ptneves no www.pnetliteratura.pt – ernestina

«Ernestina»
J. Rentes de Carvalho
Quetzal, 317 páginas

Falhos de uma concreta e definida geografia da diáspora luso-literária, surpreende-nos, de quando em quando, o mercado editorial com nome vindo-sabe-se-lá-donde, assinando apelidos luso-descendentes. Isto, note-se, coisa somente para os mais desatentos, ou leitores costumeiros de literaturas “pingadas” e tiradas a ferros de marketing para os escaparates nacionais, arregimentando-se a literatura só a custo de muita ignorância vigente ou à força de querer grupo-editorial, que é lodo em que o universo-adro que nós toca se vai transformando. Pois bem, isto para dizer de certo autor português cujo nome parece ter caído de nenhures no panorama literário-nosso-de-todos-os-dias, subitamente compartindo espaço nas estantes livreiras reservadas à literatura portuguesa: J. Rentes de Carvalho. Que diabo, inquietar-se-á o desprevenido amante de livros. Rentes de quê?! Novato? Neófito? Promessa futura? Graça, diria O’Neill, a cair como «percevejo num lençol», assim muitos julgarão, olhando as capas, o nome desconhecido; cometa! Adiante.
Que nunca Portugal viu com bons olhos aqueles que largaram a pátria amada a conhecer e trabalhar sob outros sóis, há muito o sabemos. Não se estranhe pois a desdita deste português errante, J. Rentes de Carvalho, nascido em Vila Nova de Gaia nos idos de 1930. Outros tempos, outras coutadas. Sintetizemos, a bem da contextualização e fluidez da prosa. A saber: que logra raízes transmontanas na região de Mogadouro, aldeia de Estevais. Que amanhou estudos em Românicas e Direito e que mais tarde deixou o portugalzinho cinzento, malas feitas ala para a Holanda, país que o acolheu e desde então o tem reconhecido (e de que maneira) como escritor – tudo uma questão de postura e ética editorial, é provável que testemunhasse Rentes de Carvalho, como, de resto, isso veio abonando em entrevistas amiúde concedidas. Antes, porém, troteara mundos tão diversos quanto o Brasil, Nova Iorque ou Paris, trabalhando na área da Imprensa escrita. A Amsterdão, onde ainda hoje habita, arribou em 1956, na qualidade de adido comercial da embaixada brasileira. Logo depois, porque não era «homem para andar nos telhados, a vender revestimentos…» – como alguém lhe diria –, haveria de se licenciar, inaugurando, acto contínuo, uma duradoura vinculação à carreira universitária. Ensinando o quê?: Literatura Portuguesa.
Desafecto da vida editorial portuguesa, é bem provável que Rentes de Carvalho possa ser a prova de que a Língua Portuguesa é, de tudo o mais, aquilo que mais temos connosco mesmos… (O’Neill ainda, sim). Isto porque, desconsiderado em “casa” – o ponto é esse! –, em solo alheio e distante o mais provável seria que se tivesse marimbado (passe o calão) para o bê-à-bá camoniano. Não o fez, continuou a escrever sempre na Língua materna. Tanto e tão bem que se tornou num caso único em terras holandesas, escritor best-seller (e, já agora, pedindo de empréstimo curioso termo que outro dia vi numa capa, long-seller… — que mais irão inventar?) e cronista disputado. Sempre, note-se, no silêncio distante do país que o viu nascer. Esquecido? Felizmente, nem por todos. A Editorial Escritor «pegou nele» há cerca de uma década, mas de forma quase inconsequente. Vale que 42 anos depois da edição do seu primeiro romance, «Montedor», J. Rentes de Carvalho parece finalmente obter (algum) reconhecimento merecido entre nós. Honras para a Quetzal que, de forma louvável, vem publicando a sua obra com o tratamento e dignidade que merece.
É o que volta a suceder com esta reedição de «Ernestina», um dos seus mais fulgurantes e tocantes títulos, a juntar aos já dados à estampa «Tempo Contado», «Com os Holandeses» e «A Amante Holandesa». Outros se seguirão, assim se presume e espera. Vamos a «Erenstina», título de recorte agustiniano… Bonito, sem dúvida, com um nada-quê de agreste, de passado, de desuso… É disso mesmo que se trata, de uma prosa sobre um tempo outro, tempo que nós fomos, tempo que perdemos, tempo que esquecemos e muitas vezes ninguém parece querer lembrar, seja por memória desbotada ou por de tão cruéis e difíceis lembranças para aqueles que o viveram. Vamos por aqui, este é um romance difícil, difícil não no plano da leitura, antes muito pelo contrário – mas já lá vamos a esses quinhentos –, antes pela dureza das vidas e recordações que convoca. É como se abríssemos as páginas de um Portugal outro, de um Portugal rude e pedregoso, de miséria e violências, um país mais puro e inocente, lacrimoso e arrancado dos dias, um país cujos habitantes mourejavam de sol a sol na incerteza do amanhã. E é Trás-os-Montes, o Portugal mais longe, aquele que aos nossos lábios e olhos-de-adivinhar desfila, como um cortejo de sombras longínquas, misto de paraíso perdido e inferno na terra. Portugal rural, ignorante, chão, longe do mundo, perto da desgraça, olhos nos santos, coração entregue às santinhas e quejandas crendices. Vívido, cristalino de lugares, nomes, factos, acasos, resulta o todo num convite fascinante a partilhar as memórias de quem ainda o viveu e sofreu na pele, de quem dele teve notícia por vozes familiares, de quem suou o país a sangue e sofrimento.
Vamos agora, e quase a terminar, ao estilo. Eu diria que se J. Rentes de Carvalho tem um estilo ele será um não-estilo. De outro modo, o autor limita-se a dar notabilíssimo uso ao português-de-lei. Escorreito, de uma desarmante habilidade narrativa, vírgulas e pontos nos sítios em que suposto neles tropeçarmos, tudo se nos aquieta ao tempo da leitura numa correnteza de histórias em que o real por vezes roça o surreal, não tanto pelo cariz fantasioso do autor, não é disso que se trata, antes pelo surreal que naqueles idos relatados bastas vezes antecipava o encontro com esse ismo futuro dito surrealismo. As cenas de violência familiar por-dá-cá-aquela-palha são disso exemplos desconcertantes. Tudo o resto é maravilha, as memórias da vida na aldeia, as agruras pelas quais passaram os avós, as viagens entre Gaia e Estevais, a aventura do comboio pelas penedias do Tua e do Sabor, a entrada no Liceu, etc. É como diz o outro, às vezes convém lembrar de onde vimos e do que outros passaram para aqui chegarmos. E estamos falados! Livro notável, «Ernestina», romance que apetece dar a ler, sugerir, divulgar, a pôr nas escolas. Sobretudo neste Portugal literário em que, por vezes, nos apetece levar ao extremo a máxima millôriana que, no domínio do romance, nos aconselha apenas a ler livros antigos e deixar as “novidades” para as coisas da ciência.

~ por pedroteixeiraneves em Dezembro 7, 2010.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: