem; ora o beliscava, ora lhe fazia cócegas, ora mesmo lhe dava um valente apertão quando ele dormia. O homem decidiu-se a resolver o assunto. Começou por propor ao braço um braço-de-ferro com um dos seus braços originais. Das primeiras vezes deixou que o terceiro braço lhe ganhasse com algum à-vontade. Aí à sétima vez, quando o terceiro braço estava já confiante nas suas qualidades, o homem contrapôs-lhe a sua força e nesse exacto momento, fazendo deslizar o terceiro braço para o lado, com a outra mão sacou de uma faca japonesa de aço e desferiu o golpe. O homem gritou, pois apesar de golpear o seu adversário era a ele mesmo que inflingia a dor. O terceiro braço caiu para o chão, com os dedos retesados da força que naquele momento fazia. Olhando a poça de sangue, o homem pensou então no que fazer àquele despojo. Fosse um insecto, é certo que o deitaria para o lixo.

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 20, 2010.

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