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«Os Pretos de Pousaflores», de Aida Gomes, D.Quixote, 299 pp.

Vejamos. As práticas não ajudam. Falar de literatura africana em Portugal equivale a contar pelas mãos. O resultado é parco, sabe, sobretudo, a pouco. Não em qualidade, antes em quantidade. Os ditos novos são sempre os mesmos, logo velhos. O que é paradoxal, sem dúvida, tanto mais que tanto por aí, aos ventos, se apregoa a lusofonia, a sua urgência, tal como para outros azimutes se clama e decretam acordos ortográficos que está ainda para se ver que bem trazem a um pretenso maior conhecimento das literaturas irmãs em terra outrora mãe. Adiante, isto para dizer que «Os Pretos de Pousaflores», de Aida Gomes, é uma verdadeira oferenda. E, espanto maior: primeiro romance! Apetece perguntar, o que andou a fazer Aida Gomes todos estes anos? Saibamo-lo, atentando na resposta biográfica que, indirecta, surge em badana. Aida Gomes nasceu no Huambo, Angola. Viveu (vive?) na Holanda desde 1985 onde cursou Ciências Históricas e fez mestrado sobre processos históricos e políticos na África sub-sahariana. Depois, viajou e trabalhou no Cambodja, Moçambique, Suriname, Angola, Libéria, Sudão e Guiné-Bissau, desenvolvendo actividade em projectos comunitários para jovens, na formação de jornalistas e na construção de paz e diálogo político, isto alternando com, ou no âmbito de missões de paz da ONU. Em suma, fez aquilo que talvez mais faz falta a um escritor: viver. E, no fundo, é isso que bem está expresso neste soberbo romance, vida, ou antes, muitas vidas. Vidas contadas a várias vozes, extremamente bem (auto-)delineadas, percebidas e entendidas no âmago dos sentimentos e emoções, mas também no modo como percepcionam o outros, ou os outros que de fora as vêem e com elas interagem. A história, num muito curto resumo: Silvério Prata, português de gema, da aldeia de Pousaflores, perto de Coimbra, rumou outrora às Áfricas portuguesas a fazer vida e ganhar o mundo. Não correram os planos como a família prevera e os primos lhe faltaram, acabando ele por, após participar numa campanha de pacificação de uma tribo, a esta se juntar, devindo, excepto que não pela cor da pele, um dos seus. Longos anos fica em África. Tem três filhos de três mulheres diferentes. Um dia, já com o processo de independência angolana em marcha, volta a casa, à pátria onde, passados quase quarenta anos, já ninguém o esperava, sequer a irmã que o vê chegar descalço de fortuna e com três filhos negros, aqueles a quem mais tarde chamarão na aldeia os «pretos de Pousaflores». Depois vem a adaptação vista pelos olhos de cada uma das personagens, quer aqueles de regresso, quer aqueles que os acolheram – um notabilíssimo concerto de vozes e perspectivas da vida, diga-se, naquilo que de mais notável encerra a escrita polifónica de Aida Gomes. Paralelamente, entre idas e vindas do passado para o presente e vice-versa, há ainda a história de Deodata, uma das suas mulheres deixadas para trás que não desiste de procurar a sua filha por entre destroços de um país em guerra fratricida, e há ainda a curiosa, verdadeira e por conhecer história do encontro de Livingstone com Silva Porto, que sobremaneira interessa a Silvério. O passado colonial como se visto num postal antigo, de cores e memórias desmaiadas, o presente num colorido rude e tépido de um Portugal pobre e à deriva nos anos 70 e 80, são estes os panos de fundo deste romance singularmente bem escrito, singularmente original e bem-humorado (magníficos, por exemplo, o solilóquio da Dona Bela para com Belmira, tal como as reflexões “existenciais” de Justino), tão sóbrio quanto comovedor. Em suma, mais uma (grande) autora a escrever em português.

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~ por pedroteixeiraneves em Março 9, 2011.

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