a educação sentimental dos pássaros – josé eduardo agualusa

José Eduardo Agualusa
«A Educação Sentimental dos Pássaros»
D. Quixote, 122 páginas


São contos, senhores, são contos, e muitas histórias contadas. Histórias com estórias dentro. Histórias com pessoas, com anjos, com demónios. Histórias de um tempo ontem, de um tempo hoje, de um tempo sem tempo. Histórias que partem da realidade para subvertê-la, permitindo ao autor dizer-se «nas tintas para a realidade». Há realidades que chocam, que ferem, que matam, que são feias, realidades a preto e branco, sem cor, tal qual os ditadores gostam ao ponto de proibirem arco-íris. Leia-se: «Alguém consegue imaginar Hitler, Mussolini, Franco, Salazar ou Pinochet, vestidos com as camisas em seda estampada de Nelson Mandela?» Não, claro que não. Histórias, pois, sobretudo muito bem escritas, muito bem, se se quiser, congeminadas. São também estórias de ver, andar e contar, resultado de vivências autorais muitas, no triângulo-mapa que lhe é reconhecido: Angola, Brasil, Portugal.
Uma vez mais, José Eduardo Agualusa respiga nesta colectânea de contos, díspares no tempo e nos meios em que foram sendo conhecidas, personagens singulares, cheias de maravilha e encantamento. Assim ou, talvez mais correcto dizê-lo, em forma de assim: um homem chamado Escuridão, um ascensorista outrora engolidor de espadas, fogo, escorpiões, arame farpado e, como diria Zeca Baleiro, «outras cositas mas», um homem que à noite se transformava em tubarão-martelo, um polícia de fronteiras que sonhava com a bunda de Charlize Theron,um pintor que um dia ouviu dentro de si uma porta a ranger-lhe o nome Alá, o filho de um Presidente ditatorial que subterraneamente, via Internet, incita à revolução contra o progenitor, anjos que se recusam a voar sem asas, outros que duvidam das suas asas Made in China, ou ainda, entre outras, uma Hillary ou um Jonas Savimbis, estes, quase motu próprio, por via dos seus destinos ( porventura já à nascença escritos no céu, como diria o célebre Jacques, O Fatalista), alcandorados à condição de personagens maiores do nosso tempo histórico-político.
Como se adivinha, por detrás de todas as estórias, fábulas e parábolas (uma dia ainda algum estudante universitário se doutorará com uma «Dissertação em Torno da Importância dos Pássaros na Escrita de JEAgualusa»…), o que se joga em pano de fundo, no entrelinhas e alinhavar dos enredos e ficções, é (tudo; um tudo-muito) aquilo que desde sempre tem enfermado a escrita de Agualusa: o Homem. O homem enquanto bicho capaz de amar e de apreciar o belo (as mulheres bonitas surgem sempre ao fim de uma linha nas suas histórias, surpreendentemente vindo amiúde a sentar-se com o autor numa esplanda), o homem enquanto animal capaz do mal e do ódio. É de poder, no fundo, do seu exercício – não raro impune, e em desmandos insuportáveis (vejam-se aqui, por exemplo, as denúncias lembradas das mortes perpetradas a mando de Savimbi, esse «pai dos mortos» — quanta ironia a da história, tal como no paradoxo dos finais felizes) –, que aqui se trata e lê.
Mas é também, e por oposição, talvez por veleidade de contraveneno, de um sorriso nos lábios da escrita, ou aos seus pés, que devemos também falar após leitura destes contos. É que Agualusa doseia como poucos o apontar de dedo, a denúncia política (no que sobressai também a sua vertente de escrita jornalística e cronista), com um prazer de escrita (dele e nosso) plasmado numa boa-disposição e humor recorrentes. No fundo, Agualusa é um escritor que olha a realidade do ponto de vista da sabedoria maior, feita de vida e testemunho, aquela que já conhece a máquina-homem por dentro (o seu «aspecto engandor»…) e sabe que nada há a fazer para obstar à sua animalidade congénita e visceral. Talvez por isso o riso, o riso com última instância, instância de resistência, tal como a crença última nas mulheres, na Mulher, tal como, acredito, a crença na escrita e no poder dos livros. Quanto a Deus? – que sim, também entra nestas páginas: ficamos a saber que é brasileiro e que já nada o incomoda – facto em si extremamente incomodativo…

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 14, 2011.

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