a biblioteca privada de hitler – excertos de uma entrevista a timothy w. ryback

Qualquer investigação envolvendo Adolf Hitler é, ao mesmo tempo, interessante e complicada. Devo dizer que com este projecto descobri coisas que nunca tinha sequer imaginado.

Realmente acho que não se consegue pôr de parte o horror que associamos ao nome Hitler. Na verdade, considero que a cada momento do trabalho temos de nos lembrar exactamente de quem ele foi e o que fez. Acho que há necessidade de tentarmos perceber Hitler como um ser humano, mas não humanizá-lo. Torná-lo acessível e compreensível, mas de modo nenhum torná-lo uma figura simpática.

Hitler ficou mais famoso por queimar livros do que por coleccioná-los. Mas a um nível mais profundo: quão importantes os livros foram para a vida deste homem? Hitler disse uma vez: «Quando uma pessoa dá, há que aceitar e eu tiro dos livros aquilo que quero.» É importante ter isto em mente, porque nos perguntamos de onde veio tanto ódio, tanto horror, este fanatismo veio. E é de facto olhando para os seus livros que começamos a conhecer o homem.

Entre os livros favoritos de Hitler estavam o «D. Quixote, de Cervantes», «Robinson Crusoe», «As Viagens de Gulliver», ele tinha as obras de Shakespeare entre as maiores da Literatura. Portanto era um homem familiarizado com a grande literatura. E, no entanto, subverteu tudo isto na sua cabeça. Sim, ler enobrece o espírito humano, torna-nos melhores pessoas. Hitler virou-se para as mesmas fontes, só que se inspirou nelas para cometer crimes horrendos.

A educação formal de Hitler acabou aos 15 anos. Este homem passou o resto da sua vida numa tentativa desesperada para compensar essa falta de educação. E por trás do ditador todo-poderoso estava um homem de incrível insegurança intelectual.

Na sua juventude Hitler quis ser um artista plástico e ficou famoso por falhar essa vocação. Quando abandonou essa ideia quis realmente tornar-se escritor. O seu livro mais famoso é o Mein Kampf, uma estranha autobiografia, que ao seu tempo se tornou num best seller na Alemanha.

Acho que aquilo que Mein Kampf representou foi meramente uma tentativa de conceder uma base filosófica ao movimento nacional socialista.

Mas nem sempre o sucesso literário reflecte a qualidade da obra. O próprio Hitler, mais tarde, admitiu que não era um escritor.

Quando Hitler esteve na prisão, em Lendsberg, depois de um putch falhado, aproveitou o tempo para ler o mais que pôde. Mais tarde, sobre esse período, diria ter sido a sua educação superior a expensas do Estado.

O que a sua colecção de livros faz é permitir o acesso ao seu mundo intelectual, que até hoje desconhecíamos.

Hitler deixou cerca de 16 mil livros quando morreu. Desses cerca de 1200 estão na Biblioteca do Congresso. Mil serão irrelevantes, mas cerca de duzentos dizem muito sobre a sua personalidade e, desses, cerca de vinte, trinta ou quarenta, dão-nos informações efectivas sobre o seu pensamento. Há marginálias com palavras suas sublinhadas, com passagens marcadas e ao estudar isto conseguimos antever o pensamento de Hitler a trabalhar. Vemos como ele cruza informação, como certas passagens anotadas surgem, dias ou semanas depois, nos seus discursos.

O que os livros fazem é trazê-lo a uma dimensão humana. Começamos a perceber de onde vieram aquelas ideias, como foram orquestradas.

Quando começamos a ver a biblioteca de Hitler e os seus hábitos de leitura percebemos que ele não leu Schopenhauer, não tinha capacidades intelectuais para perceber um filósofo como Schopenhauer e concluímos que as suas ideias, na maior parte, provinham de filósofos “baratos”, de cariz anti-semita.

Foto Timothy W. Ryback/ DR ptn

~ por pedroteixeiraneves em Março 1, 2011.

Uma resposta to “a biblioteca privada de hitler – excertos de uma entrevista a timothy w. ryback”

  1. Uma muito interessante analise à Biblioteca de Hitler.
    Percebe-se que ele não tinha capacidade para assimilar a maior parte do que li-a, mas tomava notas para usar dias depois frases “copiadas”, nos seus discursos.

    Hitler não era “humano” era um doido. Mas de facto, será, como nos é aconselhado nunca a humanizá-lo mas a lê-lo como um quase ser humano, para irmos entendendo quão louco foi aquele homem. E para podermos minimate entender não o proprio, mas o que alguem como ele faz, actua, domina, mata….

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