antónio borges coelho – uma entrevista – fotos ptn

António Borges Coelho
«Se não fosse a memória, de que é que me alimentava?»

«Há um chinês no rés-do-chão, é nesse prédio.» Fui e na morada indicada, à Parede, encostei perto do chinês. Perto, a estação de comboios. Ali ao lado, uma pequena praça, dois ou três cafés – provavelmente onde toma o seu café da manhã, pensei. Faltava meia-hora mas decidi tocar à campainha enquanto o chinês me lançava um olhar em bico. Para não entrar de rompante e dar início à entrevista a frio. Mentira, toquei mais cedo porque tinha interesse em conhecer este homem. Em ver nos seus olhos e palavras como era um homem que tinha passado por tudo o que ele passara. António Borges Coelho [Murça, 1928]. Historiador, professor, mas também dramaturgo, poeta e o mais que só os amigos e familiares saberão. A primeira imagem é de um franco sorriso. Confessa: pôs camisa limpa para a entrevista. Mas estava fresca e fazia-lhe mal, perguntou se podia vestir o casaco. Depois sentamo-nos, rodeados de livros em inúmeras prateleiras até ao tecto. Paredes? Não vi. Ou quase, senão aquela que espreitava entre alguns quadros; por exemplo, um original de um dos desenhos de Álvaro Cunhal que lhe foi oferecido aquando do casamento. Por ali também um busto, feito por mão amiga. Mas livros, sobretudo livros, uma autêntica biblioteca. E fomos palavreando: a “estadia” em Peniche aquando da fuga de Cunhal, a tortura, os tempos da «Estátua»… Com ele não pegou, diz-me que se enfureceu e ou o matavam ou o deixavam. Foram deixando. E também os amigos, com quem, até há tempos, tertuliava aqui e ali: Eugénio Alves, Mário Zambujal, Fernando Dacosta, João Paulo Guerra, Baptista Bastos… Eram os «empatados da vida», diz a sorrir. Agora já não se têm visto, agora vai reunindo com historiadores amigos, alguns brasileiros. «Quer uma banana? Eu tenho que estar sempre a comer, por causa dos diabetes.» Não, obrigado. E estamos nisto, a passar os olhos pelos livros. Os seus, a versão italiana de «Youcali», acabada de sair, as ilustrações do Rogério Ribeiro, o livro do sobrinho que ganhou o prémio Leya, «O Olho de Hertzog»… Enfim o motivo da visita, «Portugal Medievo», segundo volume da História de Portugal.

Aos oitenta e poucos anos, insiste em escrever e pensar a História. Porque continua esta a interessar-lhe tanto?
A História e o seu estudo tem feito parte da minha vida. Eu desde muito cedo me senti atraído pela História. Mesmo numa vila transmontana onde eu fui criado [n. Murça, 1928], chegou-me lá um pequeno livro da Seara Nova, com uma antologia de textos do Fernão Lopes; e foi dos primeiros livros que eu li, com dez, onze anos, e que, com outros depois, me entusiasmei. Depois, no Ensino, fui sempre um aluno muito interessado pela História e decidi ir para Direito porque não havia ainda o curso de História, havia na altura Histórico-Filosóficas – que era o curso que eu desejava. Mas segundo a família o curso de Direito é que dava muito dinheiro, era o que dava uma boa vida… De maneira que estive um ano em Direito e depois mandei o Direito às urtigas. E logo a seguir foram alunos meus amigos que com o seu dinheiro me matricularam na Faculdade de Letras para tirar o curso de Histórico-Filosóficas. Alunos de Medicina que nessa altura me pagavam as sandes que eu comia, porque na verdade não tinha emprego, estive um largo período sem emprego, e sem qualquer apoio.

Uma grande dose de altruísmo…
Muito altruísmo. É claro que éramos amigos e estávamos ligados também por laços políticos de oposição ao regime.

Acaba de ser editado este segundo volume da sua História de Portugal; «sua» porque a vem escrevendo sozinho, isto é, sem ajuda de grupos de pesquisa ou de trabalho! O primeiro deu-nos uma perspectiva evolutiva do homem na Península Ibérica, vindo até à fundação da Coimbra moçárabe, católico-romana e depois moura e judia, passando ainda pela revisão de vultos como Sertório ou Viriato, os reinos suevo, visigodo e o Al Gharb, ou o Gharb Al Andaluz. Este volume quando se inicia exactamente e que arco temporal abrange?
Começa em 1128, na Batalha de São Mamede, próximo de Guimarães, e termina em 1385, isto é, depois de consolidada a revolução de 1383-85. Portanto, é um largo período que abarca o século XII, o século XIII e boa parte do século XIV. É um período em que um projecto vago de um Condado, que, à época, vai apenas praticamente desde um pouco para lá do Rio Minho, mas pouco, até ao Mondego e que só mais tarde se vai desenvolvendo, ganha alguma coerência com a conquista de Lisboa e Santarém, quando atinge o Vale do Tejo, e depois se estende numa ponta até Évora, que não perde mais. É um período em que o território começa a ganhar, enfim, alguma ideia daquilo que poderá vir a desenvolver-se, ou seja, desenhando-se-lhe algum futuro. Mas só vai ter futuro quando se reunifica, quando atinge a costa algarvia. E mesmo assim, mesmo depois de atingir a costa algarvia, Castela reivindicava a posse do Algarve e, portanto, amputava ainda ao reino de Portugal uma parcela, e uma parcela significativa, que eram o acesso aos mares do Sul. Mas, portanto, é ao longo depois do reinado de Afonso III, de D. Dinis, e ao longo do século XIV, que se começa, digamos, a encontrar um corpo definido, um corpo de que uma das margens é o oceano, margem que impede de ir para lá de si mesma. Portanto, Portugal, simultaneamente, só tem um amigo-inimigo, que é Castela, só tem um muro.

Fala em Portugal, mas nessa altura já se pode falar de uma nação?
Não. Podemos falar num pequeno Estado, um pequeno Estado que vai ampliando as suas fronteiras. A nação não existe, a nação portuguesa, como estamos a imaginá-la, não existe.

A propósito. Há diversas opiniões quanto à data exacta da fundação de Portugal. 1128, 1143 ou 1179, ano em que finalmente a Santa Sé, através do Papa Alexandre III, reconhece Portugal como Estado independente? Em que ficamos?
Para mim é 1128, como era para o Herculano. Outros acham que começa com o Conde D. Henrique. Mas a verdade é que se o Afonso Henriques não se tivesse imposto no terreno não havia reconhecimento futuro. Esse reconhecimento da Santa Sé é, na verdade, nada mais do que aceitar uma realidade que tinha sido imposta no terreno. Porque inicialmente, a visão da Santa Sé era uma visão ampliada, de uma espécie de Império Ibérico, uma unidade ampla dos cristãos no território da Península Ibérica face ao mundo muçulmano. Era um pouco mais esta ideia. E, inclusivamente, um primo de Afonso Henriques incarna a ideia de Imperador, quer ser Imperador, isto é, quer uma unidade mesmo mantendo algumas diferenças, mantendo alguns territórios diferenciados e até, poderíamos dizer, com alguma autonomia. Mas o facto é que desde 1128, embora ainda tratando-se de um pequeno Estado – que ia a Coimbra, com a sede militar em Guimarães –, desde essa data D. Afonso Henriques não aceitou efectivamente qualquer outro poder superior a ele. E quando se torna vassalo da Santa Sé, torna-se com esta condição: é que ninguém mandará no seu próprio território. É claro, a confirmação pelo Papa é um momento importantíssimo, e dá a perceber o papel que o Papa tinha na Cristandade ocidental. Mas por si só aquilo que foi decisivo no terreno foi a vontade dos varões implantados no Douro, entre Douro e Minho, e depois, logo depois, com a inteligência e também capacidade desses homens, o terem escolhido Coimbra como cidade fundamental. Porque logo depois da primeira década é Coimbra que é a cidade fundamental. E que é Coimbra então? Coimbra é uma cidade que tinha sido moura, judaica, cristã e moçárabe. Isto é, Coimbra era um centro onde todo o conjunto das civilizações que tinham estado no terreno estavam marcadas. E era a grande cidade; não era Guimarães, muito menos Braga, ainda não era o Porto. Era de longe a cidade capital, Coimbra. E Afonso Henriques fez de Coimbra o seu poiso fundamental e foi a partir daí que avançou em relação à linha do Tejo.

Muito do seu modo de ver, estudar e dizer a História deriva de uma postura interpretativa dos factos. Mas as fontes continuam a ser igualmente importantes?
As fontes… bem, nós não podemos inventar fontes. As fontes são todos os elementos materiais em que a mão do Homem ou a mente do Homem pousou. Portanto, são os escritos da época, que nos ficaram da época, são os elementos materiais, os monumentos, os castelos… tudo o que a época nos deixou. E, claro, também aí nós podemos ainda juntar toda a meditação posterior sobre esses mesmos acontecimentos. Porque nós hoje já estamos a escrever quase nove séculos em cima de alguns destes acontecimentos e portanto há uma massa de escritos sobre esses mesmos acontecimentos.

Essa massa toda facilita o trabalho ao historiador?
Por um lado, sim, na medida em que há mais informação, mais pontos de vista. Mas, por outro, é óbvio que quanto mais informação maior será o trabalho de estudo, leitura, dedução, cruzamento de factos, interpretação.

Que deve então fazer o historiador nessas circunstâncias?
O historiador tem que ter em conta toda essa informação, e tem que a calibrar, porque ela não pode ficar toda no mesmo plano. Tem que pensar qual é a sua importância, pensar, sobretudo, que relações mantêm entre si os factos e dar-lhes depois uma explicação. Isto é vai fazer um discurso, o historiador faz um discurso e esse discurso não é a realidade. Esse discurso tenta dar uma imagem da realidade, procura fazê-lo. Em princípio, todo o historiador honesto procura ser o mais sério e aproximar-se dessa visão da humanidade nos períodos que estuda. Agora, o historiador não é uma máquina, o historiador é fruto da sua época e do que foram as suas leituras, do que foram os seus ideais e tudo isso se reflecte no seu trabalho. A História só é feita pela própria sociedade no conjunto, isto é, pelas estruturas que herdamos do passado. Mas todos os homens fazem a História. Os próprios servos participam na História. O que acontece por vezes é que se acentua uma descrição que é a descrição do poder.

Mas o que sucede até muito tarde é que nem sempre temos a História relatada e vista pelos olhos dos servos ou dos escravos.
Desses não temos, só temos quando pela voz dos próprios opressores, isto é, não temos a sua voz em directo. É muito raro. Embora mesmo aqui, na Idade Média, nalgumas revoltas, e precisamente num período do Conde Dom Henrique e ainda, em parte, do próprio Afonso Henriques, por vezes há revoltas das cidades… na Galiza, por exemplo, em que ouvimos o povo a falar: «Quem é que deu isto aos frades?»… As pessoas revoltam-se, vão cortar a lenha das matas de mosteiros sem autorização e querem uma regra, querem uma lei, querem um foral e gritam. Mas é ainda um brado colectivo, não é, digamos, uma consciência ao nível individual; o chegar lá, a essa consciência, vai demorar séculos. A própria solução, autêntica, da liberdade pessoal e individual é uma conquista, uma longa evolução da própria Humanidade.

Fala de um Portugal que apelida de «medievo». Normalmente, habituámo-nos a estabelecer um paralelo entre a época medieval e um período de trevas? Até que ponto assim era na realidade? Ou seja, o próprio facto de termos “herdado”, pela reconquista, heranças tão ricas como o eram as culturas romana e árabe não contraria essa ideia?
Sim. De resto, há muito tempo que essa ideia das trevas tem sido combatida, mesmo para o outro lado, mesmo para o lado cristão. Nós podemos afirmar que depois do domínio das chamadas invasões bárbaras, na verdade, muita coisa se perdeu. Isto é, a cultura ficou reduzida aos mosteiros, os próprios padres eram analfabetos, havia bispos analfabetos… portanto isto dá-nos uma ideia de que houve um retrocesso bastante grande. Na parte Sul, pelo contrário, na parte sul, no século VIII, vieram para cá sobretudo berberes e também árabes. Eram povos que traziam uma religião diferente, mas os berberes traziam uma religião ainda muito colada, muito recente… falavam várias línguas, o árabe ainda não era a língua dominante. Mas quando chegamos ao final do século IX, o que começa a chegar à Península não é… não são ecos de outras culturas! Chegava muita gente que tinha ido ou estado no Oriente e começa a trazer os manuscritos gregos – os manuscritos, enfim… não vêm os manuscritos, mas vêm as traduções feitas para árabe dos autores gregos, e dos autores orientais, dos persas e tudo o que o que foi aquela grande civilização implantada, que é o hoje o médio e o próximo Oriente. Ora, isso, por exemplo, fez do califado de Córdova, primeiro, e depois dos reinos de Taifas, grandes centros de cultura, de grande cultura medieval, por exemplo, no campo poético… E mesmo algum trabalho no próprio campo da História irá dar um grande vulto da historiografia mundial (embora já do outro lado do mar, no Norte de África) que é Ibn Caldoun, que vive no século XIV e que é, de facto, um dos grandes expoentes da historiografia e eu diria mais até, da sociologia. Foi um grande investigador e que era originário de famílias da Península Ibérica.

Sociológica e administrativamente, como era o nosso território a esse tempo?
O mundo urbano que nós herdamos neste período é um mundo urbano que era o do antigo Al Andaluz. Quer dizer, portanto, as cidades, os pequenos burgos, não eram no Norte que existiam! Um dos primeiros bispos que chegou a Braga queixava-se amargamente daquele deserto que era a cidade de Braga. Os centros eram Lisboa – que ainda hoje podemos ver que era o maior perímetro de muralha das cidades do período –, era Évora, era Beja – Beja tinha sido a grande cidade romana e tinha sido também grande cidade muçulmana (porque tinha sido a sede do exército permanente dos árabes na zona ocidental da Península) – e depois, no Algarve, Silves – era uma grande cidade, mas não apenas Silves, havia outros burgos importantes espalhados no Algarve. Portanto, alguma coisa herdámos. Herdámos isso e até uma coisa singular… Aparece muitas vezes listada a biblioteca do nosso Rei Dom Duarte. São uns oitenta e tal livros, mas nunca ninguém chamou a atenção que um dos livros que está na biblioteca de Dom Duarte é um livro de poemas árabes que é o livro da Rumaikiyyah, isto é, é o livro da escrava que foi mulher de Al Mutamid, Rei de Sevilha, natural de Beja e foi a mãe dos seus filhos, foi escrava e foi rainha. Isto mostra que na verdade a absorção cultural foi muito completa. Quando chegamos ao reinado de Dom Manuel só pode haver uma religião, que é a religião católica, nessa altura o islamismo em Portugal era reduzido, embora houvesse zonas sobretudo no Algarve, em Loulé, por exemplo – a propriedade em Loulé ainda era de mouros, mourisca, mas, ao contrário, só judeus tinham ganho nessa altura uma força impressionante.

Portanto, nada estava ainda definido ou estruturado por completo.
Há que ver que na Península, a Península era um largo campo de batalha, de organização de forças e de encontrar caminhos. Havia o reino de Navarra a norte, o chamado hoje País Basco, que teve sempre uma grande autonomia, embora nem sempre estabelecido em reino, mas sempre teve uma grande autonomia, depois tínhamos Aragão e a Catalunha e tivemos até ao final do século XV o Andaluz. Depois Castela, Central, com aquele grande planalto central, como reino que tende a agregar os reinos periféricos. Tentou primeiro Portugal e foi mal sucedido em Aljubarrota, e tentou depois Aragão e foi bem sucedido com o casamento de Isabel, a Católica, e Fernando de Aragão. Vivíamos um período de grande movimentação, de grande turbulência. Aliás, não devemos esquecer que a guerra era a actividade da Nobreza, sem guerra a Nobreza não tinha sentido. O nobre preparava-se para a guerra, tinha o seu corpo militar, etc.

E quais foram, em sua opinião, as figuras principais deste período, que abarca neste volume?
Há várias figuras principais. E começaria pela primeira, Afonso Henriques. Muito provavelmente analfabeto, foi um chefe militar, foi uma espécie de guerrilheiro e chefe militar em pleno campo de batalha e seu organizador. Embora saibamos que muitos dos seus companheiros acharam que ficaram um pouco na sombra quando ele veio mais para sul e privilegiou o sul e não o norte, o que é verdade é que se impôs e até os muçulmanos do outro lado ainda chamavam ao filho, ao Sancho, ainda era o Ibn Arrik, era o filho do Mata-Mouros! O Afonso Henriques teve de facto um papel importante na formação do Estado Português. Mas há outros monarcas importantes neste período. O Afonso III é uma figura complicada neste sentido: é o homem que jura servir o Clero, portanto, o Sancho II é posto no olho da rua e o Clero reúne em Paris. A Afonso III dizem-lhe que ele vai ser regente, vai reger o reino, vão apoiá-lo. Provavelmente Lisboa é capaz de ter apoiado o Afonso III, há uma guerra civil. Ele a princípio vai avançando, é claro que quem não estava por ele estava excomungado, mas tinha muita gente contra ele, veio o próprio herdeiro de Castela apoiá-lo… Mas, é claro, o Sancho II acaba por ser abandonado, morre em Toledo e ele governa. E qual é o espanto do Afonso III? É que ele é o homem que vai derrotar o Clero. É o homem que vai impor a Concordata… Enfim, será o filho, mas o caminho foi aberto, precisamente, por seu pai. Isto é, o reino esteve excomungado durante dez anos. Durante dez anos e o Dom Dinis não tinha pressa em chegar a um acordo! Portanto, eu creio que com a sua complexidade, tendo casado duas vezes – era casado quando casou a segunda vez! –, era casado com uma princesa francesa muito mais velha do que ele e até suspeita de ter dado cabo do marido e veio ainda a Lisboa protestar contra o casamento do Afonso III…

Porque é que ele casou sendo casado?
Para, digamos, entrar em paz com Castela e obter de Castela o reino do Algarve – onde ele estava, ele não tinha largado o reino do Algarve, mas o Rei de Castela nomeava o bispo… E por acaso houve uma grande relação entre ele e esta mulher, Beatriz, a quem ele considerava era mulher da sua máxima confiança. Mas é o homem que vai cortando os privilégios da Nobreza e vai espalhando forais por todo o território nacional, é um dos grandes organizadores do território. Agora do ponto de vista da minha simpatia pessoal, o Dom Dinis tem um papel muito especial, porque é o homem que completa, portanto, o território português, é o homem que faz da língua portuguesa a língua obrigatória, a língua nacional, a língua dos documentos, é um grande poeta da língua portuguesa. Foi um homem que governou amplamente e que encheu o país de castelos e de fortificações e não lhe faltou dinheiro.

Então, bastante antes de nos voltarmos para o mar havia uma situação confortável no tesouro?
É uma das perguntas que eu faço: porque é que sem o ouro do Brasil, Portugal, nessa altura, pelo menos o Portugal dionisino, não aparenta grandes dificuldades e grandes problemas? Acho que se deveria pensar quais as razões porque isso aconteceu. Talvez aquilo que a história lhe veio a chamar, o Rei Lavrador, não tenha sido porque ele directamente andasse a lavrar, mas pelo facto de o território ser todo distribuído por forais e arrendamentos… Isto é, nunca o território foi tão “cultivado” como nos tempos de Afonso III e sobretudo de Dom Dinis. E talvez esteja aí também, logo, o avanço para o mar, e o avanço para o mar começa a ser efectivamente feito, já no reinado de Dom Dinis. Não só pela protecção que ele dá aos mercadores nacionais e à constituição de um organismo que reúne os mercadores nacionais, como mandando vir de Génova técnicos para ensinar não propriamente num navio oceânico, mas para ensinarem na guerra das galés. E as galés vão ter um papel importante na guerra naval até um período muito adiantado. Até podemos ver ainda as galés no tempo do nosso rei Dom Sebastião, a encherem a baía do Tejo.

Que outras questões suscita neste volume?
Uma outra questão que levanto, fundamental, é o milagre de povoar. Como é que se povoou Portugal? Se numa visão tradicional os cristãos vieram por aí abaixo, os exércitos, e ou mataram ou correram com os mouros e com os que lá estavam, por outro lado, como é que se povoou? É claro que nós sabemos que vieram alguns alemães, ingleses, galegos. Sim senhora, vieram, e até do Norte do Douro, mas como é que surgiram as cidades, como é que se povoou efectivamente o território? Nós sabemos, o Algarve, em princípio, os algarvios ficaram lá, o Afonso III teve… um dos filhos, um magnata, do Afonso III é filho de uma moura filha de um dos dirigentes mais altos do território algarvio… Mas, insisto, como é que é possível? Isso só é possível porque boa parte das gentes que estavam no terreno lá ficou. E até temos documentos que mostram que foram incentivados a regressar e são feitos forais especiais reconstituindo a vida urbana que tinha sido a vida urbana anterior. Portanto esse milagre de povoar não pode ser explicado da maneira que os exércitos afonsinos vieram do Norte, expulsaram os habitantes e pronto e agora de repente o território ficou arado, ficou gradado, agora é só pôr a semente. O que eu pergunto é onde é que está a semente?

Portanto, o sangue lusitano continuou a misturar-se. Mas nesta altura com a diferença de que, como diz, então o Cristianismo nos começava a «moldar até aos ossos». É assim?
Sim. Na nossa história colectiva de nove séculos, o cristianismo marcou toda a vida dos humanos. Desde a pia de água benta dos meninos… Nessa altura, todos os actos da vida camponesa começam a ser mudados, e eram hábitos que vinham muito de trás, da vida camponesa, mas que começam agora a ser mudados por um molde, que é o molde das festividades cristãs.

Pegando ainda no título deste volume, «Portugal Medievo». Porquê esta opção?
Sobretudo para balizar temporalmente. Não lhe quis dar um tema específico, mas para mim o essencial da Idade Média termina com a revolução de 1383. Começa um mundo novo, nisso eu estou em pleno acordo com Fernão Lopes. É a tal sétima idade, como quiserem, começa um século em que Portugal sai fora, não cabe no seu próprio território e este é sempre um problema que nos acompanha ao longo da nossa história.

Porque é que lhe é tão importante continuar a olhar para o passado?
É como qualquer um de nós. Imaginemos que cortamos o nosso arsenal de memória, ficávamos meio tontos. Eu lembro-me do seguinte, eu estive preso muitos anos, mas se não fosse a memória, de que é que me alimentava? O que me alimentou quando estive seis meses posto num buraco, o que me alimentou foi a memória e nunca imaginei que tivesse uma memória tão vasta e tão grande.

~ por pedroteixeiraneves em Março 11, 2011.

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