apostas propostas – gérard castello-lopes – uma entrevista com jorge calado a propósito de «aparições»

GÉRARD CASTELLO-LOPES 1956-2006

Aparições

São cerca de 150 fotografias que retrospectivam o trabalho de um dos mais destacados fotógrafos portugueses do século XX. Em «Aparições», obras inéditas, objectos pessoais, provas de escala diversas, revelam um olhar singular no modo de ver e olhar o Portugal dos “passos em volta”. Sobre Gérard Castello-Lopes, o “nosso” Cartier-Bresson, conversámos com Jorge Calado.

TEXTO PEDRO TEIXEIRA NEVES

Gérard Castello-Lopes (1925-2011) é um dos expoentes da chamada geração de ouro da Fotografia portuguesa. Começou a fotografar nos anos 50, na companhia de nomes como Sena da Silva, Carlos Afonso Dias e de vários outros. Discípulo da fotografia decisiva de que Cartier-Bresson foi mestre e obreiro, Gérard verteu a imagens a alma portuguesa das décadas cinzentas do salazarismo. Nada de confusões, interessavam-lhe as pessoas, interessava-lhe o contexto, interessava-lhe a imagem. Desiludido com o andar da carruagem artística do país, deixou a fotografia de lado por longos anos. Só em 1982 lhe retomou o gosto e arte, quando expôs pela primeira vez na Galeria Ether, em Lisboa. Depois disso não mais parou até ao seu desaparecimento. Nascido em Vichy (França), em 1925, Castello-Lopes morreu em Paris a 12 de Fevereiro de 2011. Com uma vida dividida entre Portugal e França, marcou não só o cinema (como crítico, actor, assistente de realização e administrador de Filmes Castello Lopes), mas também a fotografia e o jazz (foi co-fundador do Hot Clube de Portugal em 1948), em Portugal. Em Lisboa, o BES Arte & Finança, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, homenageia esta grande figura da cultura portuguesa com uma grande exposição retrospectiva. Concebida e organizada por Jorge Calado, ”Aparições – A Fotografia de Gérard Castello-Lopes 1956-2006” reúne 153 fotos do artista, ilustrando as suas concepções sobre escala. Entre elas, cerca de cinquenta imagens inéditas, todas da colecção da família. Uma mostra que se completa com uma série de retratos de Gérard Castello-Lopes por outros fotógrafos e por um conjunto de objectos pessoais (câmaras fotográficas, livros, discos, agenda, etc.). Em Abril de 2012, a exposição viajará para Paris, para ser exposta nas novas instalações do Centre Culturel Calouste Gulbenkian.

Jorge, que Gérard Castello-Lopes podemos aqui encontrar?
Todo o Gérard, por assim dizer. Isto é a súmula do trabalho do Gérard Castello-Lopes. Porque uma das minhas primeiras preocupações foi mostrar, digamos, a sua obra completa. Desde as primeiras fotografias que ele tirou em 1956 até às últimas, em 2006 e 2007.

Mas há dois períodos de trabalho na vida dele, daí a pergunta.
Sim. Em geral as pessoas, e ele próprio dizia que concordava, dividem a obra do Gérard em dois períodos: que são os anos 50-60, e os anos depois desse período. Na verdade, ele deixou de fotografar durante cerca de 17 anos e por várias razões; porque não havia interesse pela fotografia, não havia exposições, era praticamente impossível publicar fotografias, etc. Enfim, ele só vai ter a primeira exposição em 1982. Essa exposição foi na Galeria Ether. De resto, um êxito e ele, entusiasmado, também pelo facto de mostrar pela primeira vez publicamente as suas fotografias, resolve pegar novamente nas máquinas. Então continuou a fotografar durante mais de um quarto de século, até ao fim da vida.

Como pensou a estruturação da exposição?
Em primeiro lugar quis saber o que é que havia. A minha primeira decisão foi: eu não vou olhar para os negativos para ver se há outras fotografias que ele nunca reparou, porque acho que isso não é eticamente correcto. Portanto tomei logo a decisão, vou só usar provas existentes. Eu suspeitava ou sabia que havia algumas provas – a que nós chamamos vintages, tiragens da época dos anos 50 e 60 –, que nunca tinham sido expostas, mas julgava que haveria uma, duas, três dezenas… Fiquei espantado quando verifiquei que havia centenas e muitas delas fotografias que nunca tinham sido mostradas! Algumas delas estão agora aqui.

Ao ver a obra como um todo, vislumbrou alterações no modo de ele encarar a fotografia ao longo dos anos?
Não especialmente… Claro que a gente olha para umas fotografias, mais antigas, e vê que as pessoas andavam vestidas de outra maneira, claro que havia mais pobreza, os carros não eram os mesmos, mas a maneira de olhar, aquilo que o interessava no tratamento das figuras e do espaço é a mesma ao longo da vida. Era curioso, porque os formatos também variavam, havia fotografias pequenas, do tamanho de um bilhete postal, e depois havia outras de 60 cm. E, portanto, comecei a olhar para aquilo e nessa altura ainda mais convencido fiquei de que de facto não havia grande diferença entre a fotografia que ele tinha feito nos anos 50 e 60 e as fotografias que fez depois.

Portanto, é um fotógrafo com uma obra muito coesa?
Sim, e foi justamente a unidade na obra do Gérard que eu quis mostrar. Ele tinha, de facto, um olhar muito próprio, único, que o distinguia de outros seus contemporâneos e que era tão bom como alguns dos seus melhores contemporâneos.

Não diria que as pessoas tendem a confundir demasiado a obra dele com uma montra do Portugal dos anos 60?
Eu acho que ele talvez não se tivesse apercebido disso. Mas, de facto, nunca falámos sobre aquilo que eu, nesta altura, depois de examinar a obra, acho que era a verdadeira preocupação dele, que era o espaço. Isso é que me parece importante frisar. Agora esse espaço podia ser preenchido pelas coisas mais diversas. Podia ser uma escultura abstracta, podiam ser pessoas na rua, podia ser uma árvore no meio de uma floresta. A grande preocupação dele era de facto o espaço e a maneira como se olha para o espaço. De cima para baixo, aquilo que eu chamo o espaço vorticista, o espaço cubista, as ilusões ópticas… Ele depois chamava-lhes o paradoxo das aparências. Dizia que uma fotografia nunca é aquilo que parece que é. É outra coisa. Aliás, muita da fotografia dele procura investigar qual era essa outra coisa. Ele dizia que a fotografia não era a representação das coisas, não é? Nem sequer era as coisas! Então o que é? Ele achava que invocava coisas. Tal como nós às vezes ouvimos uma canção e lembramo-nos de coisas que não têm nada a ver com a música. Esse poder de evocação das imagens é que era para ele importante.

Falamos então de um fotógrafo singular?
Repito. Eu procurei através de associações, que não são cronológicas, mostrar que aquilo que as pessoas vêem nas muitas fotografias dele revela, no fundo, uma mesma maneira de olhar, é a mesma preocupação com o desenho do espaço! Isso para mim é que foi digamos a grande conquista dele e a grande originalidade dele. Não tenho a mínima dúvida de que ele foi um dos grandes fotógrafos do século XX, não só na nossa realidade, da fotografia portuguesa, e no quadro especial de uma geração muito boa a fotografar, nos anos 50, mas também para além dessa época.

Gérard, um fotógrafo que também escrevia e pensava a fotografia enquanto arte…
Precisamente e esse é um outro aspecto a ressaltar. São muito raros os fotógrafos que pensam a sério na fotografia. Mesmo os grandes mestres. Há excepções, claro, como o Edward Weston, por exemplo, o americano que nos anos 20 e 30 escreveu os seus célebres retratos, mais tarde publicados e nos quais ele faz uma dissertação sobre o carácter da fotografia… Mas o Gérard era uma pessoa que escreveu, que falou, deu muitas conferências, escreveu textos para livros e catálogos. Era uma pessoa que pensava muito sobre fotografia e isso é raro. Outra coisa que eu acho que é raro é que ele nunca teve vergonha de dizer “eu sou fotógrafo”. Isto é, não tinha aquelas pretensões de dizer sou um artista que faz fotografia ou que usa a fotografia como suporte.

O que é que a fotografia significava para ele?
Ele dizia que tinha dúvidas sobre se a fotografia era uma arte. Depois dizia, sim é uma arte, mas é uma arte menor. Para ele, as grandes artes eram a poesia e a música. Eu nisso não concordo com ele. Até porque acho que a música tem muito a ver com fotografia. Ele, de resto, era um grande pianista, filho de uma excelente pianista, era um homem do jazz… E essas relações, também com a literatura, estão muito na base do trabalho dele.

Às imagens dele juntam-se alguns retratos que amigos lhe tiraram.
Isso porque eu procurei enquadrar o Gérard fotógrafo pelo Gérard visto pelos seus pares. Porque ele era uma pessoa que não tinha invejas, era uma pessoa que tinha os seus mestres, que ele admirava, sobretudo Henri Cartier-Bresson, mas além disso tinha outras afinidades estéticas e era uma pessoa que gostava de gostar dos outros. Outros como alguns amigos contemporâneos que o fotografaram. Dois casos: o José Manuel Rodrigues, Prémio Pessoa, e com quem ele colaborou, apesar de gerações diferentes e com formações diferentes; e também o Augusto Cabrita, fotógrafo e cinematógrafo. Tal como, por exemplo, um outro, tirado pelo Carlos Afonso Dias.

Para terminar. Pode relembrar-nos como é que ele começou a fotografar?
Ele foi um grande desportista, tinha 1 metro e 90 e quando era novo praticava mergulho e caça submarina e escafandria, era aliás monitor nacional de escafandria, com diploma pelo ministério da Marinha. E ele interessa-se por fotografia justamente por causa disso, aquilo que ele via debaixo de água era tão bonito que comprou em segunda mão uma máquina, uma Foca, francesa, para tirar fotografias debaixo de água. Mas naquela altura e também porque a máquina não fosse a melhor, e porque tinha sempre de estar a secar a máquina por causa da água e do sal, de maneira que, segundo ele, começou a usar a máquina a seco e começa a fazer algumas das suas fotografias mais célebres, isso a partir de 56 e até 2007. Ele continuou de resto a fotografar até quando pode. Até doente, já em casa, ele tirava auto-retratos ao espelho, praticamente todos os dias.

BES Arte & Finança
Lisboa, Praça Marquês de Pombal, nº 3
Dias úteis, das 9h00 às 21h00

~ por pedroteixeiraneves em Setembro 28, 2011.

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