histórias fulminantes

Como um estóico, resistiu durante longo tempo. Pensamento sobre pensamento, teoria sobre teoria, formulação sobre formulação, ideia sobre ideia, o desejo manteve acesa a sua chama aparentemente imorredoira. Mas tinham ficado para trás, como desejos perdidos de grandes voos literários, os tempos de juventude. E o Desejo esmoreceu. Certo dia, o Desejo cansou-se mesmo e reconheceu-o ante si. Para dizer a verdade, as suas ideias, formulações, teorias, pensamentos já não eram como antigamente. Eram ideias algo gastas, formulações algo espúrias, teorias algo duvidosas, pensamentos algo vagos, ou seja, sem original valor intrínseco. Viver com essa certeza era-lhe impossível. Na manhã em que acordou com essa certeza, na manhã desse dia, o Desejo decidiu apagar-se; e o homem acordou sem forças, trôpego, sem um sorriso nos lábios, destituído de vontade, despido de si — quando foi tirar o pijama para entrar na banheira e tomar um duche, as roupas caíram desamparadas num vazio que logo inundou a casa de silêncio.

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 21, 2010.

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