ana vidigal – uma entrevista a propósito de «estilo queen anne»

ANA VIDIGAL
“ESTILO QUEEN ANNE”
Galeria Baginski
Rua Capitão Leitão, 51-53, Lisboa
Até 5 de Novembro

TXT e Fotos PTN

Ana, apresente-me esta exposição, que regista um dado algo novo em si, o juntar de dois tipos de trabalho…
Sim. Esta é a minha primeira exposição nesta galeria, Baginski, e é uma exposição em que eu tentei pela primeira vez juntar digamos que duas vertentes do meu trabalho. Enfim, não faço grandes distinções entre a minha actividade como pintora e o meu trabalho paralelo, mas de qualquer modo, tentei, não sei se consegui, mas pelo menos foi esse o meu objectivo, que a partir de agora as minhas exposições englobem todo o tipo de trabalho que eu faço. E por isso foi uma exposição que me deu grande prazer pensar e fazer. Mas também, ao fim ao cabo, é o desenvolvimento normal do meu trabalho de atelier e do meu trabalho de investigação e, mais uma vez, uma análise e um estudo sobre o tempo; o tempo em que eu vivo, o tempo em que eu trabalho. No fundo, estou a trabalhar novamente sobre as memórias, sobre o tempo. É por tudo isto a continuação natural do meu percurso.

Mas porque tomou, ou o que a levou exactamente a tomar essa decisão, de aglutinar as coisas?
Creio que tem a ver com o balanço que eu fiz o ano passado, na exposição antológica. Essas exposições são sempre muito boas, porque são paragens e são espaços de reflexão. Ao fim ao cabo, estamos um ano a preparar uma exposição de coisas praticamente já executadas e isso dá-nos, enfim, dá-nos distância e capacidade de analisar o que é que queremos fazer dali para a frente. E, portanto, digamos que esta exposição é o resultado da minha paragem e da minha reflexão sobre os 30 anos de trabalho que eu fiz e também sobre o que é que eu queria fazer depois de fazer uma exposição antológica. E a minha decisão foi essa, foi englobar tudo, não fazer separações e assumir o trabalho, todo o trabalho que eu faço, como um trabalho de apresentação pública.

E, contudo, diria, as metodologias e os pontos de partida, bem como os processos, são os mesmos…
Exactamente. O processo de trabalho é exactamente o mesmo. A diferença é que o que eu fazia antes, muitas vezes, era que apresentava, dividia as apresentações. Ou seja, havia um tipo de trabalho que eu apresentava isoladamente e depois apresentava também a pintura, mas também de forma isolada… Nesta exposição eu tentei que isso tudo convivesse em termos formais nos espaços disponíveis. E mesmo assim ainda faço uma pequena distinção entre a sala 51 e a sala 53! Mas como eu costumo dizer, estes processos são lentos e portanto é tudo um processo de trabalho e de aprendizagem. Quer dizer, é com o tempo que estas coisas se vão juntando. Eu continuo a trabalhar sobre as mesmas coisas. É um trabalho contínuo.

E antevê daí algumas vantagens para o público?
Não sei. Eu nunca calculo qual é a reacção das pessoas ao trabalho e à apresentação do trabalho. O que eu penso é que para mim é mais gratificante não estar a fazer separações mentais entre maneiras de trabalhar.

Não se trata, portanto, de nenhuma espécie de urgência no dar a conhecer o trabalho?
Não, eu nunca tenho pressa em dar a conhecer. Eu acho que a pressa não leva a lado nenhum. E as coisas acontecem exactamente no tempo em que têm de acontecer. Forçar uma situação geralmente nunca dá bons resultados.

Fale-me então um pouco mais em pormenor sobre o que poderá visitar-se nestas duas salas da galeria.
Na Sala 51 vão estar trabalhos sobre tela e sobre papel, e na Sala 53 vão estar reproduções a jacto de tinta. Na Sala 51 é um trabalho mais de atelier, trata-se da utilização de moldes e de vários materiais que eu já utilizei antes no meu trabalho, mas aqui, digamos, de uma forma mais crua, ou seja, como eu dizia, como resultado de uma clara intervenção pictórica. Nesta sala e com estas obras o que me aconteceu foi… eu utilizo muito autocolantes, autocolantes esses que vêm em livros para as crianças colocarem os autocolantes. Quando eu os utilizei, deparei-me com imagens completamente vazias, despojadas e que me levaram a várias reflexões sobre o tempo, sobre a solidão, sobre o próprio envelhecimento. Na Sala 53 é antes o assumir mais os materiais e trabalhá-los só com intervenção de projecção de figuras de banda desenhada. O que se passou é que estive muito tempo sem saber como é que poderia pegar naquelas imagens – porque eu trabalho com materiais que encontro e que gosto de transformar e que gosto de utilizar directamente mas com alguma intervenção minha –, e ao fim de bastante tempo percebi que a minha intervenção única era retirar-lhes a cor, ou seja, pô-los a preto e branco, processo que lhes conferia uma dimensão quase clássica, e tirava todo aquele contexto lúdico e de livro infantil, transformava aquelas imagens em imagens românticas e de extremo isolamento e digamos que umas paisagens do século passado. Tudo isto, todo este trabalho, como dizia há pouco me levou a colocar questões que são questões que neste momento me interessam.

Trata-se, portanto, de uma espécie de metamorfosear das imagens.
É a transformação completa do que aquela imagem realmente é, ou seja, trata-se de perceber como é que a manipulação da cor e a manipulação da dimensão pode alterar completamente uma imagem apanhada, imagens que eu recupero, por exemplo, em livros para crianças.

Há aqui muito trabalho artesanal, de composição e colagem, de corte e cola. A pintura por si só não lhe basta?
Para mim, toda essa recolha, todo esse acumular de materiais para mim é pintura. Para mim, eu sempre assimilei esse trabalho como pintura. Quer dizer, utilizar muita tinta e muitos pincéis, ou utilizar muita cola, para mim sempre foi a mesma coisa e cada vez faz menos sentido para mim fazer essa distinção.

E há sempre por detrás de todo este trabalho a vontade de contar uma história, é assim?
Acabamos sempre por contar uma história. A história que as pessoas lêem ou que as pessoas vêem é que muitas vezes não é aquela que nós contamos. E o engraçado do jogo é exactamente esse, é nós dar-mos pistas ou não e as pessoas construírem o seu próprio diálogo com a imagem, com aquilo que estão a ver. Mas, sim, eu conto sempre uma história, agora se as pessoas a ouvem ou não isso é que…

E que histórias são essas?
São histórias que eu presenciei ou que eu vivi, outras são completamente ficção, ou seja, que eu gostaria de ter vivido. Mas são sempre coisas, sentimentos que eu manipulo ou que eu utilizo. Quer dizer, são coisas que me são próximas.

Há aqui inúmeros trabalhos novos e com muito trabalho… Está num período de felicidade criativa?
Não… Talvez o que aconteça é que aos 50 anos percebemos que o tempo passa rápido e portanto há que aproveitá-lo muito bem, e é isso que eu quero, é ter tempo para trabalhar. Mas como não sei, não faço futurologia, não sei o que é que me vai acontecer, aproveito o mais possível todo o tempo que tenho para fazer aquilo que eu gosto e eu quero.
Quer elucidar-me quanto à descoberta deste título, «Estilo Queen Anne»? Como é que lhe surgiu?
O «Estilo Queen Anne» foi o resultado de um belo jantar com amigos em Madrid. Estávamos no Arco, e eu acho sempre que várias cabeças a pensar é melhor do que uma… E estava exactamente a falar sobre o meu tipo de trabalho e dizia a amigos que precisava de um título que englobasse todo este trabalho e o traduzisse; não só o de atelier, considerado mais clássico, em tela, como também o outro, que é produzido fora do atelier e é feito, por exemplo, no computador. E uma amiga minha, a Ana Bola, que como toda a gente sabe tem imensa graça, disse, “mas isso é o estilo Queen Anne”. E ficou.

Para terminar, e o que é exactamente esse estilo?
O estilo Queen Anne é uma coisa um bocadinho assustadora, do tipo de móveis e coisas… (risos) E portanto é todo um jogo irónico com o que a palavra realmente significa e com aquilo que eu faço.

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 21, 2011.

2 Respostas to “ana vidigal – uma entrevista a propósito de «estilo queen anne»”

  1. Olá Pedro, tomei a liberdade de colocar no meu blogue.
    Um beijinho
    Ana
    http://anavidigal.blogspot.com/2011/10/ana-vidigal-uma-entrevista-proposito-do.html

  2. Parabéns pela entrevista

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