«o bazar alemão», helena marques – ptneves no www.pnetliteratura.pt

«O Bazar Alemão»
De Helena Marques
Dom Quixote, 218 pp.

Helena Marques, jornalista, escritora a tempo inteiro desde meados de 1993, deu-se a conhecer na ficção portuguesa quando lançou o romance «O Último Cais», em 1992. Embora lisboeta de nascimento (Carcavelos, 1935), as suas raízes familiares encontram-se na Madeira, ilha onde viveu até 1971, altura em que se mudou para Lisboa. A Madeira que, de resto, se tem revelado presença constante na sua obra ficcional. A autora volta agora aos escaparates livreiros com a edição deste seu novo romance, «O Bazar Alemão», e, uma vez mais, a regra se confirma, ou seja, a “ilha jardim”, vulgo “pérola do Atlântico”, volta a instituir-se como palco privilegiado da sua narrativa, igualmente enquanto pano de fundo de um desenovelar de memórias e afectos que se denotam, aqui e ali, de perfil autobiográfico.

O ponto de partida para este romance é um facto que a autora desencantou nos anais históricos menos conhecidos do grande público. Tudo se passa no período pré-II Guerra Mundial quando a sanha nazi alastrava galopante, qual epidemia, pela Europa. Portugal, é sabido, declarou-se neutral no conflito – embora hipócrita e falsamente, como se sabe. Manteve-se, por isso, e apesar de tudo, relativamente à margem das manobras expansionistas do III Reich. Tanto assim foi que muitos judeus perseguidos rumaram ao nosso país em busca de alguma segurança ou, noutros casos, para, a partir daqui, darem o salto para o além-mar, onde, sim, sabiam, por certo, que a peçonha hitleriana não os alcançaria ou dificilmente lhes lançaria a sua pata. Neste contexto, e transpondo-nos do território português continental para o espaço geográfico da ilha da Madeira, por certo poucos imaginariam que esse remoto ponto geográfico perdido no meio do oceano Atlântico poderia vir a ser toldado pela sombra assassina e persecutória dos alemães. E, porém, porém foi isso mesmo que aconteceu…

Helena Marques elucida, logo a abrir, em nota prévia: «A “Lei da Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã”, promulgada pelo III Reich em Setembro de 1935, despertou múltiplos zelos persecutórios na Alemanha, como é sobejamente conhecido, mas também, e por mais extraordinário que apreça, em núcleos alemães fixados no estrangeiro. A Madeira não foi excepção. Elementos da comunidade alemã de origem hebraica, alguns deles longamente estabelecidos e integrados na vida local, viram-se confrontados com insistentes tentativas de discriminação, exercidas não só através de pressões e chantagens directas, mas também de cartas de denúncia anti-semita enviadas aos serviços centrais da Gestapo em Berlim, com imediatas repercussões sobre o Consulado Alemão no Funchal e sobre a vida pessoal e profissional dos cidadãos denunciados.» Mais acrescenta: «Na época, nenhuma informação passou para a opinião pública». Na época, nem depois, atrevo-me a dizer; donde, desde já, o interesse que este romance, no meu caso pessoal, logo inspirou – o mesmo, julgo, terá acontecido a Helena Marques quando soube do caso, em 1999, segundo nos revela, ao tomar contacto com uma investigação sobre o assunto levada a cabo por Anne Martina Emonts, professora do departamento de Estudos Alemães da Universidade da Madeira.

Em suma, temos a história (desconhecida) a servir de catalisador da escrita ficcional. Uma história, diria, num primeiro plano de apreciação, que de algum modo subverte o lugar-comum que se tem das ilhas enquanto lugares da distância, do alheamento, do longínquo, cujas vidas decorrem numa espécie de mundo e tempo paralelos, desconectados dos ritmos da História. Mas que subverte igualmente essoutra ideia das ilhas enquanto redutos últimos de liberdade, porque, justamente, “longe da civilização” e das suas regras, das suas maravilhas e seus infernos – para o bem e para o mal. Locais ainda, por essência, emocionais (recorde-se, por exemplo, Ulisses, no Canto V da “Odisseia”, interrogando continuamente o horizonte com lágrimas nos olhos: “E com os olhos cheios de lágrimas fitava o mar nunca vindimado…”), elas conformam, ou têm conformado, ao longo da história da literatura (e da mitologia) os lugares da Utopia, lugares da redenção ou da salvação, na medida em que se confundem com ideias de pureza, ou virgindade original. Ora, este «O Bazar Alemão», de Helena Marques, será a excepção a confirmar uma hipotética regra. Paradisíaca, sim, libertária, também, não foi por isso que a Madeira escapou às diatribes nazis e do vil nacional-socialismo.

Estamos, por conseguinte, perante matéria com foros dramáticos. Para a expor, em toda a sua multiplicidade de factos e consequências, Helena Marques faz uso de um subterfúgio ficcional bastante comum ou, se quiserem, clássico: isto é, organiza a narrativa de modo a estatuir e diferenciar muito bem os planos do Bem e do Mal, ou seja, por um lado, desenvolve uma apresentação postal da ilha, enquanto local idílico, lugar prazenteiro e desde sempre acolhedor do estrangeiro, do Outro (ou não vivesse com ele desde sempre), para depois, e por outro lado, confrontar o leitor com a malvadez e perfídia dos arautos das teorias hitlerianas da raça pura e afins dislates. O mecanismo, deve dizer-se, funciona, num suave e cálido sobe e desce emocional que mais e mais nos leva a desejar ver como o mal se instila na vida das personagens e até onde consegue levar a sua avante. Um senão: os quadros parecem-nos demasiado desenhados à medida dos interesses da narradora, sobretudo no que respeita à descrição da Madeira, esta apenas a Madeira faustosa e bonitinha, ou seja, vertendo tão-somente as vivências de uma camada social média-elevada.

História que agrega várias histórias, de várias famílias – ou de casais, para ser mais exacto –, desde Miriam e Izaac a Miguel e Catherine, passando por Elizabeth e Eugen, ao longo das páginas vão-se desvelando as suas estórias de encontro e amor, intercalando-se com os relatos, aqui de índole mais jornalística e histórica (por vezes parecendo-nos demasiado pedagógica e, aqui e ali, algo repetitiva no enunciar dos factos), dos sucessos políticos pré-conflito que iam decorrendo no Velho Continente. Pelo meio, as malvadezas dos Bromberger, estes parte de um todo (germânico) que de algum modo se diaboliza por oposição ou contraposição aos anglófonos residentes na ilha. Escrita escorreita, sem, contudo, sobressaltos ou predicados estilísticos de maior, escusado seria algum tom lamechas e meloso, sobretudo no modo como se caracterizam e enunciam as personagens femininas, mimoseadas com epítetos tais que «rainhas» e presumindo-se, ou fazendo-se presumir, guardiãs maiores de todas as virtudes, de beleza e moral. Um exemplo, na primeira pessoa de uma personagem, em tom dolente e com pinceladas de mártir: «Que posso eu fazer?, interroga-se Katherine. Nada. Resta-me apenas continuar a resistir às intrigas e permanecer dentro dos limites que a mim própria tracei: guardar lealdade à terra que me acolheu num momento difícil da minha vida, e à empresa que me dá trabalho, respeito profissional e um bom salário.»

A terminar, dois tópicos. Um, editorial: julgo inconcebível que ninguém tenha notado, na página 142, a repetição, no início dos dois primeiros parágrafos, da frase: «Nessa noite de insónia, tomaram diversas decisões, das quais a primeira foi a de partirem juntos…» O termo «das quais», apesar de duvidoso, ainda passa, mas uma qualquer revisão atenta evitaria o atentado da repetição de texto! No mais, e neste plano, uma revisão mais empenhada poderia também ter ajudado, entre outras minudências, à simplificação de algumas passagens ou frases mais longas e intrincadas – um só exemplo, na página 136, desde «Miriam apressou-se a concordar…» até ao seu final, em «… e não Lissabon.» Por último, e voltando ao livro em si, faço notar o tom de esperança que o seu final encerra, metaforizado na consumação do casamento entre Elizabeth e Eugen, realizado por mera troca de votos de fidelidade e amor ante testemunhas, mesmo que não oficiado por padre e oficializado pela Igreja; ou seja, a ideia de que, contra tudo e contra todos, o amor (logo, o Bem) pode vencer. Histórias de amor entre rastilhos de guerra, eis a síntese deste «O Bazar Alemão». Creio que Helena Marques pode fazer bem melhor

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 9, 2010.

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