teolinda e lídia, dois romances, um abismo

Teolinda Gersão, «A Cidade de Ulisses», Sextante, 206 pp.

Teolinda Gersão está de regresso ao romance. Um regresso que se aplaude e, sobretudo, que se admira, tão-só porque admirável nos pareceu este «A Cidade de Ulisses». A saber porquê, indo passo por passo, especificando o sentir e a experiência da leitura. Diria que se trata de um livro quadripartido, ou seja, composto por quatro segmentos temáticos que, por via de grande mestria narrativa e de forma exemplar, se aglutinam e mesclam num todo muito eficaz, do qual resulta franco gozo de leitura.

Antes do mais, parece-me fulcral, até por via dos tempos de crise sócio-político-económica que vivemos, que aqui aduza ao carácter de combate deste romance. É, de facto, de se lhe tirar o chapéu, para mais quando se sabe que a literatura portuguesa contemporânea se tem demitido bastamente de um tal pendor, preferindo amiúde investir e embrenhar-se por coutadas de (auto)prospecção introspectiva e psicológica, o mais das vezes de carácter cinzento, pretensioso e lúgubre. Ora, mais interessante ainda é verificar que Teolinda Gersão não opera as críticas que tece de modo velado ou metafórico. Pelo contrário. Teolinda acusa, põe o dedo na ferida, isto é, sem medos, falsos rodeios ou rodriguinhos, vai ao osso, dando a ver, gritando para quem não o queira fazer, os podres de um Portugal que é o de hoje, mas também, no seu pior (e por vezes no melhor) já era o de ontem, ou de ontens! E é simplesmente estarrecedor, sobretudo no plano das convulsões político-judiciais que hoje vivemos, perceber a actualidade das sombras que a escritora aponta: da falência moral dos políticos aos interesses imobiliários, do grau zero da Justiça à incompetência dos gestores económicos, etc.

Numa espécie de contraponto ou claro-escuro, temos, por outro lado, uma comovente história de amor. Relatada sem excessos, sem episódios implausíveis, ou seja, dando-nos o retrato de um “amor-corrente”, passe a expressão, um amor real, como tantos, verídico, verdadeiro, possível, real! E consegue o seguinte, não de somenos. Que cativem ao leitor os dois protagonistas. Ele, pelo desespero existencial da sua essência de solitário, «lobo» que ainda assim ama, que ainda assim perde, que ainda assim busca e sofre numa espécie de auto-exílio. Ela, pela força das decisões, dos rumos escolhidos, da desdita para a qual o destino a empurra. E aqui enreda-se o contar numa outra vertente do livro, o modo como cita e recria (homenageando) o mito de Ulisses. É que, na verdade, assistimos neste desfiar de enredo a uma espécie de «Ulisses» ao contrário. Um «Ulisses» invertido em que, aqui, é Penélope que parte deixando Ulisses num vazio angustiante, numa espera que se eterniza e que o levará mesmo (às portas do desespero) a partir em busca de Penélope, sem saber que o fio do seu destino comum há muito se partiu. «Tinhas partido e era eu que ficava em casa, à tua espera. Como Penélope, era eu que te esperava, que mantinha a esperança. Contra o mais elementar senso comum.» Uma analogia que é tanto mais palpável quanto se percebe que, a exemplo de Ulisses que foi morto pelo seu filho, também este nosso Ulisses (de Teolinda, entenda-se) acaba, indirectamente, por morrer (ainda que não fisicamente) por via do seu filho, que de algum modo renegou, que, não tendo sequer nascido, acabou por gerar a morte futura do seu progenitor; algo que se traduz ainda, e curiosamente, por via de um excesso, ou liberdade ficcional muito interessante, que estende o limite da tragédia transpondo para Penélope (Cecília) a morte física e a consequente morte psicológica e existencial de Ulisses (leia-se Paulo Vaz).

Um outro aspecto é iniludível: «A Cidade de Ulisses» resulta num belo tributo a Lisboa. Quanto a mim, encarreirando nos grandes romances que versam a cidade. Sem grandes elaborados semânticos, sem rodriguinhos pseudo-poéticos, apenas aludindo ao melhor de Lisboa, as suas ruas, as suas gentes, o seu ar, a sua luz. Mas, voltamos a sublinhar, sem, do mesmo modo, se demitir de elencar os seus “pecados”. Teolinda tece-nos, em suma, aquilo que, em pintura, seria algo parecido com uma aguarela. Tudo, de resto, como habitual no dizer de Teolinda: respirando contenção, luz, serenidade e apaziguamento. Numa palavra: sensibilidade.

Por último, diria ainda que, aludindo ao universo das artes plásticas (o romance começa com um convite da Gulbenkian para que Paulo Vaz realize uma obra que traduza um olhar sobre o país), este livro consegue aproximar-se, de uma forma correcta, fiel, não excessiva, daquilo que é o modus vivendis no mundo das artes plásticas, ficando talvez apenas por explorar melhor aspectos como os modos como esse mundo negoceia, as redes que se entretecem, pela pequenez do meio, pelo amiguismo, pelo porreirismo, pelos interesses em jogo, individuais ou institucionais, críticos ou outros, etc. Por outro lado, aquilo que são as preocupações, os ritmos e as angústias próprias do criar parecem-me ter sido bem “fotografadas” por Teolinda Gersão. Nâo poupando nas palavras, porque simplesmente não há que temê-lo, estamos perante um excelente romance.

Lídia Jorge, «a noite das mulheres cantoras», Dom Quixote, 317 pp.

Nem um pintor realiza sempre belos quadros, um escultor apuradas linhas e formas, sequer a um poeta assiste invariavelmente a musa da inspiração. Serve o discurso para ir directo ao assunto: o novo romance de Lídia Jorge é francamente mau, ou frágil, ou fraco. Pelo princípio: recebi o livro com expectativas. Ei-lo nas mãos, título bonito (com um quê de pretensão poético-literária), imagem (de uma cortina de palco em tons velados e misteriosos) intrigante, assim, por conseguinte, a aguçar o interesse do leitor que preza também o livro-objecto. E, ávido, comecei no imediato leitura que no dia seguinte terminei. Não foi fácil, contudo. Logo, logo, às primeiras páginas, a coisa se ia mostrando mais e mais difícil, lembrando-me, no imediato, página a página, a penosa leitura de «Combateremos a Sombra». Difícil, árdua, arrastada. Repetitiva. Fazendo da leitura o que ela não deve ser, um combate. Vejamos: a páginas 80, o enredo pouco avançava, às cem, idem aspas, no final do livro o sabor a pouco, e a sensação (circular) de páginas e páginas repetitivas. E sobretudo, um monte de dúvidas, bastas perplexidades, expectativas goradas.

A começar pelo tema, que me pareceu desinteressante, e de igual modo a estória, a intriga, frágil e sem espessura, nada ajudando ao tratamento da temática. A saber: o mundo da fúria de vencer, da cega sede de tudo querer a despeito de quaisquer constrangimentos ou moralismos. Em suma: atingir os fins não olhando a meios. Que fins? O desejo de sucesso mediático, tão velozmente contemporâneo como Debord, Lipovetsy e afins trataram há muito de dissecar. Os meios: no caso, uma atabalhoada história de um grupo de “amigas” que no final dos anos 80 sonharam formar um grupo musical capaz de conquistar mundo, quando, ver-se-á depois, mas logo se percebe, mais não alcançaram do que os estafados 15 (são quinze?) minutos de fama Warholianos, no caso vertidos à imagem de título de programa televisivo, «império minuto». Pelo meio, e como prova do excesso da persecução da fama, a morte de uma das cantoras aquando de um dos ensaios, episódio que soa a falso, postiço, forçado, ali enxertado a pretexto do avanço de uma narrativa já então à deriva.

Um outro problema que salta à vista parece-me ser o de uma pouco credível contextualização de época. Sobretudo no plano musical. A começar pelo facto de ser pouco crível que no final dos anos 80 se assista a um tal fenómeno de constituição de uma girls band (quando muito uma boys band, que dentro em pouco começariam a dar cartas), sobretudo de cariz semipimba. Mas isso até são somenos. Porém, tratando-se de uma narrativa em torno do mundo da música, esperar-se-ia uma explanação fiável do que eram as modas e rumos musicais da altura; mas sobre isso nada, ou talvez tão-só referências espúrias aos clássicos Roger Waters ou Gloria Gaynor! – isto quando se sabe que os anos 80 testemunharam uma tamanha revolução no mundo da pop-rock, reinventando fórmulas e processos que alastrariam a toda a década seguinte, com repercussões que ainda hoje ecoam! Trata-se, uma vez mais, de um aspecto que não parece ter sido atendido; e, note-se, que até poderia ter cabimento estivéssemos nós perante personagens de rasa instrução e num contexto de província (onde, valha a verdade, esta história faria mais sentido, com devidas adaptações); acontece que estamos a lidar com personagens universitárias! Personagens, de resto, e não menos estranhamente, que conhecem Whitman ou Kafafy (cuja grafia, de resto, e aqui a título mesmo de parênteses, devia ser concertada em Portugal), cantam Vivaldi, Puccini ou Bizet, e são as mesmas que depois se prestam à escrita e cantilena de versos (letras de canções) do mais piroso que se possa imaginar. E do mesmo modo, outras perplexidades: por exemplo, o ser muito pouco verosímil que um jovem que trabalhou com Martha Graham surja do nada em Lisboa para trabalhar um grupo de raparigas entre as quais só uma sabe cantar! Ou, por exemplo ainda, a gasta caricatura de músicos como fauna rude e malcriada… Ou, para terminar, no domínio das improbabilidades, como compreender que um grupo de raparigas anónimas ainda antes de gravar um disco e se dar a conhecer já tenha espectáculos marcados no Coliseu dos Recreios?

No capítulo das personagens, este trabalho de Lídia Jorge parece-me também notoriamente frágil. Lídia, cujo tratamento romanesco do universo feminino é assaz referido, quando não reverenciado, deixa aqui claramente créditos por mãos alheias (por exemplo, as de uma Maria Velho da Costa e da sua formidável “Myra”, por exemplo as de Hélia Correia e da sua sublime “Lizzie”, ou ainda, as mulheres avassaladoras de mistério tal qual no-las apresenta uma Ana Teresa Pereira, já para não ir à densidade psicológica das mulheres de Agustina) rubricando personagens de muito “fraca figura”. Especificando: nenhuma destas mulheres revela uma ponta de espessura psicológica. Vejamos Gisela, aquela que supostamente nos é apresentada como exemplo de mulher, pelo seu mistério, pela sua força. Gisela revela-se afinal uma pobre de espírito e, por mais do que uma vez, uma chorona, que cede aos caprichos dos homens (veja-se o exemplo da exigência de que Solange repartisse a autoria das letras das canções com Capilé), que vive na sombra do poder do pai, e, mais estranho, que amiúde se revela um poço de contradições. Algo, de resto, que ressalta ou perpassa pelo olhar de Solange, que passa a narrativa a dizê-la «uma mulher admirável» quando, estranhamente, aquela vem a revelar-se uma tirana no trato geral e em particular com Micaia; a mesma Micaia para cuja morte ela contribuirá mercê da sua frieza de espírito e cegueira de sucesso a todo o custo…. a mesma Gisela que depois vem a mostrar a sua faceta angélica, mostrando-se muito condoída pelo “passamento” da “amiga”: «Ela, a parte dela em nós que não morreu, ela sabe.» Ora… Quanto a Gisela (o mais) já falámos, das restantes (o menos), meros peões de refrega da primeira, que dizer?

Mas outros aspectos do romance dão que pensar. Por exemplo, ainda recorrendo à contra-capa: «A história de amor comovente que une as duas personagens principais, Solange de Matos e João de Lucena, é, por certo, um daqueles episódios que iluminam a realidade e tornam indispensáveis a grande literatura sobre a vida de hoje…» Amor comovente? Quando? Porquê? – surge do nada, sem raízes, sem chama, não conhece convulsões de maior, sequer conhece experiências ou provações de grau algum, resiste ou sobrevive a coisa nenhuma!!!… – na verdade, desse amor comovente, o mais que nos é relatado a um tal respeito são umas idas e vindas da garagem de ensaios para o centro de Lisboa e volta, para além de uns momentos baços e episódicos no café ou umas visitas à casa de um grupo feminino-geriátrico com conversas de meio tostão! Iluminar a realidade? Qual? A realidade do amor de um homem que deixa a sua amada para partir rumo à felicidade profissional? Já conheceu a literatura amores maiores… Dirão ainda e talvez que as Irmãs Alcides rubricarão exemplo (último) das mulheres vindas de África, resquício do Portugal colonial, mas sobre o seu sentir nada se diz, pouco se intui. Dirão que se trata de um fresco sobre a vida universitária nos anos 80. Como assim?; desde logo as personagens se distanciam da universidade, e o mais episódico a um tal respeito é uma ida de Solange a um exame do qual desiste!

No plano do estilo, passagens há que igualmente nos espantam. Seja pela suposta grandiloquência, traduzida, o mais das vezes, em arremedos poéticos duvidosos – casos de: «… compreendi que o céu poderia ser alcançado através de veredas que atravessassem campos onde as árvores, sozinhas, caminhassem falando.», «… a minha vida era uma harpa incendiada», ou «só a chuva, como num postal, continuava a cair na copa das árvores» , seja por frases de sensibilidade estética duvidosa. Exemplifico: por exemplo, quando uma personagem está num café a comer um gelado «… já passou uma hora, e metade do gelado atingiu um ponto tal de desintegração que me sabe ao que imagino que possam saber as fezes apodrecidas.» !!! Ou também: «… ela própria arrebanhou os pertences de Madalena, o saco, o guarda-chuva, a gabardina, as botas altas enlameadas, pegou em tudo isso num braçado, como se fosse um monte de lenha ou um saco de bosta…» Mas mais: «Assim, quando o professor Castilho se acercou da minha mesa, eu estava a pensar no peito do meu amado, e na camisa branca que ele usava desapertada, onde eu agora enfiava o nariz para fungar devagarinho…» Ou, no domínio de expressões angulosas: «… possuindo o telefone com as duas mãos»; «… a simulada eternidade de uma página»; «… que bom é o senhor Simon, o meu pai»; «… um rapaz que me estendia espumante e sólidos a condizer»; «… vocês não precisam mais de se prantearem»…

Termino, questionando-me vezes sem conta: este livro foi mesmo escrito pela Lídia Jorge? Cada vez mais me convenço, o tempo, os tempos (exactos) de dizer, de contar, de escrever – «tudo tem um tempo/ de respirar», como escreveu o poeta Mendes de Carvalho – de um escritor não se medem (não deveriam medir-se) pelos calendários editoriais. Que cada vez mais as editoras catalisam os ritmos da escrita (aquela que vende ou que se sabe vender) já o sabemos, o que talvez as editoras desconheçam é que assim matam os seus (bons) escritores, quando não, vão certamente matando alguns dos seus leitores. Porque Lídia Jorge já escreveu grandes romances, seria de esperar que o seu tempo próprio lhe fosse devido como sinal de respeito e reconhecimento.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 7, 2011.

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