ilustrar/ escrever – ptn



noite na cidade. short cuts

I.
a noite desamarra silêncios
que a manhã irá varrer na pressa dos passos

II.
é no hall de entrada
ao fundo da sombra junto aos caixotes
e ao medo. é
um pobre deixado à solidão
mãos gretadas olhos amarrotados andrajos
fome rasgões. há muito que ninguém lhe conhece a pele.
conhece apenas a recusa. já não chora. creio
que
de
sa
ba.

III.
ergo a cidade sobre palavras
e a cidade desaba como um poema: anoitecendo
no pó de ser
silêncio e solidão.

IV.
sobe a escada
bate a porta
despe o dia
rompe a cama
despe-se em lágrimas
morde o silêncio
e dorme.

V.
vagueia
os seus próprios passos
tropeça a sombra do seu olhar
estende uma lágrima sobre a cama
e cai
submerso
no ferro frio
da noite.

VI.
disputa atenções aos turistas
e ao bronze
de Pessoa mas excede-o no encardido
da pele e no sujo das barbas.
chega faz a sua ronda confirma
a sua loucura o seu lugar e senta-se
companheiro do poeta
(talvez «o» poeta…). à noite quando
os mesmos turistas fazem amor
no cetim dos hotéis e os jovens se divertem
nas discotecas e nos bares
imagino-o chorando
rosto contra o peito de Pessoa e pergunto
em que macio peito terá um dia
ardido pela última vez?

~ por pedroteixeiraneves em Dezembro 31, 2010.

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