oh, as cores!

O livro infantil, é sabido, é um dos sectores mais lucrativos do mundo editorial. Talvez por isso, entre nós, abundem as edições no género. Creio, porém, que se a fartura sobejaz escasseia alguma qualidade nas propostas que chegam às livrarias. Sobretudo ao nível do texto. Sem me alongar nestes considerandos, penso que alguns factores são essenciais na escrita de um texto infantil. Entre eles, o humor, a imaginação, a originalidade e a inteligência. Longe de tais pressupostos não deve andar o autor quando à escrita. Mas mais, tal texto deve igualmente possibilitar e pedir tudo isso ao pequeno leitor, ou seja, que apure o seu sentido de humor, que desenvolva a imaginação, que trabalhe os níveis de inteligência e singularidade das ideias. Ou seja, um livro deve ser minimamente exigente para ambos os pólos do acto comunicacional que é o livro. Tudo isto para? Para dizer de «Oh, as cores!», de Jorge Luján, título ora editado pela Kalandraka. Pouco exigente e elaborado no plano da linguagem e das ideias (um exemplo: «Castanho./ Um coco a boiar/ e ao longe um rochedo/ com um antílope a olhar.»), sem incentivo de maior no plano da sensorialidade, sem originalidade no jogo de rimas, sequer no plano polissémico, valem, por contraponto, as bonitas ilustrações a aguarela de Piet Grobler. No plano das cores, e neste domínio do livro, recordo, só para exemplo, alguns versos muito mais bem sucedidos de um autor português, João Pedro Mésseder, sem dúvida um dos grandes poetas e escritores para infância nos dias que correm. Leia-se, pois, o que escreveu em «De que cor é o desejo?», percebendo-se, no imediato, o muito mais elevado índice poético que das suas palavras se extrai, não deixando de se dirigir a uma mesma faixa etária: «– De que cor é a alegria? — Azul como um céu de aguarela./ — De que cor é o desejo? — Vermelho como um país recém-criado./ — De que cor é a saudade? — Lilás como um piano vagaroso./ — De que cor é a rosa do tempo? — Branca e negra, branca e negra.» Uma lição a concluir: por vezes, e por mais barato que saia às editoras a compra de produtos estrangeiros (em que muitas vezes se não têm que pagar trabalhos originais, sobretudo aos ilustradores), talvez seja melhor e mais eficaz apostar na qualidade nacional.

~ por pedroteixeiraneves em Agosto 24, 2010.

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