maria teresa horta, rentes de carvalho, afonso cruz, ptn no www.pnetliteratura.pt

Maria Teresa Horta
«As Luzes de Leonor»
D. Quixote
Três romances em português, três empreitadas de excelente lavra e recorte, cada qual com as suas especificidades e singularidades. Comecemos pela obra maior. E como! Maria Teresa Horta dá finalmente à estampa, na D. Quixote, a quixotesca viagem ficcional em torno da biografia da sua avó em quinto grau, Leonor de Lorena, mais conhecida por Marquesa de Alorna, muito embora tal título apenas lhe tenha cabido já em vida adiantada. Pois bem, alguma coisa primeiro a respeito desta mulher que deixou marca indelével no seu tempo e em todos aqueles com quem privou. O fulcro: era neta dos Marqueses de Távora, executados pelo Marquês de Pombal sob suposta acusação de atentado contra a vida do rei, e foi pois por herança genética que se viu prisioneira durante cerca de duas décadas num convento, juntamente com a sua mãe e irmã. Leonor estava, porém, votada a desígnios maiores do que se deixar morrer ou encanecer sob as sombras de um chão católico de freiras e quejandas. Ali, aproveitou para crescer: por fazer-se mulher, bela por sinal, e por crescer em termos culturais, encontrando tempo e maneira de ler todos os grandes pensadores e filósofos da História. Não por acaso, crescia também o seu cortejo de admiradores, muitos dos quais, homens e mulheres, iam vê-la, ou visitá-la ao catre. Aos vinte e muitos Leonor viu-se livre. Escolheu marido por gosto próprio, recusou amantes e maridos outros, e foi conhecer mundo. Ou foi-se dar a conhecer ao mundo! Recebida por reis e rainhas, cedo entendeu os rumos político-diplomáticos de uma Europa prestes a cair em mãos napoleónicas. Talvez por isso mesmo, por alertar para esse perigo, e por ter apelado a uma Europa unida contra Napoleão, se viu exilada manu militari por Pina Manique, certamente a mando de influências gaulesas. No entretanto, Leonor cresci como criadora, como poetisa, com musa inspiradora também – que o diga um Alexandre Herculano. Pelo caminho, tempo e dores para oito partos! Vida cheia e vivida a de Leonor, expoente de Luz ao longo de um caminho que lhe queriam de sombras, lutando contra um passado sombrio, iluminando um futuro que parecia em perigo. Pois bem, havia treze anos que também Maria Teresa Horta lutava contra todas estas sombras e luzes de uma mulher com a qual desde pequena, por influência de sua mãe, aprendeu a conviver. É obra, grande obra, um intensíssimo trabalho criativo (note-se não biográfico, embora partindo de traços biográficos reais) que agora chega ao fim. Cremos, porque nem toda a vida de Leonor aqui se encontra plasmada. Importa, contudo, deixar explícito: o fulgurante trabalho poético que aqui está narrado, uma admirável filigrana que parágrafo a parágrafo se vai entrelaçando criando um soberbo fresco de época, entrando no mais dentro das personagens, chegando ao espírito do tempo como poucos conseguiram. «As Luzes de Leonor», um livro com tudo o que dignidade e mérito encerra uma tal palavra.

Rentes de Carvalho
«A Amante Holandesa»
Quetzal
«A Amante Holandesa», agora, de Rentes de Carvalho. Rentes, já o terão lido nos últimos tempos, já eu mesmo o referi aqui, nesta crónica, quando dei a conhecer as minhas impressões sobre «Ernestina», é escritor de mão cheia, revelação tardia para muitos. Felizmente que a Quetzal lhe «pegou» e tem reeditado a sua obra. Falo agora deste romance «A Amante Holandesa», um livro, uma história (porque Rentes nunca se esquece de contar uma boa história) que é, em si, suficientemente romanesca e empolgante para desde o início nos cativar. Com grande fluência e sentido narrativo o faz, desatando os nós de um passado cujas pontas vem desaguar, com bastas consequências, no presente das personagens. Trás-os-Montes, perto de Bragança. Há um professor do Secundário com vetustos hábitos de índole sexual, há um pastor outrora emigrado na Holanda e que relata ao amigo de infância (tornado «doutor») as suas aventuras com uma belíssima exemplar feminina do país das tulipas e dos moinhos. Memórias trocadas, quer o destino que o pastor morra e caiba ao professor e amigo comunicar aos descendentes «bóeres» do Gato o seu passamento. Tem manhas o destino e às tantas surge em Bragança uma bela jovem com quem o anódino professor tirará meças. Está o enredo traçado, não nas suas e deliciosas miudezas, para que o leitor encontre belas horas de leitura. Com o vinco habitual de Rentes: um português irrepreensível, clarividente e muito bem estruturado, cheio de memórias que a todo o instante se confundem num caldo de emoções. No mais, como em «Ernestina», está lá o seu espaço-tempo de um Trás-os-Montes feito de nenhures e lonjuras, de aldeias remotas e isoladas, onde as leis que regem os locais se pautam por códigos que não os que a Lei civil se encarregou de pôr em Códigos e que tais. Ler Rentes continua, por conseguinte, a ser sugestão que aqui deixo.

Afonso Cruz
«O Pintor Debaixo do Lava-Loiças»
Caminho
Um pulo para outra geração, entre as mais novas a escrever. A escrever, leia-se, com fôlego, imaginação e propriedade. Afonso Cruz (Figueira da Foz, inícios de 70) lança mais um romance: «O Pintor Debaixo do Lava-Loiças». O seu estilo reitera-se, a sua veia imaginativa e singular volta a revelar-se em pleno. Partindo de factos reais, que se jogam no tabuleiro de uma Europa pré-Holocausto, Afonso Cruz entretece um jogo literário em que muitas pequenas histórias se vão encaixando para nos dar um todo que acaba por ser uma só história. Com laivos de surrealismo, uma grande e bem temperada dose de humor e com apetência maior para um registo filosofante (tenha-se, só para exemplo, o modo de ler o impacto de um escorrega na vida das pessoas), por vezes dado em aforismo de belo efeito, o autor faz da palavra um acto verdadeiramente criador e criativo. Como sempre também, ao de cima vem o seu relacionamento íntimo com a imagem, nomeadamente com a pintura e o desenho (ele que, como saberão, é também ilustrador de méritos reconhecidos), fazendo assim, ainda mais, do livro um objecto de reinvenção. Para ler, e emocionar-se, a história de Josef Sors, um pintor de sombras, com a vida a descer, com olhos fechados como se com casacos sobre casacos, que o destino levou a exilar-se em Portugal, em concreto, debaixo do lava-loiças da Dona Rosa… É sabido que os livros costumam ser recolha daquilo que os escritores encontram à sua volta, porém, muitas vezes o difícil é perceber que o que está à nossa volta se encontra primeiro dentro de nós. Talvez por isso, largados no meio do deserto, os homens caminhem em círculo. Pois bem, o que Afonso Cruz faz não é senão andar à volta de nós mesmos, colhendo histórias e memórias, para nos dar o ser humano nas suas grandezas e fraquezas, o ser humano por dentro de si.

~ por pedroteixeiraneves em Julho 19, 2011.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: