os silêncios de alcácer-quibir

O silêncio e o tempo como terapias para as feridas. Ou como rasuras para os assaltos da memória. Ou ainda como esquecimento, aquele que, diria Hector Abad Faciolince, seremos sempre. Converso com Francisco Manso, realizador de «Assalto ao Santa Maria» (que alguém, de roda político-cultural, menos avisado sobre a história recente portuguesa, terá entendido como uma qualquer visita dos amigos do alheio ao homónimo hospital alfacinha…), e em conjunto não chegamos a perceber porque os portugueses, e os criadores artísticos, em particular, trabalham tão pouco sobre a História portuguesa, leia-se sobre as suas feridas. No caso concreto, a Guerra Colonial. Ou seja, porque se estende, de alguma forma, o silêncio daqueles que fizeram ou testemunharam essas feridas ao todo populacional? Porque não se fala, não se debate, não se escreve, não se questiona, não se pinta, não se filma? Porquê o silêncio? E, sim, claro, o exemplo dos norte-americanos, que ainda a Guerra do Vietnam não tinha terminado e já estava nos écrans da Sétima. E muitos outros exemplos possíveis. E nós?… Silêncio, silêncio sobre silêncio, num contínuo surdo de silêncios a vir. Vou para casa. Leio o mais recente romance de Catherine Clément, «Dez Mil Guitarras» (Porto Editora), um magnífico relato-aproximação ficcionado à Batalha dos Três Reis, à vida de D. Sebastião, ao mito do Desejado depois tornado Encoberto, à fantástica vida e personagem que foi Rodolfo II da Áustria, sobrinho de Filipe II, depois I de Portugal, após o desastre de Alcácer-Quibir, e ainda sobre a vida da excêntrica (e peluda) rainha Cristina da Suécia. A leitura leva-me a um outro livro, que servira de fonte à autora francesa e que há muitos anos tinha numa prateleira, «Fábulas da Memória», de Lucette Valensi (Edições Asa), certamente um dos melhores livros sobre a batalha de 4 de Agosto de 1578. Pego nele, leio ao acaso, em complemento à leitura do romance. E pasmo: «Os portugueses põem então luto e cerram-se de silêncio. Tudo com efeito indica que, durante longo tempo, a sua desgraça lhes esteve constantemente presente no espírito, mas que tiveram a maior das dificuldades em falar dela em público. Assim, durante mais de vinte anos, todas as relações acerca da batalha foram impressas em línguas estrangeiras.» Ou seja, conclui, «Silêncio de alguns, acompanhado pelo recalcamento do sucesso traumático; a realidade intolerável torna-se assim inefável.» Realidades intoleráveis… Assim também a realidade da Guerra Colonial, assim ainda hoje… traumática e intolerável. Talvez daí o silêncio, talvez daí esta quase desmemória ou memória rasurada. Mudo de livro, para descontrair ponho-me às páginas do novo romance de Rubem Fonseca, «O Seminarista» (Sextante). Avanço a bom ritmo na certeza de uma realidade ficcionada completamente antagónica. Sigo as peripécias de vida de um matador profissional que às tantas decide reformar-se. Em vão, o passado persegue-o, tal como a herança genética do silêncio português. Às tantas, o seminarista de serviço, depois de se apaixonar, confessa à sua bela alemã o seu nome, que ele próprio forjara para si: José Joaquim Kibir… !!! — eu incrédulo. Nem mais, Kibir, como homenagem aos antepassados lusos, um deles combatente nas fileiras de Alcácer-Quibir. Sorrio e termino o livro em silêncio.

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 21, 2010.

Uma resposta to “os silêncios de alcácer-quibir”

  1. De facto tem alguma razão. Mas como sabe, a guerra no seu tempo, era um tabú. Era proibido falar dela. Só os familiares dos muitos milhares que para lá foram é que sentiram na pele e no sangue e choraram muitas lágrimas especialmente por aqules que não vieram ou vieram estropiados. Depois do 25 de Abril, quando se pensava que todas as portas se abriam, isso também não passou de um desejo. Veja por exemplo um navio o ANGOCHE que um dia transportando armas pesadas de Lourenço Marques para o Norte de Moçambique foi encontrado à deriva sem os seus 20 tripulantes. Para onde foram? Quem os levor? Nunca ninguém chegou a saber. É estranho, não é? Vá l´´a que há alguns Blogues, como a TABANCA DA GUINÉ que tem feito muita história e também o Joaquim Furtado consegiui fazer alguma coisa para Televisão. Mas há muitop para falar, há muito para contar e há muito para pensar. Até os sucessivos governos se têm esquecido daquelas centenas de meilhar que para lá foram obrigados. Alguns têm um complemento de reforma que está longe de chegar a 1€ (UM EURO) por dia. Não é uma pouca vergonha?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: