Café com Kafka – um conto tabágico – txt e ilust. ptn

Nuvens, a sala enchia-se por vezes de nuvens. Minto: todos os dias, a todas as horas . Anos sobre anos. Nuvens espessas, brancas, evoluíam sobre a minha cabeça em círculos, pairando rente ao tecto, em lentas metamorfoses de formas e feitios. Inúmeras vezes me recordo de ter adormecido num tal ambiente e, ao contrário de amigos meus, que recordam dos tempos de infância e adolescência as vezes em que no céu contaram carneirinhos ou ali afirmam ter vislumbrado animais – de simples moscas até elefantes ou dragões –, eu garanto que naquele pequeno espaço vi formar-se no ar toda a fauna que na Terra se já viu.
Sim, nos anos 60 os meus pais fumavam muito. Furiosamente, com o mesmo ímpeto com que, recordo-me também, saíam à rua desfilando comigo aos ombros em manifestações – para mim, então, nada mais do que grandes festas de amigos, desconhecidos que entre si trocavam grandes abraços e beijos afectuosos. Isto, claro, no meio de palavras de ordem gritadas a plenos pulmões enquanto cordões policiais os olhavam com ar de poucos amigos. Os amigos dos meus pais ofereciam-lhes flores, mas eles não aceitavam e eu não percebia porquê – talvez estivessem chateados por não poderem participar na festa. Fumar um cigarro, talvez…
Os olhos, sim, irritados. Sempre vermelhos. Vamos… às vezes verdes, que assim me nasceram. Mas, regra geral, às primeiras horas da manhã, vermelhos. Semáforo… Creio que foi logo ao primeiro dia que me alcunharam. A muito custo acompanhava de olhos abertos as prédicas dos professores. Alguns recriminavam-me – de cigarro na mão. Para onde quer que me virasse havia sempre algum adulto a fumar. Eu olhava-os e imaginava – de olhos abertos, bem abertos – que os cigarros eram parte integrante dos seus corpos, uma espécie de continuação dos dedos, ou dedos sobresselentes, tal a velocidade com que por entre eles surgiam e desapareciam para logo voltarem a reaparecer.
As crianças têm imaginações férteis. Os escritores também. Essa foi, de resto, uma das primeiras coisas que aprendi com o meu pai, ainda que sem que ele tenha desejado ensinar-mo deliberadamente. O meu pai era escritor. À data tinha um livro publicado, o qual, julgo, até nem fora mal recebido pela crítica. Sucede que o ansiado segundo livro tardou. Ou melhor, ele tardou em inspirar-se para conseguir escrevê-lo. E durante anos essa retoma literária não passou de uma promessa continuamente adiada. E, já se sabe, uma promessa demasiadas vezes repetida acaba por tornar-se numa mentira. Mas o meu pai era escritor, e tinha imaginação: dizia-me, absolutamente convencido, que não escrevendo estava a escrever. Era assim, de resto, com a maior parte dos escritores. Ou seja, a imaginação ia fazendo o seu trabalho; ela estava lá, de raiz, só havia que esperar que fizesse a sua parte do trabalho, que medrasse. E então, quando isso acontecesse, ele, escritor que era, só tinha de estar disponível para fazer a sua parte, escrever – ser escritor. Parece-me que, de facto, imaginação era coisa que não lhe faltava.
Os anos passaram e já nos anos setenta bem mais imaginativa teve de se tornar a minha mãe. Sobreveio a crise petrolífera, o país entrara em recessão, o que ela tirava ao fim do mês como secretária de redacção num jornal era muito pouco; em suma, os ganhos não chegavam para os gastos. Até porque o meu pai continuava a imaginar que a sua imaginação trabalhava ainda para que um belo dia lhe batesse à porta sob a forma de inspiração. Enquanto isso, ele esperava. Limitava-se a esperar, sempre em casa, invariavelmente de robe e pantufas, enquanto folheava um livro ou outro, espreitando de quando em quando a televisão. E, no entretanto, os dois continuavam a fumar. Ou antes, os três continuávamos a fumar, porque na verdade eu fumara desde que nascera. Ah, sim, a literatura é perigosa!
A tal ponto que me tornei, também eu, escritor. Também eu, digo, porque igualmente a minha mãe a certa altura começou a escrever. Isto é, começou a alinhar umas ideias para ajudar o meu pai, que, tardando a sua imaginação, se via perigosamente a entrar numa rota depressiva. De modo que a minha mãe, aqui e ali, com muito tacto e como quem não queria a coisa, para não melindrar o ego do verdadeiro escritor, por esta e aquela palha, a respeito de um tal ou outro tal assunto, deitava para o ar umas ideias que, achava ela, dariam boas histórias. Por exemplo, falava-se na televisão de Kafka e da sua influência noutros escritores, e ela, que lera, não havia muito, «O Castelo» e «A Metamorfose», deixava escapar como se falasse apenas de si para si: olha… que interessante; não seria curioso imaginar um congresso de sósias de Kafka, reunindo-se anualmente num castelo da Boémia e partir daí para uma história de cariz fantástico, em que durante os dias do encontro diversas circunstâncias e acontecimentos motivassem estranhas ocorrências entre os participantes? Depois, rapidamente, desviava a conversa para outros assuntos, como se aquilo não tivesse sido mais do que um comentário fútil, uma comezinha e vã estória de príncipes e princesas. Deixava assim as ideias morrerem mal acabara de lhes dar vida. Virava então a cara ao meu pai e ocupava-se de outros assuntos, na certeza de que o deixara de orelhas espevitadas quanto à ideia que lançara no ar.
Por isso digo que também eu me tornei escritor. Muito mais tarde, claro está, sobre estes acontecimentos. Que duraram toda a década de 70, anos durante os quais os meus pais continuaram a fumar, muito e de forma furiosa, ao contrário do que se passava nas ruas, onde as convulsões político-sociais se tinham moderado. Ah, o fumo… vi de tudo formar-se nessas sombras brancas e cinzentas que toldavam os dias e as noites na sala de estar dos meus pais onde eu costumava adormecer. Ou, se quiserem, fumei de tudo: cabras, baleias, telefones, automóveis, comboios, gigantes e anões, palácios, confesso mesmo, um pouco mais tarde, já na adolescência, algumas cenas de pendor erotizante. Sim, provavelmente já estaria semi-drogado, numa outra dimensão.
Aos doze anos lembro-me de ter pedido o primeiro cigarro ao meu pai. Adivinhem a resposta: — Tu estás louco? Sabes o mal que o tabaco faz? Maldosamente, respondi-lhe que imaginava. É claro que tive de começar a roubar-lhos. Um aqui, outro acolá, não havia como notar, até porque à velocidade com que continuava a fumar seria muito difícil fazer as contas ao andamento dos maços. Nunca mais parei. Até porque, tempos depois, quando o meu pai deixou de insistir em tapar os olhos com uma peneira de um suposto exemplo comportamental e moral, passei a ter autorização para fumar em casa à frente deles. Uma resolução óbvia, até porque logo, logo o meu pai se apercebeu de que eu poderia significar uma fonte de reserva em qualquer ocasião, não fosse ter ele o azar, por exemplo, de se lhe acabarem os cigarros a meio da noite.
A sala ficou ainda mais branca, escusado será dizê-lo, na mesma proporção em que os meus olhos se tornavam mais e mais vermelhos. A leitura e a escrita tudo pioraram, naturalmente. Eram então três escritores dias inteiros metidos em casa à espera de inspiração, puxando pela imaginação ao ritmo fulgurante com que puxavam passas dos cigarros consecutivos. Havia dias em que, abrindo a janela da sala, o fumo que dela sairia poderia muito bem levar alguém lá em baixo na rua a pensar que ali dentro se discutia uma sucessão papal e que o novo pastor máximo da santa igreja católica acabara de ser encontrado.
Os meus pais faleceram há cerca de três anos, os dois no espaço de poucos meses. Cancro, claro. Por herança recebi apenas a casa, o seu recheio e uma despensa bem atestada de maços de tabaco. Não foi fácil habituar-me à sua ausência. Noites houve em que adormeci nesta mesma sala de sempre, onde agora me encontro, julgando percepcionar-lhes os rostos nas nuvens de fumo que expelia, umas atrás das outras, até fechar os olhos. O meu primeiro livro, publiquei-o no início do novo século; chamei-lhe «Café com Kafka». Não me arrependo nem me envergonho dele. Se vendeu, não sei, hoje em dia as editoras não dão troco nenhum aos escritores. Enfim, o lançamento até foi engraçado, convidou-se para dizer umas palavras o Manuel da Silva Ramos, houve excertos de leitura encenados… Julgo até que se chegou a ponderar a ideia de fazer o lançamento na República Checa, embora depois, por questões económicas, se tenha decidido fazer a coisa dentro de portas.
A metamorfose? Começou sem que eu desse por ela. Enfim, pelo amarelar e esfarelar da pele dos dedos nunca julguei que chegasse aonde cheguei. Pensei que as manchas eram consequências normais num qualquer fumador. O problema é que eu não era um qualquer fumador. Eu era o fumador, o grande fumador de todos os tempos. De tanto fumar, às tantas o meu corpo já não tinha por onde absorver a nicotina, de tanto fumar começou o meu corpo lentamente a tornar-se, ele mesmo, num cigarro. Assim, como se ao fumar cigarro atrás de cigarro estes começassem a tomar-me o corpo, e este, aos poucos e poucos, fosse aprendendo a sua forma cilíndrica. Com o passar dos dias, um amarelo-acastanhado espalhou-se pela pele, primeiro os dedos, depois as mãos, logo os braços, o tronco, a cara, por fim o corpo inteiro. E senti-me secar; por dentro e por fora. Depois, subitamente, um dia, acordei com a pele branca como uma folha de papel. Tornara-se o fumador na coisa fumada.
Rolei até ao espelho mais próximo: um cigarro com um metro e setenta e sete. Deixei-me cair na cama, apavorado. Não tinha mãos, não tinha olhos, cabelos, pernas… eu era um cigarro. A minha vida tinha terminado – com tamanha propaganda anti-tabágica, com tanto extremismo anti-fumadores, jamais eu poderia sequer pensar em sair à rua. Passei a viver em casa, recluso de mim mesmo, recluso do meu vício. Cortei as poucas relações de amizade que mantinha, despedi a empregada de limpeza por telefone, cancelei todos os contactos com a editora por email, passei a pedir a empresas de entrega de comida ao domicílio que me viessem trazer refeições a casa, pagando-as por baixo da porta e pedindo que as deixassem no chão, que depois, mal dispusesse de tempo, as recolheria.
Foram anos difíceis. Este mundo não está feito à medida de um fumador, quanto mais de um cigarro Tinha apenas um consolo, para além dos livros da biblioteca dos meus pais: já não precisava de comprar tabaco. A cada vez que me apetecia fumar bastava-me inalar a mim mesmo. Um dia descuidei-me, enquanto fumava e lia adormeci. Em poucos minutos ardi por completo pegando fogo à casa. Os bombeiros chegaram poucos minutos depois de um vizinho ter dado o alarme, mas já as chamas consumiam todo o edifício. Na rua, um pirómano que se aproximara com os olhos a brilhar olhando com excitação a dança do fogo comentava para um velhote: «Não deixa de ser um espectáculo viciante». Indignado com o comentário, o velhote deu uma última passa no seu cigarro, atirou-o para o chão e foi-se embora.

~ por pedroteixeiraneves em Abril 29, 2011.

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