novas cartas portuguesas – dizer de urgência

Reedição meritória das «Novas Cartas Portuguesas», das chamadas Três Marias. Edita a Dom Quixote, três décadas e picos sobre a sua prímeva edição. Feminismo, feministas, ao demo tais conceitos. Poesia, assinada por mulheres, sim, ou antes, e um repto: a que a sociedade tirasse as vendas fascizóides que durante décadas, séculos, a cegaram, cegueira essa agravada no pós-1926. Claro, como não, pura coragem do verbo e da mão, afrontando o caduco discurso dominante na diminuta cabeça salazarenta: «Defendemos que o trabalho da mulher casada e geralmente até o da mulher solteira, integrada na família e sem a responsabilidade da mesma, não deve ser fomentado: nunca houve nenhuma dona de casa que não tivesse imenso que fazer.» (Oliveira Salazar, in “Discursos 1928-1934”, Coimbra Editora, 1935, citado em “Dança dos Demónios”, por Ana Vicente, Temas e Debates, 2009). Coisa linda…, assim a reboque de pérolas como esta, da (des)graça de um tal Eurico de Seabra, em “Cartas a Mulheres”, Livraria Ferreira, 1916, ora leiam: «Já ouvi dizer que havia sufragistas e feministas bonitas. Tu acreditas? Eu, por mim, não acredito. Deve ser boutade dos jornais. O sufragismo e o feminismo, como doenças da alma, atacam e pervertem as feições.» Adiante. E hoje, melhorou o panorama? A caminho, a caminho… ainda há coisa de ano e picos se andava a discutir (com histeria inquisitorial e anquilosada massa cinzenta…) se a mulher tinha ou não o direito a abortar, e ainda há quem não tenha descansado sobre o assunto. Só de pensar que em França o último guilhotinamento público de uma mulher condenada por ajudar a fazer abortos remonta somente a 1943, dá arrepios! (sobre Marie Louise Giraud, de resto, pode ver-se o belo filme, já em DVD, de Claude Chabrol, «Uma Questão de Mulheres» — que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 1989). Voltemos ao livro, às Novas cartas Portuguesas ora reeditadas, que recomendo. Trazem: um pré-prefácio de Maria de Lourdes Pintassilgo, uma excelente e esclarecida introdução de Ana Luísa Amaral. E trazem belas palavras: «Que o cavaleiro erre/ tanto como a tua loucura», que as cavaleiras errem também! E, sim, porque não?, chamem-se “poeta[s] para governo da cidade.» Chamem-se poetisas!

~ por pedroteixeiraneves em Novembro 16, 2010.

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