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A Boneca de Kokoschka
De Afonso Cruz
Quetzal, 241 pp.

Ideias. Que a literatura contemporânea portuguesa se encontra cheia de palavras, que se enchem páginas e páginas de literatura «gasta», que os chamados «tijolos» literários continuam na moda, que editar um livro já foi métier mais exigente, tudo isso já o sabíamos, tudo isso o sabemos e confirmamos olhando para o panorama editorial português. Papel, papel, papel. Quanto a ideias no papel… poucas. Por aí se explica o óbvio: que um Gonçalo M. Tavares seja o grande autor português entre os «novos», a grande voz autoral do amanhã luso-literário. É quase regra, nestas coisas da crítica literária, evitar as comparações. Donde que muitos, concedo, neste ponto estarão já a colocar-se a pergunta sobre se não se teria o crítico enganado, uma vez que, afiança-o a capa do livro aqui ao lado reproduzida, seria sobre outro autor que deveríamos estar a discorrer. Na verdade, estamos. A menção a Gonçalo M. Tavares serve apenas para contextualizar o âmbito desta proposta romanesca de Afonso Cruz.

Um passo atrás, para uma correcta fotografia do autor. Alguém ter-lhe-á chamado um «homem da Renascença». De forma mais chã, o povo di-lo-ia um «homem dos sete instrumentos». Acaba por sê-lo, mas tal só constituirá novidade de maior num país onde a “multicriatividade” de um artista nem sempre é bem vista. Pois bem, conste que Afonso Cruz, nascido nos idos de 71, na Figueira da Foz, é escritor, ilustrador, músico (The Soaked Lamb) e também realizador de filmes de animação. No mais, celebra também a arte de produzir cerveja em casa, bem como manter uma horta e um olival. Nos dias de hoje, uma incomensurável mais-valia! Na literatura, vertente que aqui nos importa, Afonso Cruz editou em 2008 o seu primeiro romance, «A Carne de Deus – Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites», e, em 2009, «Enciclopédia da História Universal», livro ao qual foi outorgado o Prémio Literário Camilo Castelo Branco.

Agora sim, a sinapse com o universo de Gonçalo M. Tavares e o seu porquê. As ideias, antes do mais as ideias, as ideias expressas num modo muito peculiar e insólito de ver, percepcionar, sentir e medir o pulso do mundo. O mundo nos seus contornos globais, mas também nos pequenos quês do real quotidiano. E desse mesmo modo a sua singular maneira de nos dar a ver a nós próprios, portanto de despir em palavras o Homem, o Ser Humano, nós. Imaginativo, irónico, intuitivo, este romance de Afonso Cruz é uma espécie de puzzle sobre a vida e o ser humano. Ao mesmo tempo, uma intrincada rede de histórias que no espaço e no tempo confluem e interagem mediante diversos pontos de contacto, organizando-se, desfazendo-se e reorganizando-se a todo o instante e ao longo da narrativa. De algum modo, aquilo que este romance mais nos faz recordar são os quadros de Escher, com a sua tridimensionalidade, as suas espirais que a um só tempo parecem subir e descer, indo sempre parar ao mesmo sítio, divergindo e convergindo a um só tempo – no caso, a várias vozes; as das personagens que aqui o autor nos apresenta, todas elas cheias de mundos dentro de si mesmas, tal qual as personagens que Mathias Popa encena e cria, não como suas personagens, mas personagens de personagens. A trama é, na realidade, algo labiríntica, contribuindo sobremaneira para isso um certo pendor experimental que assiste ao livro, e só final temos a percepção exacta do todo e do modo como as suas muitas partes se interligam.

Mas, as ideias, ainda. O que apraz e colhe na escrita de Afonso Cruz é justamente essa capacidade de a todo o instante nos levar a reflectir, a pensar no que nos é relatado, sobretudo a pensar nos muitos diferentes ângulos com que o autor vai reflectindo os factos que narra, no fundo a história que vai desfiando. Como se pode ler a páginas 237: « Os meus ângulos são todos ângulos. Um quadro dos meus tem todas as perspectivas. Também inclui as fantasias. E até o inimaginável. É do inimaginável que se faz a arte.» No fundo, uma forma, ou formas outras, de tentar explicar o mundo, mesmo que se saiba o quão difícil isso é. Num outro passo do livro, mais atrás, a páginas 95, uma outra passagem que nos revela a essência deste «A Boneca de Kokoschka», quando Mathias Popa fala sobre o livro novo que está a escrever:

« Estou a escrever um livro novo.

É sobre o quê – perguntou Isaac Dresner.

Sei lá. Sobre o amor ou sobre o ódio, a condição humana, essas coisas. Do que é que tratam os livros?»

Disso tudo, justamente, tal como acontece neste livro que vai muito mais além da história que vem referida na contracapa: «O pintor Oskar Kokoscha estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía quais as rugas da pele que ele achava imprescindíveis . Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e foi para o lixo.» Ora bem, este será o pecadilho maior e talvez único deste livro – esta sinopse é demasiado redutora para a riqueza do seu conteúdo.

Denso quanto baste, com quanto baste idem aspas de filosófico, aqui se recortam personagens de pendor fantasioso, embora isso nem seja de muito espantar atendo-nos ao facto de que o mundo, muitas vezes, se mostra, nesse domínio, muito mais prolífico do que um congresso de escritores de ficção científica bem bebidos. Prova disso, o pano de fundo em que se desenrola este romance e o seu primeiro episódio: o assassinato a sangue gélido de um amigo de Isaac Dresner por um soldado nazi. O nazismo e a exterminação judaica, sombra fantasiosa de um mundo mais próximo do tempo do homem das cavernas, “programa” a todos os títulos inominável e impensável. E, no entanto, aconteceu. Outras “ideias”… Como diria alguém, «uma grande mentira, é o que nós somos»… Em suma, mais do que uma confirmação, Afonso Cruz devém aqui uma exigência para quem deseje, desde já, não perder o rumo ao futuro das letras nacionais.

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~ por pedroteixeiraneves em Novembro 9, 2010.

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