josé eduardo agualusa – «milagrário pessoal» ptneves no www.pnetliteratura.pt

José Eduardo Agualusa
«Milagrário Pessoal»
Dom Quixote, 182 pp.

Autor de livros magníficos, em cujos enredos se entretecem múltiplos géneros narrativos, da ficção pura à crónica, passando por vertentes historiográficas, sociológicas, antropológicas, acrescidos sempre de uma forte dose de crítica social, servidos ainda por uma saudável fatia humorística, aqui e ali de maior ou menor pendor cáustico, José Eduardo Agualusa, andarilho do mundo, como já lhe chamaram, é, sobretudo, e quanto a mim, um genial contador de histórias. Escritor “moderno”, detentor de uma escrita viçosa, pungente, atenta, acutilante, rica, poética e culta, por detrás desta tessitura técnica denota-se sempre um mesmo ímpeto: a vontade de partilhar estórias. Mas mais, também um óbvio culto pela língua portuguesa. Atenção, culto não subsumido unicamente ao português-Língua-de-Camões, ponto, antes devotado aos muitos “portugais” linguísticos de que a matriz original da língua se impregna e que ao longo dos séculos foi indo beber a diversificados azimutes.

Para José Eduardo Agualusa – e este parece-me um dos principais tópicos de leitura a retirar deste seu novo romance, «Milagrário Pessoal» – a Língua é um tesouro. Um tesouro guardado não numa arca estanque dos povos que dele fazem uso (portanto, que falam essa Língua, o português), antes um tesouro que na sua diversidade geográfica e crescimento contínuo mais se enriquece e inflaciona. Em suma: a identidade da língua é múltipla, e tal facto não representa senão um acrescento, jamais uma subtracção. A língua é elástica, corpo vivo que se alimenta do tempo e dos tempos. A língua é uma contínua viagem de navegação por mares a cada dia nunca antes vistos ou adentrados. A teoria não é nossa, embora a partilhemos; leia-se, para exemplo, a páginas 32: «Escreve Moisés da Conceição que a língua portuguesa, sendo já africana na sua matriz, pelo demorado convívio pelo árabe, que muito a contaminou, necessita de enegrecer ainda mais, afeiçoando-se à geografia dos lugares onde estão os seus abundosos falantes. O nosso destino é o de nos engolirmos uns aos outros…» Resumindo, é pois, de algum modo, esta a temática-tese de fundo onde se inscreve a tinta ficcional deste romance. Crítica velada ao acordo ortográfico? Porque não entreler desse modo?…

Mas vamos então à história, ou melhor às muitas estórias que nascem e voam neste livro. Estórias muitas que bebem directamente na tradição oral dos povos africanos e que depois se multiplicam e espalham pelo mundo num imparável arregimentar de novas estórias, num constante reinventar e dizer que no seu emaranhado trazem um novelo infindo de personagens. Para início, uma hipótese: e se algures, resgatada da memória do tempo, existisse prova fidedigna da existência de uma linguagem dos pássaros? E se alguém guardasse as evidências dessa linguagem primitiva, primordial, inaugural? Um velho professor é bem capaz de acreditar que sim, não por acreditar em milagres (que acredita, até deles exaura um diário pessoal), talvez por desígnios e desejos outros, talvez por amor à beleza de uma tal ideia, talvez por amor ao sonho, talvez por amor de uma mulher. Bela, claro. Com um nome também ele belo, Iara. Por acaso, sua aluna. Por acaso bela e, ainda por acaso, empenhada e interessada em caçar todos e quantos neologismos lhe tropecem ao caminho.

Não contei, não pretendo, mas até gostaria de saber quantas histórias se escondem nesta história. Reporto antes, tentando passar ao leitor o prazer imenso de leitura destas páginas, que a riqueza deste texto é surpreendente. Cativante, sobretudo, porque nos prende do princípio ao fim, porque nos dá a conhecer personagens de sonho e maravilha, porque a cada momento subverte as nossas expectativas, fazendo-nos viajar, não só geograficamente, triangulando entre Portugal, Brasil e África (Angola), como também entre real e ficção, palpável quotidiano e etérea magia. Fadário da Luz do Espírito Santo, Magda-a-Meiga, Plácido Domingo, Alexandre Anhanguera, Júlio Branquinho, o Quitubia, entre muitas outras, são algumas dessas personagens, prenhes de aventuras e vidas cheias de cor, que a todo o instante recortam imaginários e acontecimentos que não raro se inscrevem na ordem do fantástico. E, em fundo, correndo, agora já num confluir de almas, o velho professor e a sua aluna, atravessando o Atlântico em busca de palavras perdidas, palavras que teriam sido roubadas à primeva língua dos pássaros.

Neste quadro ficcional, José Eduardo Agualusa encontra ainda espaço para rubricar uma das imagens de marca da sua escrita, a de escritor que encontra ainda no livro uma função hoje em muito perdida: a de crítica social. É assim que, a lapsos, encontramos diversas e curiosas menções à actualidade histórico-social dos países que Agualusa tão bem conhece, porque neles tem vivido e trabalhado, trate-se de Portugal, de Angola ou do Brasil. Portugal, que, lê-se, apesar de gostar de dizer mal de si próprio, terá progredido imenso nos últimos 30 anos (sobretudo no plano da oferta cultural), Angola, que vive ainda ensombrada por décadas de lutas supostamente de “libertação” (conceito aqui negado com interessante defesa teórica) e em que o capitalismo selvagem avança, ou o Brasil, por fim, cujo crescimento galopante na actualidade em muito se ficará devendo à paz, esta, por seu turno, catalisadora de uma efervescência cultural como nunca antes vista.

Por último, há igualmente nestas páginas muito humor, muito gozo privado, bem destilado e decantado, sem, como já referi, desprezar um crivo crítico por vezes incisivo, de resto, como se quer e pede a um escritor que nunca revelou ter medo de dizer o que pensa – e basta, a este propósito, lembrar a polémica e os problemas que lhe trouxe a afirmação, em tempos não há muito idos, de que Agostinho Neto era um poeta sofrível. Mas um exemplo, colhido a este «Milagrário Pessoal», assim em jeito de convite final a um livro de puro prazer de leitura, que só por si, volto a frisar, faz mais pela língua portuguesa do que meia-dúzia de cimeiras de uma CPLP zombie: «Há poucas semanas o meu telefone tocou e do outro lado uma voz afectada anunciou que o senhor ministro da Cultura de Angola pretendia falar comigo. Disse-lhe para passar a chamada ao senhor ministro da Cultura, quem quer que ele fosse, pois fazia sol e eu acordara muito bem humorado. A secretária passou a chamada ao senhor ministro, o qual, com voz ainda mais afectada do que a dela, um sotaque lisboeta irrepreensível, me informou que o governo angolano pretendia atribuir-me uma condecoração pelos serviços prestados À cultura nacional. Agradeci. Creio que até me levantei. Fiz uma pequena vénia. Obrigado, excelência, disse-lhe. Fico muito comovido. Então aceita a medalha?! Não, excelência. Pode engoli-la. Engula-a com capim. Asseguram-me que o capim é muito saudável. Está na moda. Eu mesmo já provei, no Rio de Janeiro, suco de clorofila, e achei bom.»

~ por pedroteixeiraneves em Outubro 11, 2010.

Uma resposta to “josé eduardo agualusa – «milagrário pessoal» ptneves no www.pnetliteratura.pt”

  1. interessante, também amante das letras não conhecia esta figura obtusa, josé eduardo agualusa, conhecerei agora, impulsionado por ti, valha-me amigo! abrá pantanoso, visite nosso blog tb

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