histórias fulminantes

Tinha-se sentado num banco do parque, apenas para ver passar o tempo. Passadas umas duas horas o tempo chegou.
— Vejo que está a passar o tempo.
— De facto.
— Por isso vim.
— Desculpe, não estou a reconhecê-lo.
— Não peça desculpas, é normal, quase ninguém me reconhece apesar de todos viverem comigo as vidas inteiras.
— É então você, o tempo! – engolindo em seco.
— Eu mesmo, em pessoa, isto é, em tempo.
— Ah… muito… prazer… espero. Mas… se é na verdade o tempo, passe, passe, faça favor, presumo que esteja de passagem…
— Obrigado, mas não vim para passar…
— Então?…
— … para ficar.
— Ficar?
— Sim. Ficar.
— Bom… por quanto tempo?
— Bem, para sempre.
— Deve haver algum engano. Repare, eu vim para ver passar o tempo. Ora, você, o tempo, chegou e para que tudo bata certo só tem de seguir adiante.
— Pois, mas já que estou de passagem…
— Ah, vê como se contradiz, acabou de dizer que vinha para ficar, afinal diz agora que está de passagem.
— Tem razão. Decidi ficar-me por aqui. Ao passar…
Nestas delongas o tempo recusava-se a passar.
— Insisto, deve ser engano. Faça o obséquio de passar.
— Obrigado, mas prefiro sentar-me consigo.
— Sentar-se comigo? Mas, não tem mais nada para fazer. Olhe, porque não aproveitar para passear, dar uma volta, desfrutar deste magnífico ar puro?
— É muito amável, mas não disponho de horas mortas.
— Como assim?
— Como assim como?! Sou o tempo, não disponho de horas mortas.
— Está a gozar comigo!
— Em absoluto, não! Bem… quer dizer, visto por esse prisma…
— Permita-me, o tempo só existe passando… Gostei muito de conversar consigo, mas por favor, agora passe bem. Isso do ficar para sempre, para o tempo não existe.
— Não brinque com coisas sérias. Olhe que eu não sou um passatempo.
— Desculpe? Agora confundiu-me.
— O que quero dizer-lhe é que o tempo não é um passatempo.
— Justamente, não tenho tempo a perder. Longe de mim brincar com o tempo.
— Isso é verdade.
— O quê?
— Que já não dispõe de tempo a perder.
— Então?
— Então?… Vamos?
— Mas eu vim ver o tempo passar…
— Ora essa, deixe-se disso; lembre-se, quando foi a última vez que publicou poesia? Vamos.

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 22, 2010.

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