The Wild Wolf – Um conto de homenagem a António Sérgio

The Wild Wolf

(Um conto em homenagem a António Sérgio)

Pequim. Lao andava cansado, extenuado mesmo. Deambulava na zona depois de um dia cheio. Jantara no McMonkey’s e decidira espreitar a vizinhança; nunca ali tinha estado. Acendeu o cigarro e puxou uma passa profunda, ruborizando-lhe levemente as maças do rosto anguloso. A noite esfriava, apagando o cigarro Lao S. Iver deitou a beata ao chão e foi quando se virou que topou com o letreiro colorido e luminoso bem à frente dos seus olhos, no outro lado do passeio. “Come Around”. Não era um bar, mas também não deixava de o ser; serviam bebidas, bem como outros serviços. Apertou as golas do sobretudo e atravessou a estrada, quase sendo atropelado por um carro cujo condutor o invectivou. A unha comprida mostrou-se um problema ao tocar a campainha do Bar-Sex-Shop.
Um tipo carrancudo apareceu-lhe à frente. Na lapela do fato negro, um nome numa placa: Boy Jorge. Olhou-o de alto a baixo, olhou-o por dentro dos olhos, tentou olhar para dentro dos bolsos, olhou para a esquerda e para a direita da rua, olhou para a sua intuição e deixou Lao entrar. O ambiente tresandava. Fumo, muito fumo; queima recente. Lao avançou para o balcão, atrás do qual uma gueixa loura de formas generosas e arredondadas patinava a sua patina de um lado para o outro. Lao ficou a olhá-la por instantes, como se assistisse a um jogo de ténis entre o Chang e o McEnroe. Bons tempos. Melhor a miúda, bem certo. Pediu um Martini e sem se dar conta passou o polegar da mão direita sobre os lábios. Deu-se conta, numa fracção de segundos, que a empregada patinadora sorrira. – On the rocks? – On, sempre on.
Meteu conversa. No fundo já desejava meter outra coisa… Metia nojo. Pelo menos assim pensou um americano já meio bêbado que ao seu lado se sentara e que assistia à matilha em que se tinham transformado os olhos de Lao caindo sobre o peito de Gin A. – assim se chamava a empregada. Apresentou-se, só para ter motivos de conversa: – Oris, Clint Oris, gynecologist , from Brooklyn. – Como o Favorite? – Qual favorito? – O Johnny, Johnny Favorite ou, se preferir, Angel. – Nunca ouvi falar. Was I suppose to? – De modo algum, constato apenas que não é um cinéfilo. – Ok, ok, e esse Favorito… – Favorite! – Esse, também era ginecologista? – Ah. Ah, ah… Não, digamos que gostava de mulheres, se calhar demasiado, se calhar demasiado. E riu, deixando perceber sob as gengivas uns caninos salientes. Clint Oris começou a sentir nojo. E fê-lo sentir, afastando-se um metro para o lado. Os dois passaram a disputar as atenções de Gin A. e o mal-estar instalou-se.
Ed Masiado, um dos capangas de Cao Boy, gerente da casa, seguia à distância e de lado, com o olho torto, os dois homens ao balcão. Era um óptimo segurança, nunca ninguém percebia se ele estava realmente a fitar quem quer que fosse, de modo que controlava todos os cantos da casa. Entre Lao e Clint a conversa azedava. Apenas o decote apertado de Gin A. ia aplacando os ânimos, embora ao mesmo tempo provocasse os clientes, uma vez que lhes mostrava uma série de objectos sado-maso no intuito de os vender. A verdade, porém, é que o olhar guloso dos dois homens se precipitara no Grand Canyon que era o decote de Gin A., tão estreito e apetitoso que, corria na casa, já chegara a entortar o aparelho de correcção dentária de um cliente que não conseguia deixar de fechar a boca ante tamanho e deleitoso abismo.
A coisa estava neste ponto. Gin A. não vendia nada dos produtos da casa, a não ser bebidas – o que já não era mau. Nas mesas o zunzum disfarçava o clima aziago que se instalara ao balcão. Lao, que ali fora para descontrair, convidara Gin A. para subir com ele ao quarto de demonstrações. Quando a tomava por um braço para subirem ao andar de cima, Clint protestou, interpondo-se, algo cambaleante, entre os dois. Lao pareceu avermelhar, rubor que só passou despercebido porque se encontravam em território de influência comunista. Quem reparasse nas suas mãos, tê-lo-ia descoberto; esfregava furiosamente as unhas afiadas do polegar contra os outros dedos: fura-bolos, pai-de-todos, seu vizinho e mindinho. Clint puxou mesmo de uma Colt que tinha no bolso interior do casaco, apontando a arma aos olhos raiados de sangue e raiva de Lao; bolas, ele só tinha entrado ali para descansar um pouco!
Quando o dedo de Clint já latia sobre o gatilho, prestes a derramar sangue, Gin A. gritava pelos cabelos, os clientes nas mesas tinham-se levantado em expectativa, Ed Masiado e Lin Grinhas intervieram lançando-se sobre Clint, mais rápidos do que a sua sombra – a deles, mas também a de um Clint que já não estava em perfeitas condições. Agarraram-no pelos braços e levaram-no para a rua, empurrando-o de encontro a uns caixotes do lixo. Clint aterrou com os cornos em cima de um pacote de Corn Flakes e ali ficou a ver estrelas sob a chuva de luar que caía. Ali perto, um gato miou, arrepiando a noite. Ed Masiado e Lin Grinhas sorriram em ouro e entraram fechando a porta do Come Around com estrépito.
Lá dentro, todos tentavam acalmar Lao S. Iver. Gin A. era toda prendas e flores para com ele, gabando-lhe inclusive o tom avermelhado da pele. Que haveriam de subir, mais tarde, e cantar-lhe ia umas canções ao jeito da Ópera de Pequim. Antes, uma bebida e um cigarro para descontrair. – Estes americanos, pensam que são os donos do mundo e agora parece que também querem mandar nas pessoas! Sorriu-lhe ao ouvido, roçando-lhe com o Grand Canyon no braço. Lao acalmou e estremeceu. Relaxava agora a uma mesa enquanto Gin A. fora buscar as bebidas. Os clientes, nos passos em volta, dirigiam-lhe palavras de conforto em mandarim. Poderiam estar a mandá-lo à merda, para ele o que lhe diziam era chinês, e era mesmo… Foi então que sentiu uma mão no ombro. – Lao, Lao António, luso-descendente. Vai desculpar-me, há pouco, ao balcão, estava atrás de si, fui incapaz de não ouvir a conversa… a sua alusão a “Angel Heart”, do Parker… Filme notável. Eu próprio faço uns filmes… eh… enfim… tento. É por isso que agora decidi falar-lhe. Observei toda a cena… o contexto… a sua figura… a loura do bar… o americano intranquilo… o mistério… o suspense… De repente dei comigo a achar que daria uma bela curta. O que acha? Importava-se de entrar como actor?
Lao acabou o seu Martini, apertou os lábios como que saboreando o último travo da bebida e respondeu a Lao. – Claro, podemos conversar. Eventualmente teremos de fazer um pacto… Agora, se me dá licença, tenho que terminar um assunto com esta senhora. Gin A. sentou-se trazendo consigo mais um Martini e um Gin para si própria. – Para cantar Ópera de Pequim há que aquecer a voz… E sorriu como uma hiena. Lao lembrou-se que antigamente se acreditava que o sorriso de hiena num homem significava que ele à noite punha armadilhas. Ver-se-ia que segredos e armadilhas a noite no “Come Around” ainda lhe reservava. Depois, aproximou a unha do indicador dos seios arrepiados de Gin A. Sentia-se um lobo. Finalmente a descontracção. Em pano de fundo, o DJ de serviço, um russo de sua graça Anton Serjov esculpia o ambiente de magníficas sonoridades. Coincidência… começara com Bon Iver, tal como o apelido de Lao. No ar, os versos de The Wolves: «Someday my pain, someday my pain/ Will mark you/ Harness your blame, harness your blame/ And walk through/ With the wild wolves around you/ In the morning, I’ll call you…»

~ por pedroteixeiraneves em Janeiro 14, 2011.

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