«batalha», de david soares, ptneves no www.pnetliteratura.pt

Batalha
De David Soares
Saída de Emergência

É uma memória indelével. Criança, no banco de trás do carro, em viagem para a Figueira da Foz. Às tantas, horas de viagem volvidas (e revolvidas), surgia, como se do nada, ao fundo de uma estrada recta e estreita a descer a visão monumental do Mosteiro da Batalha. Curiosamente, há bem pouco tempo visão similar testemunhei ao descobrir, nos mesmos termos (embora noutro termo), o abandonado e arruinado mosteiro de Seiça. Pois bem, atrás, à Batalha de novo para chegar ao mais recente romance de David Soares, justamente «Batalha» intitulado. E isso para relembrar ainda a história então ouvida, e a cada passagem ali recalcada, das Capelas Imperfeitas do supracitado mosteiro e da correspondente estória do seu arquitecto que, desejando provar a solidez da sua construção e a exactidão dos seus cálculos, sob os seus tectos ameaçando queda (a olhos ignaros) ali pernoitara algumas noites. É esta história que agora, neste seu livro, de uma forma quase tão desarmante como o Mosteiro da Batalha surgia aos olhos dos viajantes ao fundo da estrada, portanto de forma surpreendente, David Soares recupera e nos oferece em forma de literatura.

Que literatura? – perguntar-se-á? Não é toda ela uma só? Sem mais e sem delongas: não é; esta sendo! Mas vamos ao odium habitual nestas coisas de recensão crítica, o passar em visita o currículo do autor. Recorra-se para tal, e de forma sumária, ao que nos avança a editora: « David Soares é autor dos romances Batalha, O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante e A Conspiração dos Antepassados. (…) Publicou quatro livros de contos, seis álbuns de banda desenhada e um livro de ensaio literário sobre banda desenhada. Publicado em França e em Espanha, foi premiado com dois troféus para Melhor Argumentista Nacional e uma bolsa de criação literária, atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pelo Ministério da Cultura. (…) A revista literária Os Meus Livros considerou-o «o mais importante autor português de literatura fantástica». Confirmo tudo e retenho esta última tirada que o diz o mais importante autor português de literatura fantástica. A catalogação é óbvia e quanto a mim redutora, irritantemente redutora. Tão-só porque separa, delimita, exclui – sobretudo isto, exclui. Logo é obscena, coloca fora de cena.

Tomemos Gabriela Llansol ou José Luís Peixoto. Tomemos Paulo Miranda ou Lídia Jorge. Tomemos Gonçalo M. Tavares ou João Tordo. O que une estes universos? Uma mesma literatura? Literatura, literatura, somente literatura? E porque não literatura esotérica, psicológica, introspectivante, filosofante, realista, cinematográfica, por aí adiante? Porque não compartimentar também por aqui? A questão é a seguinte, porquê insistir no marginalizar de uma literatura dita «fantástica»? Onde quero chegar: David Soares é um grande autor literário, ponto. Logo, não será «o mais importante autor português de literatura fantástica», antes, sem qualquer duvida, um dos mais importantes autores de literatura portuguesa. E aqui chegado, resta dizer do porquê de tal importância.

Vamos à história, aqui relatada em jeito de fábula ou parábola. Um dia de dilúvio. Um casal de ratos em fuga tropeça, ao caminho, com uma cria de ratazanas prestes a morrer sob a intempérie. A fêmea condói-se e convence o macho a adoptarem a cria. Trazida ao seio de uma comunidade que não é sua de raiz, o facto é que a diferença e a sensibilidade acabam por torná-la aceite; leia-se: no mundo dos animais a esperança existe! Depois deste episódio comovente inicial o romance segue numa quase linha de aventuras, em que a ratazana se torna gigante ao ponto de conseguir desfeitear a malícia e perversão animal dos gatos, seus predadores ad initio dos tempos, de resto, como estará escrito na lei da vida, nas leis da mecânica original do gigantesco restaurante que é a cadeia alimentar animal… Neste ponto trata-se também de uma viagem (literária e aventureira) de aprendizagem para a ratazana, que no ínterim ganhara o seu nome de guerra, Batalha.

E por aí, ao correr das páginas, o fulcro de todo este narrar e contar, ou seja, o dizer o Homem naquilo que mais nele impressiona: o poder que exerce sobre todos os outros seres vivos. De outro modo, aquilo que David Soares entretece, por vezes no entrelinhas, no não dito ou não nomeado, insinuando para subentender, é o Homem e as suas idiossincrasias. «Batalha» é pois um notável tratado sobre a essência humana, leia-se, sobre os jogos de poder e o seu exercício, que passam pela linguagem, pela crença religiosa, pela lei da força. Mas mais notável se revela à luz da simplicidade com que a narrativa evolui, conseguindo, a um só tempo, estatuir uma singular riqueza de linguagem, bem como uma assertiva e profunda linha de pensamento e reflexão. Elucidativo e exemplar é, diria, o sub-capítulo três do capítulo III, uma brilhante lição sobre o que é o poder, sobretudo quando aliado à perspectiva cristã-eclesiástica.

Depois, e no fim, há Batalha, a magnífica história do Mosteiro da Batalha, a história das Capelas Imperfeitas. Depois, mais não digo, antes convido à partilha de mais uma experiência literária de primeira água. Que nos oferece o prazer de uma história emocionante, que nos reencontra com o prazer da escrita, que nos cativa pela exigência de linguagem, que a todo o instante nos convida a revermo-nos a uma espécie de espelho onde surgimos no melhor e no pior da natureza humana.

Pedro Teixeira Neves

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 10, 2011.

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