«vencer ou morrer», de mendo castro henriques – uma entrevista

«Vencer ou Morrer»
Mendo Castro Henriques
Objectiva, 330 páginas

É a primeira investida de Mendo Castro Henriques, mestre e doutor em Filosofia, na ficção romanesca. «Vencer ou Morrer», editado pela Objectiva, recupera um tempo histórico pouco abordado pela literatura portuguesa, o período das Invasões Francesas e da posterior resistência anglo-lusa ao avanço das tropas napoleónicas que, à data, imperavam sobre a quase totalidade do território europeu. Estamos pois no âmbito histórico da chamada Guerra Peninsular. Um tempo de luta, dor e miséria, mas igualmente um tempo de bravura, de dignidade, de coragem e vontade política de um povo em subsistir enquanto nação, mesmo se abandonado por um Rei que fugira para o Brasil, mesmo se dominado pelos augúrios político-económico-militares ingleses. No fundo, tratava-se de vencer ou morrer, de resto, como bem evidencia o título deste que é o primeiro volume de uma trilogia que completará um arco histórico que se estenderá até àquilo a que se convencionou chamar a instituição do Portugal contemporâneo, na primeira metade do século XIX. Escrito de uma forma escorreita, com um bem doseado ritmo de acção e enunciado de factos históricos, dando-nos um bom quadro das vivências diplomáticas de época, bem como das dificuldades de vida das populações, eis um romance histórico que sabe bem ler, mais não seja pelo facto de trazer a lume um período em que se jogou, como em poucas outras alturas da nossa História, a independência de Portugal. Como possível conclusão, a assunção de que, como é bem nosso hábito, temos por vezes de nos ver à beira do abismo para reagirmos e nos impormos enquanto povo e nação. Com sequelas profundas, é bem certo, como neste caso, em que terão perecido mais de 250 mil pessoas, aquilo a que Castro Henriques não hesita em chamar «um genocídio».

O que motivou a escrever sobre este tempo histórico e estes acontecimentos políticos?
Eu já, de uns anos a esta parte, tinha investigado e publicado obras sobre a chamada Guerra Peninsular, curiosamente não tanto na vertente das Invasões Francesas, mas das campanhas que o exército anglo-português fez em Espanha e depois também em França… Enfim, e também sobre o contorno político da época, D. João VI, o Brasil, etc. Fi-lo por vários motivos, alguns talvez inexplicáveis, outros que têm que ver com o facto de não ter muito tempo para a investigação nesta área. E, de algum modo, há cerca de um ano e meio, achei que era interessante verter em termos de ficção todo este contexto histórico, porque assim não estava apenas obrigado a falar e a descrever com certo rigor histórico os acontecimentos, e sobretudo porque podia introduzir no relato vidas de personagens, como a ficção e a literatura o exigem, e cruzar depois essas histórias fictícias, essas peripécias, enfim, com os acontecimentos históricos das Invasões Francesas.

Um período histórico que é absolutamente decisivo para o futuro de Portugal, correcto? Como fez a sua abordagem?
Eu tentei começar esta obra, este volume, que é, em princípio, o primeiro de uma trilogia, como se costuma dizer in media res, isto é, no centro dos acontecimentos. E o centro dos acontecimentos na altura era a luta entre o Império napoleónico e a Inglaterra com aliados de parte a parte. Isto passa-se no início do século XIX; enfim, as Guerras Napoleónicas pode-se dizer que começam logo após a Revolução Francesa, dez anos depois, e vão até 1815. Essa época é uma época de transição, claramente, e para Portugal significa aquilo a que se pode passar a transição do Portugal velho, que morreu com estas guerras, e o início daquilo que o Oliveira Martins descreveu como o Portugal Contemporâneo, que é o Portugal do Liberalismo, em 1820. Portanto, é talvez, sem dúvida, uma das épocas mais decisivas da nossa vida, com marcas que chegaram até nós, e o que eu procurei foi descobrir e imaginar personagens, masculinos e femininos, para que através das suas vidas, dos seus encontros e desencontros, eles transmitissem o que se estava a passar. Quase todos os personagens têm um fundo histórico, o protagonista, por exemplo, o Francisco Sodré, e outros mais conhecidos, como o Domingos Sequeira, o pintor, ou o maestro Marcos Portugal, e depois, naturalmente, os políticos e militares, ingleses, franceses e portugueses.

É ainda um período histórico cujas consequências, do seu ponto de vista, estão pouco estudadas ou sub-avaliadas, sobretudo no plano da mortandade provocada?
Sim, interessou-me muito trazer ao de cima o que se pode chamar um verdadeiro genocídio. Primeiro, porque isso é a experiência vivida nessa época – quando se fala em genocídio estamos a dizer que pelo menos 200 mil pessoas, civis, morreram no conjunto das Invasões Francesas; naturalmente não morreram todas devido às batalhas, aos combates, morreram também devido às epidemias e à fome, que acompanham as situações violentas de guerra e de terra queimada, por parte dos donos das terras. Nem tudo isso aconteceu ao mesmo tempo, mas ao longo de um ano; nós sabemos isso porque havia uma organização muito boa, que eram os registos paroquiais, que dizem e especificam, freguesia por freguesia, pessoa por pessoa, escrito naquela letra miudinha dos padres, com grande rigor, quem morria e muitas vezes as causas das mortes. Então, nós sabemos que nessa altura cidades inteiras, como Leiria, ou parte de Santarém, Redinha ou Pombal, foram destruídas, sobretudo naquelas zonas que correspondiam àquelas zonas de retirada dos exércitos. Isso era importante trazer a lume porque dá uma marca ao que se chama Guerra Peninsular. Em Espanha passou-se de igual modo, as estampas de Goya, os chamados Desastres da Guerra, universalmente conhecidos, mostram isso mesmo. Nós temos isso também, essa memória, em termos eruditos. Existe ainda alguma memória popular, mas curiosamente não existe nenhuma obra que claramente descreva o que isso foi e as suas consequências devastadoras.

Quer isso significar que as guerras napoleónicas travadas no nosso território foram de cariz bastante diferente do resto das outras campanhas napoleónicas pela Europa?
Sem dúvida, no resto da Europa as guerras eram entre exércitos e as lutas eram entre príncipes. Em Portugal e Espanha, até pelo facto de os reis estarem ausentes, digamos que foi a população, o povo é que tomou nas suas mãos a guerra. São guerras populares; não é por acaso, aliás, que o termo liberal nasce na Península. É um termo que nasce em Espanha e que passa a Portugal. Nós julgamos que é um termo inglês ou anglófono mas não é. O liberalismo como tal, a luta dos que defendem a liberdade, contra os servis, os que defendem a subserviência ao Imperador Napoleão ou aos seus representantes, nasceu aqui, em Espanha e em Portugal. Isso é muito importante, pelo que este é também um livro sobre a liberdade, sobre a liberdade com que os povos se erguem para resistir aos invasores e depois sobre a liberdade de cada um, porque as vidas pessoais continuam no meio dos desastres da guerra. O livro não é só desgraças. Por exemplo, lembro-me de ter estado há tempos no refeitório de frades de Mafra, onde teve lugar um grande banquete, entre muitos, seguido de um baile, isto quando as tropas francesas estavam a dez quilómetros! E porque é que se fez um grande baile? Para mostrar que “não, não, nós estamos aqui para ficar”; portanto, as pessoas da altura, esse baile e banquete, essa homenagem era uma forma de dizer estamos aqui para ficar, estamos aqui para vencer, ou morrer, como diz o título.

Nesse contexto, o embarque real para o Brasil foi relativamente pacífico, isto é, o povo pareceu pactuar com a partida, com a fuga, eventualmente ao contrário do que seria de esperar, pois estavam a ser abandonados à sorte, de algum modo… Nessa perspectiva, o grande herói da resistência aos franceses foi o povo?
Sim, mas não o povo como classe popular, mas o povo inteiro como nação. No fundo estamos na época do despertar das nações. A Revolução Francesa é o despertar da nação francesa, tal como as guerras peninsulares representam o despertar das nações espanhola e portuguesa – é, digamos, quando a totalidade da população passa a ter uma palavra a dizer. Tem razão quando diz que a saída do rei foi pacífica… Mas não é de estranhar, visto que na altura não existia nada que se comparasse ao Wikileaks, era a época da diplomacia secreta e nessa altura era fácil planear, digamos, tal como aconteceu, até nas costas do inimigo, neste caso Napoleão, a retirada estratégica. Podemos, enfim, dizer que essa retirada foi aceite como o menor dos males, mas temos que ver que foi ela que devolveu às populações a necessidade de lutarem com os seus meios e com as suas mãos.

Apesar disso, Portugal, entregue ao acaso do jogo político que se decidia, com o Rei fora, não deixou de ser tornar uma espécie de joguete entre a França e a Inglaterra… De resto, os termos impensáveis da Convenção do Vimeiro são bem o reflexo disso… Concorda?
Tudo depende do ponto de vista… Vejamos, nem o próprio Napoleão era livre de fazer aquilo que quisesse. Quando nós chegamos ao plano histórico, é muito difícil dizer que haja algum país inteiramente independente. Todos dependem, em certa medida, uns dos outros, mesmo a poderosa Inglaterra dependia de Portugal como aliado, porque sem o Exército português, o brilhante general Wellington, marechal mais tarde do Exército português, nunca teria o número suficiente de soldados para se opor aos invasores. Então, todos dependem de todos, embora em medida diferente. O que se pode dizer é que em face ao poder real que nós tínhamos, nós não fomos um joguete, nós jogámos dentro dos meios que tínhamos, assegurando o que na altura era muito importante, que era a independência do Soberano, por isso ele foi para o Brasil, e aí dará origem à independência do Estado do Brasil, pelo menos à criação do Estado brasileiro, porque depois os brasileiros é que fazem e constroem a nação brasileira, e deixando que a população aqui tomasse em suas mãos, e depois cada um, com as suas vidas e com os seus interesses, como eu tento descrever, cada um foi dando o seu contributo para a resistência. Houve até elementos de traição, havia elementos que favoreciam Napoleão e estavam nos seus exércitos, mas não quer dizer que mais tarde não fossem reintegrados, com alguma brandura de costumes que nos caracteriza.

Quanto aos segundo e terceiro volumes da trilogia, o que nos pode avançar? Continuaremos a acompanhar a gesta deste Sodré?
Sim, bem como dos personagens que o acompanham, nomeadamente os personagens femininos, eles até vão ser ampliados, eventualmente fazendo uso de flashbacks, dizendo as coisas como se passavam antes, o que me parece importante porque temos aqui uma espécie de olhar condutor sobre uma época que é vastíssima, de realidades que são muito heterogéneas. E sim, Sodré, no segundo volume, vai participar nas chamadas campanhas de Espanha e na Invasão de França; soa esquisito, mas os exércitos portugueses fizeram a invasão de França e venceram, aliás, com a ajuda dos ingleses, naturalmente. O terceiro volume terá a ver com o tal início do Portugal contemporâneo e com a revolução liberal, com o chamado grito da liberdade de 24 de Agosto de 1820.

~ por pedroteixeiraneves em Dezembro 29, 2010.

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